GIL VICENTE 11. FARSA CHAMADA AUTO DAS FADAS (1512)

fada

Resumo:

    Ginevra Pereira, feiticeira, se apresenta diante da corte. Explica aos reis sua profissão e se diz necessária para resolver problemas de amor das pessoas. Para isso, diz ela, é preciso invocar os mortos, andar nua pelos cemitérios. Está sendo perseguida por um meirinho, que é um policial da justiça da época. Resolve fazer feitiços diante de todos, para mostrar seu poder. Chama um diabo e este chega, falando uma algaravia (um francês da Picardia, ininteligível). Discutem. Ela fala em “Jesu” e ele começa a falar português. Manda que ele vá às Ilhas perdidas e traga três fadas marinhas (sereias). Ele traz do inferno dois frades, havia entendido errado. A Feiticeira manda que um deles faça uma pregação. Tomando o mote de Virgílio “amor vincit omnia” (o amor vence tudo) ele prega, fazendo alusões aos amores das pessoas presentes. A seguir ela entoa uma engraçadíssima paródia de ladainha. Vêm as Fadas, cantando. Estas passam a ler a sorte aos reis, príncipe e infantes. Para os demais lêem a sorte, relacionando cada um deles a um animal.

GV027. Fadas e Sereias

Qual de nós vem mais cansada
Nesta cansada jornada?
Qual de nós vem mais cansada?

Nosso mar he fortunoso,
Nosso viver lacrimoso,
E o chegar rigoroso
Ao cabo desta jornada:
Qual de nós vem mais cansada
Nesta cansada jornada?

Nós partimos caminhando
Com lagrimas suspirando
Sem saber como nem quando
Fará fim nossa jornada.
Qual de nós vem mais cansada
Nesta cansada jornada?

(cantam Carmen Ziege e Kátia Santos)

Comentário:

Texto quase todo em português. A fala do diabo é, inicialmente, em francês irregular. E o sermão do frade é em espanhol e em decassílabos. Eis uma das mais engraçadas peças de Gil Vicente. Pena que o final não tenha muito significado para nós modernos, por constar de alusões aos nobres e seus vícios e virtudes. Cabe observar que, num Portugal tão católico (após pouco mais de 20 anos a Inquisição se instalaria no país), o Autor apresentasse um tema tão perigoso, quase justificando-o. A apresentação de uma feiticeira que resolve, principalmente, problemas de amor, é uma situação semelhante a da alcoviteira, mulher que faz intermediação entre os amantes, geralmente em adultério. Eis a pacífica convivência entre as normas éticas e uma moral explicitamente hipócrita, que não escapa à observação de Gil Vicente. Muito do humor vem desse impasse. Os diálogos são ágeis e cômicos.

A canção das Fadas tem um texto triste e lírico. O dramaturgo se firmava como um dos mais importantes de sua época, original e ousado.

canção 03. reflexão pequenininha

Canções Diversas 01: REFLEXÃO PEQUENININHA.

Perdido no nevoeiro
da vida mal percebida,
pensei em pensar, primeiro,
pra não errar toda a vida.

Mergulhei no contratempo
pra vencer o mundo meu.
Não queria perder tempo,
mas o tempo me perdeu.

Achado no nevoeiro,
Eu pude entender a vida.
E fui o meu timoneiro
pra vida ser bem regida.

Criei o meu passatempo
Mas meu mundo envelheceu.
Queria enganar o tempo,
e o enganado fui eu.

(canta jorge teles)

Curitiba, 1976

CONTA OUTRA VÓ 05.AS ALMINHAS PENADAS

as alminhas penadas

desenho de Ricardo Garanhani 

Nota: De todas as historinhas contadas por minha avó, esta é a única que narra um acontecimento vivido por ela. Registrei-a por sentir que ela tem uma carga folclórica mas não acredito que o fato tenha acontecido. Deve ser mentira, dessas mentiras míticas, inventadas ingenuamente para justificar uma crença qualquer. Quem sabe?, minha vó ouviu o conto de alguém e no recontar se colocou como personagem. A mesma ideia de que se pode e se deve batizar bebês morituros, ou mesmo depois que morrem, quando não há padres à disposição, era reforçada pela vizinha de Vila Isabel, Dona Cacilda, a mãe, paraibana. Nunca li texto em que tal fato fosse narrado.

    Quando morre alguém que não foi batizado, a alma não vai pro céu nem pro inferno nem pro purgatório. Fica vagando pelo mundo, assustando as pessoas, vira alma penada. Se quem morre é uma criancinha pagã, a alminha penada fica penando até que alguém batize ela. Gente grande não pode ser batizada depois de morta. Não adianta. Vai penar pela vida afora até o dia do juízo, quando então o deus separará os bons dos maus. Mas os pequeninos inocentes podem ser batizados depois de mortos.

    Uma vez eu e duas filhas mudamos duma roça pra outra. O Anísio já tinha morrido, eu estava viúva. O Oliveira estava no Rio, tirando o tiro de guerra. Os outros filhos já estavam casados. Então, eu e a Nanísia e a Natália mudamos duma roça pra outra. Saímos com o embornal e pedimos pousada muitas noites. Antigamente a gente ganhava pousada. A dona da casa fazia um mingau de couve com linguiça e toicinho, fritava torresmo, mexia um angu gostoso, a gente comia e conversava até tarde em volta do fogão. No dia seguinte, escuro ainda, a gente levantava, levantava antes do galo. A dona da casa dava frango frito, carne, a gente pegava o embornal e caçava rumo. Na noite seguinte, a mesma coisa. A gente ficava quinze, vinde dias viajando. Aí chegamos em Manhuaçu. Fomos direto pra casa da Milota.

    Perto dali, na entrada da cidade, tinha uma casinha abandonada. Perguntamos e disseram que era uma casa mal assombrada. Crianças tinham vivido lá e morreram pagãs. Ninguém conseguia morar lá.

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