Monteiro Lobato

Histórias de Tia Nastácia

Capítulos 7, 8, 9 e 10

 

7 – O homem pequeno

         Uma vez o príncipe D. João saiu a caçar com alguns amigos, internando-se na floresta. O príncipe, que ia na frente, acabou por distanciar-se dos companheiros, perdendo-se no mato. Quis sair da floresta e não pôde. Andava de cá para lá às tontas, sem conseguir orientação. De repente avistou um muro alto que nem uma montanha, e para lá se dirigiu.

         Soube que estava num reino pertencente a uma família de gigantes. O dono da casa era tão alto que dava com a cabeça nas nuvens. Era casado com uma mulher também gigantesca e tinha uma filha também giganta, de nome Guimara.

         Quando o gigante viu o príncipe, ficou muito espantado. “Que andas a fazer por aqui, homenzinho?”

         O príncipe contou-lhe sua história e o gigante disse: “Pois bem. Posso admiti-lo como meu criado”, e o príncipe, que não tinha outro remédio, ficou morando lá.

         A filha do gigante achou-o tão engraçadinho que por ele se apaixonou. O pai percebeu a coisa. Chamou o príncipe e disse-lhe:

         — É verdade, pequenote, que andas dizendo que és capaz de derrubar numa noite o muro do meu castelo e de construir um palácio?

         — Não, senhor meu amo — respondeu o príncipe. — Eu nunca falei semelhante coisa; mas se meu amo manda, farei isso.

         — Pois quero ver — disse o rei.

         João saiu dali muito triste, indo ter com a sua amada Guimara, à qual contou a conversa.

         — Não se incomode — respondeu Guimara. — Eu arrumarei tudo.

         E assim foi. Graças às suas artes mágicas, Guimara derrubou o muro durante a noite e ergueu um palácio maravilhoso. Quando na manhã do dia seguinte o gigante viu aquilo, assombrou-se.

         — Olá, homem pequeno, foste tu mesmo que fizeste isso ou foi minha filha Guimara?

         — Fui eu, senhor — mentiu o príncipe.

         Passaram-se uns dias. O gigante, cada vez mais desconfiado levantou outro aleive contra o príncipe.

         — Escuta cá, homenzinho, andam dizendo por aí que te gabas de seres capaz de fazer daquele monte selvagem um lindo jardim de flores. É certo?

         — Eu nada disse, mas se meu amo me manda fazer isso, farei.

         — Pois faze, que do contrário te cortarei essa cabecinha.

         O príncipe foi ter com Guimara, que o sossegou dizendo: “Não se aflija, meu amor, eu arrumarei tudo.”

         E assim foi. À noite ela fugiu do seu quarto e junto com o príncipe trabalhou no morro, de modo a transformar tudo aquilo no mais belo dos jardins.

         Quando pela manhã o gigante viu a obra, ficou furioso, e resolveu lá consigo que o melhor era dar cabo do homenzinho e de Guimara, pois o tal jardim só podia ser obra dela.

         Mas Guimara leu o pensamento do gigante e convidou o príncipe a fugir antes que anoitecesse. E fugiram, cada qual num cavalo que avançava cem léguas de cada passada. O pai saiu em sua perseguição, montado num cavalo que avançava cento e vinte léguas de cada passada.

         Vendo que seriam alcançados, Guimara se transformou num riacho; virou o príncipe num negro velho; as selas, num canteiro de cebolas; uma espingarda que levavam, em beija-flor; e os cavalos, em árvores. O gigante, ao ver aquele negro velho tomando banho no riacho, parou para pedir informações.

         — Meu negro velho — disse ele — não viu por acaso, de passagem por aqui, dois cavaleiros, um moço e uma princesa?

         O negro olhou para o canteiro de cebolas e respondeu: “Plantei estas cebolas mas não sei se darão boas.” E repetia sempre essas mesmas palavras, por mais que o gigante insistisse em saber do moço e da moça.

         Aborrecido com o negro, o gigante fez a mesma pergunta ao beija-flor — mas a resposta foi uma bicada que quase lhe furou os olhos. Desesperado da vida, o gigante voltou para casa.

         Quando sua mulher soube de tudo, gritou logo:

         — Que grande idiota és tu! Pois não percebeste que o riacho era a Guimara, o negro o homenzinho, o beija-flor a espingarda, o canteiro de cebolas eram as selas, e as árvores os cavalos?

