Histórias de Tia Nastácia
Capítulos 25, 26, 27, 28 e 29
25 – O veado e o sapo
Um veado e um sapo queriam casar com a mesma moça. Para decidirem a questão fizeram uma aposta.
— Temos aqui esta estrada compridíssima. Vamos correr — propôs o veado. — Quem chegar primeiro, casa com a moça.
O sapo concordou, e marcaram a prova para o dia seguinte.
O veado saiu dali dando boas risadas. Um pobre sapo ter a pretensão de apostar corrida com quem? justamente com ele, que era o animal de maior velocidade que existe! Ah, ah, ah!…
Mas o sapo usou da esperteza. Reuniu cem companheiros, aos quais contou o caso, combinando o seguinte: de distância em distância, à beira da estrada, ficaria escondido um sapo, com ordem de gritar “Gulugubango, bango, lê”, sempre que o veado passasse por ele e cantasse “Laculê, laculê, laculê”. Enquanto isso, o sapo apostador ficaria, no maior sossego, esperando o veado no fim da estrada.
Assim foi. Chegada a hora da corrida, o veado disparou que nem uma bala. Cem metros adiante cantou o “Laculê”, certo de que o sapo, lá atrás, nem ouviria. Mas com grande assombro ouviu a resposta adiante dele: “Gulugubango, bango, lê”.
— Será possível? — pensou consigo o veado, e deu maior velocidade às canelas. Voou mais cem metros e cantou: “Laculê, laculê, laculê”, e ouviu adiante a resposta: “Gulugubango, bango, lê”.
O veado começou a suar frio. Deu ainda maior velocidade às pernas, avançando mais duzentos metros, rápido como o relâmpago — e cantou o “Laculê”. Mas ouviu pela terceira vez, adiante, o “Gulugubango, bango, lê”.
E desse modo até o fim da estrada, onde, mais morto que vivo, com as pernas a tremerem do grande esforço, o veado cantou pela última vez, com voz de quem não aguenta mais: “La… cu… lê…” Mas ouviu de novo a voz descansada do sapo, que respondia, adiante, sossegadamente: “Gulugubango, bango, lê”. Fora vencido.
O veado jurou vingar-se. Na noite do casamento foi ao quintal do sapo e encheu de água fervendo a lagoa onde ele nadava. Altas horas o sapo teve saudades da lagoa e veio tomar seu banho. Tchi-bum! — pulou dentro e morreu escaldado. O veado, então, muito contente da vida, casou-se com a viúva.
— Ora, até que enfim aparece um veado esperto! — gritou Emília.
— Esperto e perverso — disse Narizinho. — Bem merecia ser comido pela onça. Pobre sapo!
— Isso não! — contrariou Pedrinho. — Desde que o sapo logrou o veado, o veado ficou com direito de pagar na mesma moeda.
— Mas pagou em moeda diferente — disse a menina. — Se ele se limitasse a enganar o sapo, estava bem. Mas matou-o. Isso foi crueldade.
— Mas também quem manda sapo casar com moça? — observou Emília. — Sa com sa, mo com mo, diz o ditado.
— Que ditado é esse, Emília?
— Sapo com sapa, moço com moça. Sapo que encasqueta casar-se com moça, só mesmo cozinhado em água fervendo.
— E não se casou com ela o veado?
— Bom, isso é diferente. Veado é um animalzinho dos mais bonitos. Mas sapo… — e Emília deu uma cuspida de nojo.
26 – A onça e o coelho
A onça havia plantado uma roça, onde nasceu muita urtiga. A onça ficou atrapalhada. Nem entrar na roça podia, porque a urtiga arde muito.
Foi então e chamou os animais da floresta.
— Quem me capinar esta roça sem se coçar ganha um boi — disse ela.
O macaco se prontificou a fazer o serviço. Mas assim que deu começo à capinação, coçou-se tanto que a onça o tocou de lá.
Veio o bode, que também se cocou com o chifre. A onça tocou o bode.
