Monteiro Lobato – 14

Reforma da Natureza – Primeira Parte

Capítulos 4, 5 e 6

 

4 – Reforma da Mocha

Por muito tempo ficaram as duas conversando sobre reformas e mais reformas e, como estivessem debaixo da jabuticabeira, iam falando e comendo as deliciosas frutas. Em certo momento Emília disse;

– Esta jabuticabeira, por exemplo. Não acha que é uma vergonha uma árvore deste tamanho dar frutinhas tão pequenas? E no entanto temos lá na horta um pé de abóbora que dá abóboras enormes e é um pé que nem é pé de coisa nenhuma – não passa dum talinho mole que se esborracha quando a gente pisa em cima. Vou mudar. Vou botar as jabuticabas no pé de abóbora e as abóboras na jabuticabeira.

– Mas isso foi o que o Américo Pisca-Pisca fez – alegou a Rã – e o sonho lhe abriu os olhos.

– É que o bobo foi dormir debaixo da jabuticabeira – e sabe para quê? Para que a fábula ficasse bem arranjadinha. O fabulista era um grande medroso; queria fazer uma fábula que desse razão ao seu medo de mudar – e inventou essa história do sono do Américo debaixo da jabuticabeira. Já reformei essa fábula.

O chão encheu-se de tantas cascas que Rabicó se aproximou, farejando.

A Rãzinha, que ainda não conhecia o famoso Marquês, regalou-se de olhá-lo.

– Como está gordinho e lustroso, Emília! É ainda marquês?

– Que remédio? – berrou Emília. – Título é como apelido: quando agarra uma criatura não larga mais.

Aqui nas vizinhanças temos um negro de 70 anos que tem o apelido de Tadinho. Sabe por quê? Porque quando nasceu todos começaram a tratá-lo de “Coitadinho” – depois “Tadinho” – e ficou Tadinho toda a vida, um negrão daqueles…

– Mas você, Emília, parece que nem mais se lembra de que é marquesa, não?

– Às vezes me lembro, mas sem prazer nenhum. Que gosto ser marquesa de um marquês assim? Meu sonho você bem sabe qual é…

– Sei – é ser mulher dum grande pirata, para mandar num navio. Por que então não se casa com o Capitão Gancho?

– Que ideia ! – exclamou Emília. – Não há pirata que mais desmoralize a classe do que esse. Primeiro não tinha um braço e agora nem navio tem. A sua “Hiena dos Mares” virou “Beija-Flor das Ondas”, como você bem sabe – e hoje é de Pedrinho. Eu queria casar-me com um daqueles grandes piratas dos tempos do ouro do Peru, aqueles que atacavam os galeões espanhóis em pleno mar, com as facas atravessadas nos dentes. Há um, chamado Morgan, que me servia. Também já pensei num pirata submarino mas desisti. Submarino me dá falta de ar.

Rabicó apenas cheirou as cascas das laranjas. Só gostava de casca com gomos dentro.

– E a vaca Mocha? – perguntou a Rã. – Vai reformá-la também?

– Claro que sim – e já. Acompanhe-me. Lá se foram as duas para o pastinho da Mocha, que estava pachorrentamente mascando umas palhas de milho. Ficaram diante dela, de mãos á cintura, discutindo a reforma.

– Eu mudava o depósito de leite – disse a Rãzinha. – Punha torneirinha nas tetas para evitar o que hoje acontece: para tirar o leite os vaqueiros apertam as tetas com as suas mãos sujíssimas – uma porcaria. Com o sistema de torneira essas mãos não tocam nas tetas.

Emília deu uma risada gostosa.

– Que bobagem! Bem se vê que você é menina do Rio de Janeiro. Pois não sabe que a função das tetas é dar leite aos bezerros?

Como pode um bezerrinho mamar em torneiras?

– Ensinávamos os bezerros a abrir as torneiras.