         O gigante voltou para lá com a maior rapidez, mas não encontrou mais nada daquilo. Guimara e o príncipe haviam desencantado e avançado caminho, para de novo se transformarem, muito adiante, ela numa igreja, ele num padre, a espingarda num missal, e mudarem as selas num altar e os cavalos em dois sinos. O gigante varou pela igreja adentro, perguntando:

         — “Senhor padre, não viu passarem por aqui dois cavaleiros, um moço e uma princesa?”

         O padre, que fingia dizer missa, respondeu com um versinho:

         Não ouço o que me diz, não…

         Sou um padre ermitão,

         devoto da Conceição,

         não ouço o que me diz não…

         Dominus vobiscum.

         Por mais que o gigante repetisse a pergunta, o padre respondia sempre do mesmo modo. Por fim, desesperado, o gigante voltou para casa e contou tudo à mulher.

         — Que tolo que és! Volta para lá no galope. A igreja é Guimara, o padre é o homenzinho, o altar são as selas, o missal é a espingarda e os sinos são os cavalos.

         O gigante voltou no galope, mas nada mais viu. Os fugitivos já estavam longe. O gigante, porém, breve os avistou, e então Guimara soltou no ar um punhado de cinzas, que se transformou no mais espesso nevoeiro.

         O gigante, não podendo enxergar mais nada, voltou para o seu castelo danadíssimo da vida.

         Os dois fugitivos, finalmente, chegaram ao palácio do príncipe. E então Guimara lhe pediu que ao chegar não beijasse a mão de sua tia.    O príncipe prometeu, mas ao entrar no palácio a primeira pessoa que viu foi sua tia — e sem lembrar-se da promessa beijou-lhe a mão. Assim que fez isso, esqueceu completamente Guimara e tudo quanto se tinha passado.

         O encantamento de Guimara havia desaparecido desde o instante em que ela pisou naquele reinado estranho. Ficou do tamanho de todas as moças e muito triste, porque o seu adorado príncipe já não tinha a menor ideia dela, nem do que ela fizera para lhe salvar a vida. E acabou-se a história.

 

          — Nesta história há uma novidade — disse Emília — mas o fim está muito atrapalhado e sem pé nem cabeça. Eu gosto de fantasia, mas de fantasia com pé e cabeça. Tudo que não tem pé nem cabeça, me parece errado.

          — Essa sua teima de exigir nas histórias pé e cabeça, Emília, tem sua razão de ser — disse dona Benta. — As coisas sem pé nem cabeça dão-nos a impressão de monstruosidades, de coisas contra a natureza. Uma história pode ser a mais fantástica possível, mas há de ter pé e cabeça. Você tem razão nessa exigência.

          — Eu também acho a história descabeçada demais — disse Narizinho. — Pois se o tal gigante era tamanho que dava com a cabeça nas nuvens, então nem enxergar o príncipe poderia. Feita a proporção, seria o mesmo que eu lidar com um micróbio. E para matar esse micróbio o idiotíssimo gigante inventava aleives, etc. Para matar um micróbio eu assento um pé em cima, e pronto.

          — Outra coisa que não me agrada — disse Pedrinho — é o tal canteiro de cebolas. Bem se vê que é história contada por negras velhas, cozinheiras. Só faltou transformarem a moça num saquinho de sal, a espingarda em uma cabeça de alho e os cavalos num frango assado.

          — Tudo passa — concluiu Emília. — Só não passa o fim da história. A coitada da Guimara devia ter uma recompensa. Fez tudo pelo príncipe e afinal saiu lograda. E por quê? Porque ele beijou a mão da tia. Bolas! Então beijar a mão de tia traz esquecimento? Essa burrice eu não perdoo. Dou grau cinco para a primeira metade da história, mas dou zero para o final.

 

8 – A moura-torta

         Era uma vez um pai de três filhos, que não tendo dinheiro com que dotá-los deu a cada um uma melancia, quando eles falaram em sair a correr mundo. Mas recomendou que não as abrissem em lugar onde não houvesse água.

         O filho mais velho, ansioso por saber de sua sina, abriu a melancia à beira do caminho logo adiante. De dentro pulou uma moça muito linda, a gritar: “Dai-me água ou leite!” Mas como ali não houvesse água nem leite, ela inclinou a cabecinha e morreu.

