reflexão pequenininha

CANÇÕES DIVERSAS 01. REFLEXÃO PEQUENININHA


Perdido no nevoeiro
da vida mal percebida,
pensei em pensar, primeiro,
pra não errar toda a vida.

Mergulhei no contratempo
pra vencer o mundo meu.
Não queria perder tempo,
mas o tempo me perdeu.

Me achado no nevoeiro,
Eu pude entender a vida.
Fui meu próprio timoneiro
pra ter vida bem regida.

Criei o meu passatempo
Mas meu mundo envelheceu.
Queria enganar o tempo,
mas o enganado fui eu.

Curitiba, 1976

apolo e jacinto, 8

apolo e jacinto, 8.

Acho que hans não percebeu nada. Não desconfiou quando pedi pra deixá-lo lá em cima. Quando voltei lá, ele já tinha descido. Estão exigindo a morte dos prisioneiros. Aquele monstro deve ser o primeiro a morrer, de morte mais violenta. Ou, quem sabe?, deixo-o pra depois e depois e ele vai apodrecer no horror dessa espera. Não poderei mais vigiá-los. Maldito hans! Por que as portas secretas estão todas fechadas? Não tinha reparado nisto. Acho que há algum tempo as fechei, nem mais me lembro por quê. Não seria bom deixá-las abertas? Para alguma emergência… Tem razão, hans, cuidarei disso amanhã. Amanhã também devo resolver sobre os prisioneiros. Hans acha que sete forcas e uma festa deixarão o povão feliz. Queria conservar aquele pra depois. Acho que ele fez algo a luis, havia marca de dedos que apertaram seu bracinho, que será que queria fazer? Acordou exatamente quando saí da cela, aquele porco! Preciso falar com ele mas como vou saber se estava ou não acordado quando o beijei? Por que ele gritou não? Terá sentido minha boca na sua barriga? Ou será que acabava de acordar e se lembrou do prisioneiro? Parecia uma escultura de carne, nenhum artista vai trabalhar madeira tão preciosa. Acho que não devo matá-lo. Tenho que descobrir um jeito de manter as passagens secretas. Se hans não soubesse de nada! Ele achou esquisito quando lhe entreguei o poder do castelo. Estou ainda muito perturbado, hans, quero me dedicar a estudar uns manuscritos, pra me tranquilizar um pouco. Não sei se entende. Claro que entendo… Quero ir ao mosteiro das tílias, o padre me disse que recentemente foi encontrado um rico material com lendas e canções dos peregrinos. Mas só viajarei na próxima semana. Precisamos organizar a viagem, então. Acho que hans não desconfia de nada, se não, não estaria tão tranquilo comigo. Não, hans, só levarei um criado, quero chegar depressa ao mosteiro, você sabe, agora não corremos perigo ao atravessar o desfiladeiro. Esta é a única maneira de eu não correr riscos, a presença de luis me perturba. Ficar longe dele, por algum tempo. Não sei o que seria de mim se hans desconfiasse… penso, hans, que um dia de viagem é suficiente. Preciso ficar longe dele, tenho um medo terrível de sua presença. Hans não pode saber de nada. Será que luis aceitaria ir comigo? Eu levaria luis e deixaria aqui o criado. Ela ainda dorme, será que acordaria se eu subisse e ficasse na biblioteca? Não, essa idéia é insana!, se me afasto do castelo para ficar longe de luis!, como posso pensar em levá-lo? Isto é horrível! Ela também, com certeza, não desconfia de nada…
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senzala e casa grande

A DITADURA DA IMORALIDADE 01. Senzala e Casa Grande



SENZALA

Mãe, tem cá um buraco perto da esteira,
não posso dormir dessa maneira.
Meu filho, meu filho, acorda não,
já foi abolida a escravidão.

Mãe, não vou mais à escola, já estou cansado.
Eu nunca sei nada, sempre atrasado.
Meu filho, meu filho, desiste não,
Já foi abolida a escravidão.

Mãe, hoje o guarda tomou todo o meu dinheiro
depois de chamar-me arruaceiro.
Meu filho, meu filho, não liga não,
Já foi abolida a escravidão.

Mãe, fome e frio e essa merda de cansaço,
Tão fazendo a gente de palhaço.
Meu filho, meu filho, fala isso não,
Já foi abolida a escravidão.

Mãe, eu acho que alguém vai me dedar,
tô com medo do tira me apagar.
Meu filho, meu filho, tem medo, não,
Já foi abolida a escravidão.

Mãe, se me procurarem eu não estou,
e nem sei te dizer, pra onde vou.
Meu filho, meu filho, não foge, não,
Já foi abolida a escravidão.

Mãe, não tenho coragem pra te escrever,
isso aqui é terrível, precisa ver.
Meu filho, meu filho, não sofre, não,
Já foi abolida a escravidão.

Mãe, depois que eu sair não me pegam, não,
Muito tenho aprendido cá na prisão.
Meu filho, meu filho, não chora não,
Já foi abolida a escravidão.

Mãe, você não vai mais poder me rever,
Me fizeram fugir pra me abater.
Meu filho, meu filho, não morre não,
Já foi abolida a escravidão.

Mãe, o sangue, o jornal, e o chão lavado,
Cumprido o dever, tudo acabado.
Meu filho, meu filho, me deixa não,
Já foi abolida a escravidão.


CASA GRANDE

A casa está suja e feia,
Erguido foi o portão.
Vazia a mesa da ceia,
O pão e o vinho no chão.

Os quartos não têm mais portas,
E em cada aposento, um cão.
Nos jarros, as flores mortas.
E os livros no porão.

Vassouras aposentadas
E quebrado o escovão.
Em seu lugar, levantadas,
As armas da corrupção.

Mas nossa casa é esta.
Não adianta fingir
Que não existe a afronta.
Se a gente não protesta,
Ou não quer reagir,
Eles vão tomar conta.

Nos cantos, ratos e aranhas,
E ninhos de escorpião.
E cobras de muitas manhas
Gozando da usurpação.

Areia, poeira, chuva,
Fome, dor, contravenção.
Negra e triste, qual viúva,
A casa é um refúgio vão.

A vergonha foi calada.
No Poder, o Aleijão.
Ferida e desrespeitada,
A virgem Constituição.

Mas nossa casa é esta.
Não adianta fingir
Que não existe a afronta.
Se a gente não protesta,
Ou não quer reagir,
Eles vão tomar conta.
E já tomaram conta.
E estão perdendo a conta.
E o resto não se conta. 

Curitiba, 30.09.1977