até quando?

A ditadura da burrice, 13: ATÉ QUANDO?

A vida é dura
E fez-se noite escura;
A luz foi presa
No gatilho
Do forte.
A espada fura,
E leva à sepultura;
Canta a tristeza
O estribilho
Da morte.

São os donos do medo.
Os donos do enredo.
Os donos do degredo.
Do brinquedo.
Do arremedo.

Tanto deserto,
E o fim voando perto;
Aranhas tecem
A teia
Abominável.
O fado incerto
Ameaça em céu coberto.
Flores fenecem
Na areia
Inexorável.

Donos da engrenagem.
Donos da arbitragem.
Donos da pilantragem.
Da vadiagem.
Da voragem.

A rua é triste.
Na esquina a lança em riste.
Os cães farejam
O filho
Desgarrado.
O tempo assiste,
O desacato insiste.
Sombras planejam
O exílio
Insuportado.

Os donos da galera.
Donos da primavera.
Os donos da esfera.
Da espera.
Da quimera. 

Curitiba, 11.10.1977

apolo e jacinto, 20

apolo e jacinto, 20.

dois cavaleiros brotaram no horizonte. um deles segura as rédeas de um terceiro animal, carregado com bolsas de couro, balançando. dentro das bolsas, pergaminhos e papéis com trechos desconhecidos, trocados com os monges por outros textos, copiados anteriormente por teófilo. cavalgam lentos. o caminho está úmido. a folhagem cresceu de repente. há grande quantidade de brotos novos. a chuva caíra sem cessar durante uma semana, contra a previsão dos mais novos e descrentes, que preferiam banir as superstições de seus mundos, mas garantindo as opiniões dos mais velhos, que acreditavam nos avisos misteriosos da mãe natureza.
ambos blasfemam e cantam. não. no começo, ambos blasfemavam e cantavam. depois, o vermezinho da dor penetrou de mansinho no coração do mais novo. e se apagou, aos poucos, o brilho de seu olhar, o riso fugiu e seu coração foi embrulhado num cobertor negro e triste. não adiantava o cantarolar das águas próximas. não bastava o desvairado canto dos pássaros coloridos que iam e vinham e iam, incansáveis, saltitantes, alegres e despreocupados. não. aquela luz, aquelas cintilações da natureza em absoluta exuberância, aquele azul estupendo, nada daquilo era suficiente. nem mesmo as gargalhadas de teófilo, quando atingia as partes mais obscenas das cantigas que descobrira nos manuscritos recém chegados ao mosteiro, misturadas a sacratíssimos e solenes hinos em honra de todos os santos conhecidos e outros de improvável existência. o olhar de alio era uma flor pendida, sem perfume e sem cor. borboletas não se arriscariam, abelhas não ousariam, nenhuma dessas pequeninas jóias aladas, joaninhas e besouros de faiscante metal, nenhuma, viria contornar sua cabeça pendida para entoar o zumbido da bem-aventurança.
teófilo, num repente, percebeu. freou o animal, procurou aflito uma árvore copada, virou o animal, Vamos ali!, e gritou, vamos ali!
alio desceu, deixou-se tombar mole e, ao se sentir seguro pelos braços do outro, fez cair a cabeça sobre seus ombros.
alio!, alio. o que houve? estava tudo tão bonito e alegre! o que houve?
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leonardo e bruno

foto de jorge teles
Canções diversas 13: LEONARDO E BRUNO

(nota: esta canção é de 29 de dezembro de 1977. Meus filhos moravam em Belo Horizonte; Leo ia fazer 7 anos; Bruno, tinha feito 5.)

foto de jorge teles


São dois pombinhos matreiros, 
dois travessos coelhinhos.
Dois meninos bagunceiros,
simpáticos e fofinhos.

Dia e noite fazem arte
da mais alta qualidade.
Farejando em toda parte,
procurando novidade.

Eu que fui mestre de muitos,
de vocês eu sou aluno.
Leonardo e Bruno,
Bruno e Leonardo,
Bruno e Leonardo,
Leonardo e Bruno.

Dois incansáveis ratinhos,
buscando o desconhecido.
Dormindo, são quietinhos,
Acordados, que alarido.

Naves de porto inseguro,
tão iguais, tão diferentes.
Dois caminhos, dois futuros
de esperanças sorridentes.

Não sei se entendem se digo,
são leve e pesado fardo.
Bruno e Leonardo,
Leonardo e Bruno,
Leonardo e Bruno,
Bruno e Leonardo.
 
foto de jorge teles