         O filho do meio, que havia tomado por outra estrada, também resolveu conhecer sua sina e abriu a melancia num ponto onde não havia nem sombra de água perto. Surgiu de dentro uma jovem ainda mais bela, que disse: “Dai-me água ou leite!” Mas como não houvesse por ali nem uma nem outra coisa, ela também pendeu a cabecinha e morreu.

         O filho mais moço, porém, deu muito tento à recomendação paterna, de modo que só abriu a sua melancia ao pé duma fonte. Também de dentro pulou uma moça belíssima, que pediu água ou leite.          O moço deu-lhe água da fonte, que ela bebeu a fartar. Mas como estivesse nua, o moço pediu-lhe que subisse a uma árvore e lá ficasse escondidinha entre as folhas enquanto ele ia buscar-lhe um vestido. A moça subiu à árvore e escondeu-se entre as folhas.

         Logo depois apareceu uma moura-torta, com um pote à cabeça. Vinha enchê-lo naquela fonte. Olhou para a água e viu o reflexo da moça escondida na árvore.

         — Ora que desaforo! Pois se eu sou uma beleza assim, como é que ando a carregar água para os outros? — E jogou o pote, quebrando-o em vinte pedaços.

         Mas ao voltar para casa tomou uma grande descompostura da patroa, que a mandou à fonte com outro pote. A moura-torta foi e novamente viu o reflexo da moça na água. E quebrou o segundo pote.

         A moça na árvore não conteve uma gargalhada. A moura-torta olhou para cima e percebeu tudo. Jurou vingar-se.

         — Linda, linda moça — disse ela fazendo voz macia — que bela cabeleira tu tens, minha flor. Que vontade de correr os dedos por esses lindos fios de ouro! Deixa-me que te penteie.

         A moça, sem desconfiar de nada, deixou. A moura-torta subiu à árvore e começou a pentear aquela belíssima cabeleira loura. Súbito, zás! — fincou-lhe um alfinete na cabeça. Imediatamente a moça virou uma pombinha e voou. A moura-torta, muito contente, ficou no lugar dela.

         Nisto apareceu o moço com o vestido, mas ao ver a sua beleza transformada naquele monstro arregalou os olhos.

         — Que queres? — disse a moura. — Demoraste tanto que o sol me queimou, deixando-me preta assim.

         O moço deu um suspiro; mas como se tratasse de sua sina, não podia evitar coisa nenhuma. Levou a moura para o palácio e com ela se casou, tudo na maior tristeza.

         Desde o primeiro dia começou a aparecer por ali uma pombinha, que se sentava nas árvores do jardim e dizia ao jardineiro:

          “Jardineiro, jardineiro, como vai o rei meu senhor e mais a sua moura-torta?”

         Dizia isso e voava. Mas tanto repetiu aquela frase que o jardineiro falou ao rei.

          O rei, já meio desconfiado, mandou armar uma armadilha de prata para pegar a pombinha. A pombinha não caiu no laço. Mandou armar uma armadilha de ouro — e nada. Uma de diamante — e nada. Por fim o jardineiro fez uma de visgo e nessa a pombinha ficou presa.

         O jardineiro levou-a ao rei, o qual a pôs numa gaiola muito linda. Imediatamente a moura-torta manifestou desejo de comer a pombinha assada, e tanto insistiu que o rei foi obrigado a dar licença para aquele crime. Mas no dia em que a pombinha ia morrer, o rei tomou-a nas mãos e afagou-a. Percebeu logo em sua cabeça um carocinho. Olhou. Era uma cabeça de alfinete. Puxou-o — e logo que o alfinete saiu a pombinha se transformou na linda moça da melancia.

         — Oh! és tu, minha amada! — exclamou ele, na maior alegria.

         A moça contou-lhe toda a traição da moura-torta. O rei, furioso mandou amarrá-la na cauda de um burro bravo e soltá-la pelos campos.

 

          — Essa história — disse Emília — começa bastante bem e vai bem até certo ponto. Depois derrapa como automóvel na lama. O tal moço era um coitado que só possuía uma melancia. De repente está num palácio, e sem mais aquela vira rei…

          — Isso mostra — explicou dona Benta — como na tradição do povo as histórias se vão adulterando. Vê-se que está incompleta. Com a passagem dum contador para outro, perdeu um pedaço.