Por fim apresentou-se um coelhinho. “Esta é boa!” — disse a onça. — “Se nem o macaco e o bode puderam capinar a roça, que espera fazer este bichinho?” Mas como o coelho insistisse, consentiu.
A onça ficou fiscalizando o serviço para ver se ele se cocava; depois cansou-se daquilo e deixou uma sua filha no lugar.
O coelho, que não podia mais de tanta comichão, teve uma idéia.
Voltou-se para. a filha da onça e perguntou: “Escute: aqui, oncinha, o tal boi que sua mãe prometeu não é um boi malhado, com uma mancha amarela aqui (e dizendo isso cocava a perna), e outra aqui (e cocava o lombo) e outra aqui (e cocava o focinho)?
A oncinha, muito boba, respondeu que era. O coelho prosseguiu no trabalho, e quando a comichão apertou demais veio novamente perguntar se o boi não tinha também urna mancha amarela em tal e tal parte — e cocava ali. E desse modo conseguiu capinar a roça inteira, ganhando o boi.
Mas a onça impôs uma condição.
— Compadre coelho, dou o boi, mas você só poderá matá-lo num lugar onde não houver moscas, nem galo que cante, nem galinha que cacareje.
O coelho, concordando, lá se foi com o boi em procura dum lugar onde pudesse matá-lo. Andava um pedaço, parava, escutava e sem tardança ouvia um cocoricocó!
— Aqui não serve. Tem galo — e seguia para adiante.
E foi andando até que chegou a um lugar onde não havia mosca nenhuma, nem se ouvia nenhum coricocó. Então matou o boi. Nisto surge a onça.
— Compadre coelho — disse ela — um boi é muita coisa para você. Passe para cá um pedaço.
O coelho deu-lhe um pedaço, que a onça devorou num segundo.
— Não chegou para matar a minha fome, compadre. Passe para cá outro pedaço — e o coelho deu outro pedaço. Por fim a onça devorou o boi inteirinho.
O coelhinho voltou para casa muito triste, com o facão na cintura. Ia pensando num meio de vingar-se da onça. Teve uma idéia. Entrou no mato e pôs-se a cortar cipó. Aparece a onça.
— Que está fazendo aí, compadre coelho?
— Estou tirando cipós. Como Deus vai castigar o mundo com uma tremenda ventania, preciso de cipó para me amarrar a um tronco de árvore.
A onça, amedrontadíssima, pediu:
— Nesse caso, amarre-me também, compadre.
— Não posso — disse o coelho fingidamente. — Tenho de ir para casa amarrar meus filhinhos.
— Amarre-me primeiro, pediu a onça, e depois vá amarrar seus filhinhos.
O coelho cocou a cabeça; por fim disse:
— Está bem, comadre onça: como prova de amizade vou fazer esse grande favor — e amarrou-a com todos os cipós, deixando-a impossibilitada do menor movimento.
— Bom — disse ele ao concluir o serviço — a comadre está tão bem amarradinha que nem o maior dos furacões é capaz de arrancá-la daí — e foi-se embora, a rir.
Passado algum tempo a onça, vendo que não vinha vento nenhum, desconfiou. “Querem ver que fui tapeada pelo tal coelho? Como agora livrar-me deste amarramento?”
Vinha vindo um macaco.
— Amigo macaco, faça o favor de tirar de mim estes cipós.
Mas o macaco, sabidão que era, apenas disse: “Deus ajude a quem te amarrou”, e foi-se embora.
Apareceu um veado.
— Amigo veado, faça o favor de desamarrar-me, pediu a onça.
O veado, apesar de burrinho, deu a mesma resposta do macaco, e lá se foi.
Veio o bode, e aconteceu a mesma coisa.
Passadas algumas horas, o coelho foi espiar como ia indo a onça.
— Compadre coelho, viva! O vento não aparece e eu estou que não posso mais. Venha desamarrar-me.
O coelho, com dó dela, pôs-se a desenrolar os cipós. Assim que a malvada se viu livre, nhoc! deu-lhe um pega. Mas o coelho alcançou dum pulo um buraco; mesmo assim a onça agarrou-lhe um pé. O coelho caiu na risada.
