GIL VICENTE 09. AUTO DA FÉ (1510)

benito

Resumo:

Dois pastores entram numa capela e ficam maravilhados com os bonitos objetos, que nunca tinham visto. Há pessoas da corte, com roupas festivas. Tudo que os pastores falam é engraçado. Tentam adivinhar o que é cada objeto e para que serve. Surge a Fé, segundo eles, vestida como uma moura. A Fé explica: é noite de natal. E esclarece sobre a natividade.

GV021. Benito e Brás.

No no no no no no

No no no,

Que no quiero estar en casa;

No me pagan mi soldada,

No no no, que no que no.

No me pagan mi soldada,

No tengo sayo ni saya

No no no, que no que no.

(canta João Batista Carneiro)

 

Comentário:

Para cada auto de natal Gil Vicente criava uma situação nova. O objetivo das apresentações era sempre o mesmo mas o dramaturgo variava as situações. Os pastores falam um castelhano bem rústico e a Fé fala português. Nesta peça há dois aspectos que indicam o que virá a ser o futuro Gil Vicente: um grande humanista precursor e um crítico feroz ao tipo de catolicismo do Portugal de então.

Quando a Fé pede aos pastores que cantem em louvor ao nascimento do menino, ela insiste: cantai per vosso uso acostumado, como lá cantais co’ o gado. (Cantem como estão acostumados a cantar junto do gado). E eles cantam uma canção popular. Isto era vanguarda, o uso das tradições populares como recurso expressivo para manifestação da religiosidade.

Por outro lado, uma das primeiras falas de um dos pastores, quando entra na capela, é: Mas que monton de coronas! Bendigalos santo Anton. (Mas que monte de coroinhas! Bendiga-os santo Antonio), aludindo ao grande número de padres. Santo Antonio é uma zombaria, pois que era o protetor dos animais. Numa peça futura, Gil Vicente vai abordar o problema da quantidade de religiosos com mais precisão e sarcasmo. Chegaremos lá.

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Canções Infantis em Esperanto 02.marcha soldado

MARŜU SOLDATO (marcha soldado)

Marŝu soldato

Kun kasko el paper’.

Se vi malbone marŝas

Vi restos sen liber’.

 

Brulas la kazerno.

Kuru ĉiuj ni.

Ni savu, savu, savu

La flagon de l’ Naci’.

 

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GIL VICENTE 08. FARSA CHAMADA AUTO DA FAMA (1510)

a fama

Resumo:

Uma mocinha guardadora de patos é a Fama. Tem como ajudante um bobo. Diante dela se apresentam um francês, um italiano e um espanhol. Cada um quer levar a Fama para seu país. Mas ela sabe que pertence a Portugal, pelos grandes feitos portugueses. Faz uma descrição do poderio lusitano, enumerando terras descobertas e povos subjugados. Chegam a Fé e a Fortaleza, coroam com louros a Fama e a colocam num carro triunfal. Levam-na ao som de música.

GV020. Fé (fala)

Vós, Portuguesa Fama, não tenhais ciumes.

(fala Jorge Teles)

Comentário:

Estamos diante de um Gil Vicente que tece louvores à gloria de seu país, após os grandes descobrimentos. As falas dos cortejadores são engraçadíssimas porque mescladas com português irregular. “Vu vendrés comigo em França.”. “Il cor me dole qui me mata tu parole”.
Um dos méritos mais fascinantes de Gil Vicente é o aspecto linguístico de suas obras. Cada personagem tem na sua fala uma riqueza de detalhes que precisam sua condição social, seu nível intelectual, além de seu estado emocional. Tal aspecto se perderá no clacissismo e só será recuperado no realismo.
Pela primeira vez na obra de Gil Vicente, é mencionado o Brasil, como um dos grandes trunfos do império português. E, como a peça é em versos, como todas do autor, surgem já aí duas palavras que se perpetuarão como rimas inevitáveis, toda vez que a língua portuguesa versejar sobre o Brasil: “mil” e “varonil”.
A fala da Fé ao final, é em hendecassílabos (ou decassílabos, se se desconsiderar a sexta sílaba, átona). Isto introduz no auto um novo clima, épico, grandiloquente.
Que arquétipo esconderia esta simpática guardadora de gansos, título de um dos contos mais significativos dentre os recolhidos pelos irmãos Grimm? Como curiosidade, no conto dos irmãos Grimm a guardadora de patos é uma princesa deserdada pelo pai, que queria dividir o reino entre as três filhas; exatamente o episódio inicial da tragédia do rei Lear. No caso de Shakespeare, a fonte teria sido a Historia Regnum Britanniae, de Geoffrey of Monmouth, de 1147.

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