          — A idéia — disse Narizinho — me parece linda e original — a idéia do alfinete fincado na cabeça da moça, embora seja um absurdo. Em cabeça de gente não entra nem prego, quanto mais alfinete. Mas passa, porque nas histórias não há naturalismo; tudo é possível. O que não engulo é o moço deixar-se enganar pela moura-torta. Isso é demais.

          — Um bobo desse tamanho — ajuntou Pedrinho — eu nunca vi igual. Pois então toda a feiura da moura-torta ele acreditou que fosse  dum bocadinho de sol que a moça havia tomado? Grandíssimo sandeu! Além do mais, ele a havia deixado escondida dentro da folhagem — e que sol é esse que penetra dentro da folhagem das árvores?

          — Esta história está cheia de “popularidades” — disse Emília — mas pelo menos tem o mérito de alguma coisa nova: o alfinete enterrado na cabeça da moça, a sua transformação em pombinha e, melhor que tudo, o caso da moura confundir o reflexo da moça com a sua própria imagem. Está tudo muito tosco e bruto, mas passa. Dou grau seis.

          — Só porque apareceu uma pombinha! — exclamou dona Benta. — As histórias com pombinhas dentro sempre encantaram a Emília.

          — E tenho razão — disse a ex-boneca. — Não há nada mais lindo que uma pombinha bem branca, com aqueles olhos tão redondos. A minha ave predileta sempre foi a pombinha. E a sua, tia Nastácia?

          A negra teve vergonha de dizer. A ave predileta de tia Nastácia sempre fora uma galinha bem gorda, das boas para fazer de molho pardo.

 

9 – A madrasta

         Havia um viúvo com três filhas. Um dia resolveu casar-se de novo — e casou com uma mulher muito má, que tinha ódio às meninas. Fazia-as trabalhar como verdadeiras escravas.

         No quintal havia uma grande figueira. Quando chegou o tempo dos figos, a madrasta botou as meninas lá tomando conta para que os passarinhos não bicassem os figos.

         As três coitadinhas passavam debaixo da figueira o dia todo, dizendo aos sanhaços que se aproximavam:

         Xô, xô, passarinho,

         aí não toques o biquinho.

         Vai-te embora pro teu ninho…

         Mas mesmo assim aparecia um ou outro figo bicado e a madrasta

batia nas três.

         Um dia em que o homem fez uma longa viagem a madrasta aproveitou-se para mandar enterrar vivas as coitadinhas. Quando o homem voltou e indagou das filhas, a peste respondeu que haviam caído doentes e morrido, apesar de todos os remédios. O pobre pai ficou muito triste.

         Mas aconteceu que no lugar onde as meninas tinham sido enterradas brotou logo um lindo capinzal — dos cabelos delas, e quando batia o vento o capinzal murmurava:

         Xô, xô, passarinho,

         aí não toques o biquinho.

         Vai-te embora pro teu ninho…

         Um negro, tratador dos animais da casa, andando a cortar capim, ouviu aqueles murmúrios e teve medo de mexer nas plantinhas. Foi contar o caso ao patrão.

         O patrão não quis acreditar, e disse-lhe que cortasse o capim com murmúrio e tudo. O negro obedeceu. Mas quando levantou a foice, ouviu novamente a misteriosa voz, que dizia:

         Capineiro de meu pai,

         não me cortes os cabelos;

         minha mãe me penteava,

         minha madrasta me enterrou

         pelo figo da figueira

          que o passarinho bicou.

         O negro foi correndo contar o caso ao patrão, com um grande susto na cara. E tanto fez que o obrigou a chegar até lá. E então o pai das meninas ouviu o lamento das filhas enterradas.

         Mandou buscar uma enxada e cavar, e retirou-as da terra, vivas por milagre de Nossa Senhora, que era madrinha das três.

         Quando voltaram para casa, na maior alegria, deram com a madrasta estrebuchando. Um castigo do céu tinha caído sobre a peste.

          — Bom — disse Emília — esta história já está bem mais aceitável. Tem sua originalidade e explica tudo. Desde que houve milagre, era natural que as enterradinhas vivas não morressem. Milagres não se discutem.

          — E há ainda um traço delicado — disse dona Benta — esse das cabeleiras das meninas que viraram capinzal murmurejante ao vento. Aparece também a figura da madrasta, que é muito comum nas histórias populares. Toda madrasta tem que ser má. O povo não admite a possibilidade de madrasta boa.