— Ah, como é tola a minha comadre onça! Agarrou uma raiz de pau e está pensando que é meu pé. Ah, ah, ah!…
A onça, desapontada, soltou as unhas, pensando mesmo que houvesse ferrado uma raiz de pau. O coelho afundou no buraco.
Uma garça veio pousar ali perto. A onça chamou-a.
— Comadre garça — disse ela — bote sentido nesta cova enquanto eu vou buscar uma enxada. Não deixe o coelho sair.
A garça ficou na árvore, com os olhos no buraco. O coelho disse:
— Que grande tola! Então é assim que garça toma conta de buraco onde está um coelho?
— Como devo fazer então? — perguntou a bobinha.
— Ora, ora! Tem de vir aqui e ficar com o bico dentro do buraco.
A garça desceu da árvore e enfiou o bico no buraco. O coelho atirou-lhe aos olhos um punhado de areia e escapou.
Nisto veio a onça com a enxada. Cavou, cavou até lá no fundo e nada de coelho.
— Comadre garça, que fim levou o coelho que estava aqui?
— Não sei — respondeu a tola. — Ele me mandou que enfiasse o bico no buraco. Assim que enfiei o bico, me botou nos olhos uma areia. Fiquei cega e nada mais vi.
A onça, furiosa, deu um bote na garça, que lá se foi voando, muito fresca da vida.
— Boa, boa — disse Emília. — Estou gostando mais destas histórias de bichos do que das de reis e Joãozinhos.
— Estas histórias — explicou dona Benta — foram criadas pelos índios e negros do Brasil — pela gente que vive no mato. Por isso só aparecem animais, cada um com a psicologia que os homens do mato lhe atribuem. A onça, como é o animal mais detestado, nunca leva a melhor em todos os casos. É lograda até pelos coelhos.
— E há invençõezinhas engraçadas nessa história — observou a menina. — O jeito do coelho enganar a filha da onça, com tais perguntas sobre as manchas do boi, está muito interessante. Acho que tia Nastácia só deve contar histórias assim. Das outras, de príncipes, estou farta.
— Pois então vou contar a história do pulo do gato, — disse tia Nastácia — e contou.
27 – O pulo do gato
A onça pediu ao gato que lhe ensinasse a pular, porque o maior mestre de pulos que há no mundo é o gato. O gato ensinou uma, duas, três, dez, vinte qualidades de pulos. A onça aprendeu todos com a maior rapidez e depois convidou o gato para irem juntos ao bebedouro, isto é, ao lugar no rio onde os animais descem para beber.
Lá viram um lagarto dormindo em cima duma pedra.
— Compadre gato — disse a onça — vamos ver quem dum pulo pega aquele lagarto.
— Pois vamos — respondeu o gato.
— Então comece.
O gato saltou em cima do lagarto e a onça saltou em cima do gato — mas este deu um pulo de banda e se livrou da onça.
A onça ficou muito desapontada.
— Como é isso, compadre gato? Esse pulo você não me ensinou…
— Ah, ah, ah! — fez o gato de longe. — Isto é cá segredo meu que não ensino a ninguém. Chama-se o “pulo do gato” — meu, só meu. Os mestres que ensinam tudo quanto sabem não passam duns tolos. Adeus, comadre! — e lá se foi.
— Ah! — exclamou Pedrinho. — Agora estou compreendendo por que se fala tanto no “pulo do gato”…
— Mas pulam mesmo assim ou é história da história? — perguntou a menina.
— Não há pulo que os gatos não dêem — disse dona Benta. — É um bichinho maravilhoso. Já vi o Romão cair dum telhado altíssimo. Outro bicho qualquer se espatifaria. Romão, porém, deu uma volta no ar e caiu sobre as quatro patas — e lá se foi, ventando, sem que nada lhe acontecesse.
— Mas se o gato é da mesma família da onça — observou a menina — tudo o que o gato faz a onça também deve fazer.
