canção da viúva

Canções diversas 02.

Nota: Em 1976, imaginei uma pecinha de teatro em que houvesse um velho rei, uma velha rainha, um príncipe inconstante e um bobo desaforado. A partir de um perfil apenas esboçado, faria as canções que definiriam cada personagem. Fiz a da rainha, a do rei, mas a do bobo desviou-se por um atalho inesperado, era a ditadura. Não sei se por esse motivo, a pecinha foi abandonada, tanto melhor. Ficaram os versinhos a seguir:

Canção da rainha: CANÇÃO DA VIÚVA


Morte negra, de asas de água,
Morte fria, de asas de sono.
A vida não passa de fonte de mágoa
Jorrando perdida num mundo sem dono.

Deixar quero este meu corpo escravo 
E que o nada revele-se a mim.
Da vida não quero tão amargo travo.
Mas quero da morte o silêncio e o fim.

Curitiba, setembro.1976

apolo e jacinto, 14

apolo e jacinto, 14.

alio quis pegar o cobertor mas envergonhou-se e parou o gesto. baixou os olhos como um cordeiro e ficou à espera de alguma ordem. nu, arrepiado. teófilo levantou-se, enrolado, encheu o outro copo. tome. beba um pouco. cubra-se que está ficando frio, não está com frio? abaixou-se e pegou o cobertor no chão, cobrindo alio. Ele está com medo, tem todo o ventre cabeludo, não é pequeno, não é como luis. Não queria falar como falo, essa voz baixa, íntima, ele vai desconfiar. Aliás, que diferença faz?, ele já devia saber sobre o que vamos fazer daqui a pouco… vamos… vamos… Não, não, não gosto desta palavra. Estas palavras são estranhas, a gente fica querendo controlá-las e, quando vê, elas sobem e a gente já pensou. Se eu fosse um pastor e abria a porteira e ia deixando sair os carneiros um a um todos branquinhos mas ia ter algum preto e ia trancá-lo e não deixar que saísse e ele é um palavrão desagradável e por isso não vou deixar o carneiro preto sair não vou deixar o carneiro preto sair e digamos que o carneiro preto é a palavra foda e ele querendo sair e eu controlando e ficava deixando passar as ovelhinhas brancas e poderia dizer por exemplo alio e eu vamos tirar a roupa e dormir juntos mas isto não diz nada então eu e alio vamos nos amar mas isto não é verdade porque eu não o amo e com ele só quero gozar e se eu quisesse ele deixava eu fazer o que quisesse porque é um criado mas não quero que seja criado e penso que se ele enfiar o joelho dentro das minhas pernas eu abro e deixo ele… mas é muito grande… e vamos foder até amanhã pronto o carneiro preto passou!
teófilo estava junto à janela, olhando pelas frestas. voltou-se. o criado continuava deitado, muito quieto, mas o copo estava vazio. ao aproximar-se, deixou à mostra metade do corpo. esses cobertores são uma merda. tome mais vinho. já vou pro quarto ou quinto copo, nem sei mais. encheu os dois. tome! sentou-se nos pés da cama de alio. sabe, alio, sei que é difícil a gente de repente conversar… vocês estão sempre obedecendo, de repente… se abrir… é difícil, não é? beba que fica mais fácil. já ficou bêbado alguma vez?
não.
mas já bebeu muito vinho?
já.
tudo está ficando muito colorido. parando o olhar em direção ao garrafão. encha meu copo. acho que não consigo mais me levantar.
o senhor está em cima do meu cobertor.
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zoologia

A ditadura da imoralidade 06: ZOOLOGIA


– Bento que bento é o frade!
– Frade!
– Na boca do forno!
– Forno!
– Tirai um bolo!
– Bolo!
– Tudo que o banqueiro mandar?
– Fazeremos todos!
– E se não fizer?
– Não tem caixa dois pra campanha!
– Tudo que o empreiteiro mandar?
– Fazeremos todos!
– E se não fizer?
– Não tem obra pra superfaturar!
– Então…

Meu papagaio
foi-se embora pra Brasília,
abandonou a família,
foi morar na capital.
Mandaram logo
um cachorro delinqüente
“ensiná” a língua da gente
do Distrito Federal.

Corrupi-paco, papaco,
corrupi-paco, partido,
corrupi-paco, corrupi-
corrupção.

Congressistas atrevidos,
com partidos repartidos
e conchavos escondidos.
Traição!

Daí a pouco
apareceu a cabrita
pra fazer uma visita,
se dizendo liberal.
O papagaio
soube todas as intrigas
e ouviu “falá” das formigas
que infestam o local.

Corrupi-paco, papaco,
corrupi-paco, partido,
corrupi-paco, corrupi-
corrupção.

Congressistas tão polidos,
nova troca de partidos.
Eis lobistas bem vestidos.
Traição!

Os peçonhentos,
se chamando de Excelências,
vão fazendo as exigências
do processo eleitoral.
O papagaio
que até então era mudo,
disse que, aquilo tudo,
só no reino animal.

Corrupi-paco, papaco,
corrupi-paco, partido,
corrupi-paco, corrupi-
corrupção.

Congressistas carcomidos,
com partidos convertidos,
mensalões descomedidos.
Traição!

Curitiba, outubro.1977