 

          — E não há — disse Narizinho. — As que eu conheço, como a madrasta da Quinota e a da Maricoquinha, não chegam a ponto de enterrar crianças vivas — mas boas não são.

          — E a do Zeferininho da Estiva, que dava na cabeça dele com a colher de pau? — acrescentou Pedrinho.

          — Sim — disse dona Benta. — Talvez a regra seja a madrasta má, embora as haja excelentes. Sei dois casos de madrastas boníssimas, quase como mães. Tudo depende da criatura, e não do ato de ser mãe ou madrasta. Há mães tão perversas como as piores madrastas.

          — Mas o povo assentou que as madrastas não prestam e não prestam mesmo — concluiu Emília. O coitado do povo sofre tanto que há de saber alguma coisa. Esse ponto da madrasta má o povo sabe. São más como caninanas — embora haja alguma degenerada que seja boa. Madrasta boa não é madrasta. Para ser madrasta, tem que ser uma bisca das completas. Eu, se pilhar alguma por aqui, furo-lhe os olhos.

 

10 – Manuel da Bengala

         Era uma vez um rei que teve um filho que nasceu grandão e forte demais. Com oito dias de idade já devorava um boi inteiro. O rei, muito assustado, chamou seus conselheiros para lhe darem opinião, porque naquela toada o menino acabaria com todos os bois do reino. Os conselheiros acharam que o melhor era soltá-lo pelo mundo. O rei concordou. Deu ao filho uma bengala de ferro, um machado, uma foice de bom tamanho e soltou-o no mundo.

         O príncipe saiu. Chegando a uma fazenda, pediu serviço. O fazendeiro ajustou-o e mandou-o roçar um pedaço de mato. O moço meteu a foice no mato com tanta fúria que assustou o fazendeiro. Na hora de jantar deu risada da comida que lhe trouxeram. Queria um boi inteiro, com um alqueire de farinha. O fazendeiro achou graça e fez a experiência, certo de que ele só comeria um pedacinho do boi e no máximo um litro de farinha; mas quando viu todo o boi desaparecer no seu bucho, e mais o alqueire de farinha, não quis saber de histórias — despediu-o.

         O príncipe voltou para o palácio do rei, onde passou uns tempos. Por fim o rei cocou a cabeça e reuniu novamente os conselheiros. “Que fazer deste rapaz que me devora um boi por dia?” Os conselheiros aconselharam o rei a mandá-lo pegar seis leões na floresta, certos de que os leões num instantinho dariam cabo dele.

         O príncipe pediu um carro com três juntas de bois — e foi para a floresta, onde passou seis dias. Cada dia comia um boi e pegava um leão, que amansava e punha no carro, em lugar do boi comido. Quando completou a conta, entupiu o carro de árvore e tocou para a cidade.

         O rei e todo o povo se encheram de espanto com a façanha de Manuel da Bengala, que era como lhe chamavam. Coisa como aquela ninguém ainda tinha visto. O rei cocou a cabeça. Por fim mandou que o príncipe saísse pelo mundo e nunca mais lhe aparecesse. O príncipe saiu.

         Foi andando, andando. Em certo ponto encontrou um homem que atravessava um rio sem se molhar. Era o Passa-vau.

         — Bom dia, Manuel da Bengala! — gritou o homem.

         — Passa-vau — disse o príncipe — quer passar-me para a margem de lá?

         Passa-vau passou-o e seguiram juntos. Adiante encontraram um homem cortando cipó. Chamava-se Arranca-serra.

         — Bom dia, Manuel da Bengala! — gritou o homem.

         — Arranca-serra — disse o príncipe — quer viajar comigo?

         O homem aceitou e lá seguiram os três.

         Cada dia um deles tinha de arranjar comida para o bando. Certa vez em que Passa-vau saíra a cuidar disso, encontrou um molequinho de carapuça vermelha, que lhe pediu fogo para o cachimbo. Passa-vau não quis dar e o moleque pregou-lhe tal cachimbada na cabeça que o fez vir ao chão, como morto. Só uma hora depois voltou a si, e foi contar aos companheiros o acontecido.

         — Você não vale nada — disse Arranca-serra. — Quem vai buscar comida amanhã sou eu. — E foi.