— Sim, mas o gato é pequeno e portanto tem agilidade muito maior que a da onça. Quanto pesa um gato? Um quilo, apenas. E uma onça? Cem vezes mais. Natural, portanto, que por causa do peso maior a onça não seja capaz de fazer o que o gato faz.
— É verdade, vovó — perguntou Pedrinho — que os políticos espertos usam o pulo do gato?
Dona Benta suspirou.
— Os políticos matreiros, meus filhos, são os gatos da humanidade. Dão toda sorte de pulos — e sabem muito bem essa história de cair de pé. Há alguns entre nós que podem dar lições a todos os gatos do mundo…
28 – O doutor Botelho
Havia um carpinteiro muito pobre, que morava num casebre de tábua. Certa vez apareceu por lá um macaco pedindo agasalho. O carpinteiro respondeu que sua casinha era muito pequena, mas estava às ordens. O macaco ficou morando com o homem.
Um dia o macaco entrou em casa com os bolsos cheios de moedas de ouro e prata.
— Onde arranjou isso, macaco? — perguntou o homem, de olhos arregalados.
— Foi o rei que me deu — disse o macaco. — Fui visitá-lo em seu nome, com um presente, e o rei me deu tudo isto.
— E que presente levou ao rei, macaco?
— Veadinhos. Assobiei na floresta; vieram cem veadinhos que levei ao rei. Qualquer dia vou levar-lhe outro presente.
E assim foi. Na manhã seguinte o macaco chegou à beira do rio e pôs-se a assobiar. Vieram inúmeras garças, que ele convidou a irem com ele ao palácio do rei, numa procissão, duas a duas. O rei achou lindo aquilo e perguntou quem tinha tido a idéia.
— Foi o doutor Botelho, amigo do macaco da bota do jabotelho — respondeu o bichinho.
O rei agradeceu a lembrança e disse-lhe que fosse à Casa da Moeda receber dinheiro.
O macaco foi e encheu um alforje de moedas de ouro que levou ao homem.
Dias depois o macaco voltou à floresta e assobiou. Vieram inúmeros coelhos, que o macaco levou de presente ao rei, dizendo ser outro presente do doutor Botelho.
O rei, muito admirado, mostrou desejo de conhecer esse doutor tão rico. O macaco respondeu que o doutor Botelho era um homem muito acanhado que não visitava ninguém; mas que se o rei quisesse conhecer as suas riquezas, ele, macaco, as mostraria.
O rei montou a cavalo e saiu com o macaco na garupa. Passaram por muitas fazendas, e o macaco dizia sempre: “Isto aqui é do doutor Botelho.”
Afinal, cansado de ver as fazendas do doutor Botelho, o rei voltou ao palácio.
O macaco, então, disse ao rei que estava com vontade de falar uma coisa, mas sentia acanhamento.
— Fale — ordenou o rei — e o macaco disse que o doutor Botelho havia mandado pedir em casamento a filha de Sua Majestade.
Tratando-se dum homem tão rico, dono de tantas e tão lindas fazendas, o rei não teve dúvida em dar-lhe a filha em casamento.
— Diga ao doutor Botelho que sim, que lhe concedo a mão de minha filha — e você, macaco, vá à Casa da Moeda buscar mais ouro.
O macaco foi e encheu vários alforjes. Quando chegou à casa do carpinteiro com tudo aquilo, o pobre homem abriu a boca. E mais ainda quando soube que estava noivo da princesa, filha única dum grande rei.
— Mas, macaco, como posso eu, um pobre diabo, que vive neste casebre de tábuas, pensar em casar-me com a filha do rei? Você está louco?
O macaco, porém, sossegou-o.
— Não se incomode com coisa nenhuma; deixe tudo por minha conta.
No dia marcado para o casamento o macaco preparou para o doutor Botelho um lindo cavalo e o fez montar. O carpinteiro mal podia consigo.
— Estou que quase caio do cavalo, de tanto medo, macaco.
— Não seja bobo. Já disse que deixe tudo por minha conta.
E tanto o macaco fez que deu com o carpinteiro no palácio real, onde se efetuou o casamento. Tinham agora os noivos de seguir para a casa do doutor Botelho — e como era? O pobre carpinteiro suava frio. Mas o macaco o animou: “Não tenha medo de nada. Eu arranjo tudo.”
E arranjou mesmo. Quando os noivos, acompanhados dos grandes fidalgos da corte, chegaram ao casebre, não viram lá casebre nenhum e sim um maravilhoso palácio, com grande criadagem de libré. Entraram. Estava arrumada a mesa dum banquete esplêndido, com quanto doce havia e um grande cacho de bananas no centro.
Ao ver as bananas o macaco esqueceu-se do seu papel e deu um pulo sobre a mesa. Aquilo de ser o escudeiro do célebre doutor Botelho era uma grande coisa — mas comer as bananas amarelinhas era melhor — e pôs-se a comer as bananas.
— Essa história — disse Narizinho — é uma corrupção da velha história do Gato de Botas, que li nos Contos de Fadas do tal senhor Perrault. Mas como tia Nastácia contou está muito mais ingênua.
— Serve para mostrar como o povo adultera as histórias — disse dona Benta. — Neste caso do doutor Botelho vemos uma tradução popular do Gato de Botas.
— Mas tradução bem malfeitinha — disse Emília. — Tudo na história é daqui do Brasil, até o macaco e as bananas — com certeza banana-ouro, que é a melhor — mas esse rei, que aparece sem mais nem menos, está idiota. Não há reis por aqui. Em todo caso serve. Que se há de esperar da nossa pobre gente roceira?
— E a tal resposta do macaco ao rei: “Foi o doutor Botelho, amigo do macaco da bota do jabotelho?” Que significa isso? Que bota é essa?
— Não significa coisa nenhuma — disse dona Benta. — Bobagem. O tal jabotelho, que não é nada, está ali apenas para rimar com Botelho.
— E a bota?
— Essa bota foi o único restinho que ficou das botas do Gato de Botas.
— Coitadinho do povo! — exclamou Emília. — Tão ingênuo…
29 – A raposa e o homem
Uma raposa foi deitar-se, fingindo-se de morta, no caminho por onde um homem ia passar. O homem chegou, parou e disse:
— Coitada da amiga raposa! Fez um buraco e enterrou-a.
Assim que ele se afastou, a raposa saiu da cova e correu por dentro do mato até sair lá adiante. Deitou-se de novo na estrada, sempre a fingir de morta.
O homem chegou e disse:
— Oh, outra raposa! Coitadinha… Arredou-a da estrada, cobriu-a de folhas secas e lá se foi.
A raposa repetiu a manobra. Correu a deitar-se lá adiante, no meio do caminho. O homem chegou e enrugou a testa.
— Quem será que anda matando estas raposas?
Mas não a enterrou, nem a cobriu de folhas secas. Deixou-a onde estava.
A raposa pela quarta vez repetiu a manobra. Foi correndo deitar-se lá adiante. O homem chegou, e vendo mais aquela disse: “O diabo leve tanta raposa morta!” E agarrando-a pelo rabo jogou-a no mato.
A raposa ficou pensativa.
— Estou vendo que é um perigo abusar dos nossos benfeitores…
— Isto é uma história moral — disse Pedrinho.
— Sim — concordou dona Benta. — É das tais que encerram uma lição. “Não abuses!” é a lição que a gente tira daí. A raposa abusou da bondade do homem — e se insistisse mais uma vez, o homem era capaz de dar-lhe um pontapé que a matasse de verdade.
— E seria bem feito — disse Emília. — Quem atropela desse modo os bons, merece pau.
Depois dessa história, Emília gritou:
— Eu quero agora uma historinha bem bonita em que haja um pinto!
Todos estranharam aquela exigência.
— Por que pinto e não galo ou um cachorro? — perguntou Narizinho. E Emília respondeu:
— Porque esta noite sonhei com um pinto sura que veio comer quirera na minha mão.
E tia Nastácia contou a história de um pinto sura.