         O molequinho da carapuça apareceu de novo, pedindo fogo para o cachimbo. Arranca-serra não quis dar e levou outra cachimbada na cabeça que também o deitou por terra, sem sentidos. Quando voltou a si e foi em procura dos companheiros, Manuel da Bengala riu-se muito.

         — Vocês não valem nada. Quem vai buscar comida amanhã sou eu. — E foi.

         O moleque da carapuça apareceu pela terceira vez, sempre pedindo fogo. Manuel da Bengala respondeu ao pedido com um golpe da sua tremenda bengala de ferro. O moleque resistiu e deu-lhe com o cachimbo na cabeça. Travou-se luta medonha, até que uma bengalada arrancou a carapuça da cabeça do moleque. Manuel guardou-a no bolso.

         — Manuel da Bengala, me dê minha carapuça — pediu o moleque com voz de choro.

         — Não dou, não dou — foi a resposta, e seguiram andando os dois, um a insistir pela carapuça e outro a negar. Por fim Manuel da Bengala disse: “Só te darei a carapuça se me entregares as três princesas que tens encarceradas.”

         O moleque, que era o “cão”, respondeu: “Isso não, porque minhas não são.”

         Foram andando, andando. Em certo ponto o moleque entrou por uma gruta — e Manuel da Bengala atrás. Foram dar num reino lá no fundo da terra, onde trabalhavam muitos escravos. Era o inferno. O moleque não parava de pedir a carapuça, e Manuel não parava de pedir as princesas. Por fim, vendo o “cão” que não podia com a vida daquele homem, deu-lhe as princesas. “Agora passe para cá minha carapuça!” Manuel respondeu: “Espere! Primeiro tem que me botar lá fora, no caminho.”

         O moleque resistiu; Manuel pregou-lhe a bengala até que ele cedesse e o levasse para fora, com as três princesas na frente. Assim que as três princesas surgiram na abertura da caverna, os companheiros de Manuel da Bengala, que estavam por ali, agarraram-nas e dispararam com elas.

         Quando Manuel se viu na estrada, restituiu a carapuça ao moleque, mas ficou muito espantado de não ver as moças. Os seus companheiros já estavam longe. Haviam ido entregá-las ao rei, dizendo que as tinham salvo e pois deviam recebê-las como esposas.

         O rei ficou contentíssimo de rever as filhas mas as moças puseram-se a chorar, dizendo que o salvador das três não era nenhum daqueles homens.

         Lá longe, Manuel da Bengala, sentado à beira do caminho, pensava na vida. Tinha ficado com os lenços das moças. Pegou num deles e disse:

         – Voa, voa, e vai cair no colo delas. – O lenço virou num papagaio que foi sentar-se no colo duma das princesas.

         — Eu só me casarei com o dono deste papagaio — disse a moça.

         Manuel da Bengala pegou nos outros lenços e disse: “Voai e levai-me ao palácio das princesas”, e os lenços voaram e levaram-no ao palácio das princesas.

         Lá chegando, as três reconheceram-no como o seu salvador, e Manuel casou-se com a do papagaio. Os dois embusteiros depois de uma grande sova, foram expulsos do reino. As outras casaram-se com dois lindos príncipes. E acabou-se a história.

 

          — Então, Emília? — perguntou dona Benta.

          — Está pitoresca e variada — respondeu Emília — mas muito mal composta. Com esses elementos eu faria uma beleza de história.

          — Eu também — disse Narizinho. — Vejo uma porção de defeitos. O tal Arranca-serra, fiquei sem saber que é que fazia, pois o que arrancava era cipó, serra nenhuma. E o Passa-vau, que tinha a propriedade de não molhar-se, em toda a história não se utilizou dessa propriedade.

          — Outro defeito que eu acho — disse Pedrinho — é o tal príncipe chamar-se Manuel da Bengala. Muito grosseiro para um príncipe. Muito sem poesia. Também aquilo de com uma semana de idade comer um boi inteiro, me parece idiota.

          — É o que eu digo — ajuntou Emília. — O povo, coitado, não tem

delicadeza, não tem finuras, não tem arte. É grosseiro, tosco em tudo que faz.

          Este livro vai ser só das histórias populares do Brasil, mas depois havemos de fazer um só de histórias compostas por artistas, das lindas, cheias de poesia e mimos — como aquela do Príncipe Feliz, do tal Oscar Wilde, que dona Benta nos leu. Aquilo sim. Até deixa a gente leve, leve, de tanta finura de beleza!

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