– Não – declarou Emília. – Muito complicado. Na Mocha quero umas reformas úteis para ela mesma e não para as criaturas que a exploram. Vou pôr a cauda da Mocha bem no meio das costas, porque assim como está só alcança metade do corpo. Como pode a coitada espantar as moscas que lhe sentam no pescoço, se o espanador só chega às costelas? Tudo errado …

E plantou a cauda da Mocha no meio das costas de modo que pudesse espantar as moscas do corpo inteiro: norte, sul, leste, oeste. E passou as tetas para os lados, metade á esquerda, metade á direita.

– Assim podemos tirar leite de um lado enquanto o bezerrinho mama do outro. Reforma não é brincadeira. Precisa ciência.

– Ótimo! – concordou a Rã. – E podemos botar torneirinhas nas tetas do lado direito – para serviço dos leiteiros. As do lado esquerdo ficam como são – para uso dos bezerrinhos.

Emília aprovou a ideia . Depois passaram a considerar os chifres.

– Toda vaca de respeito tem chifres – disse Emília – menos esta coitada, que é Mocha. Vou dar-lhe  chifres compridos, mas sem ponta aguda.

A Rã lembrou que os esgrimistas usam floretes com um chumaço na ponta. Podiam dar à Mocha dois chifres pontudos mas com chumaço na ponta. Emília aperfeiçoou imediatamente a ideia .

– Em vez de chumaço. Rã, podemos espetar nas pontas uma bola de borracha maciça – uma bola “tirável”, isto é, que possa ser tirada de noite.

– Para quê?

– Para que ela possa defender-se de algum ataque noturno. Os chifres são a única defesa dela, coitada.

– Mas que perigosos noturnos há por aqui?

– O das onças, minha cara. Tio Barnabé diz que uma antepassada desta Mocha foi comida por uma onça.

De dia a Mocha pode usar a bola porque as onças só atacam durante a noite. E a Mocha foi armada de dois esplêndidos chifres elegantemente retorcidos como sacarrolhas, com duas bolas maciças nas pontas – bolas “tiráveis.”

O pelo da vaca também sofreu reforma. Ficou macio como pelúcia e furta-cor. Estavam ocupadas na reforma da Mocha, quando passou por cima delas uma linda borboleta azul.

 

5 – Borboletas, Moscas e Formigas

Emília esqueceu a vaca e saiu correndo atrás da borboleta, a gritar: – “Dessa não tenho ainda!” Mas não conseguiu pegá-la; cansadinha da corrida, explicou:

– Estou fazendo uma bela coleção de borboletas e dessas azuis não consigo. São das mais ariscas. Temos também de reformar as borboletas.

– Impossível, Emília! – gritou a Rã. – Tudo nelas é tão bem feito, tão direitinho e lindo, que qualquer reforma as estraga.

– Minha reforma das borboletas – explicou Emília – não é na beleza delas e sim  no gênio delas. Quero que se tornem “pegáveis”, como os besouros. Já reparou que besouro não foge da gente? Mansíssimos. Mas as borboletas, sobretudo destas azuis, são umas pestes de tão ariscas. Quando descubro uma sentada e me aproximo, ela “bota-se”!

E as borboletas azuis foram reformadas, ficando mansinhas como besouros.

– E as moscas? – perguntou a Rã.

– As moscas – respondeu Emília – vão ficar sem asas, porque são uns bichinhos inúteis e incômodos. Sem asas terão de andar pela terra, como as formigas, e num instante as formigas dão cabo de todas. Para que moscas no mundo? Suprimindo as asas, liquidaremos com as moscas.

– E os pernilongos também?

– Está claro. Esses ainda são piores, porque transmitem moléstias e fazem Dona Benta gastar muito dinheiro com Flit. Q Visconde diz que a febre-amarela, a malária e outras doenças são transmitidas pelos pernilongos. Corto-lhes as asas e adeus pernilongos, adeus febre-amarela, adeus malária…

A Rã alegou que isso vinha diminuir a música que há no mundo, porque os pernilongos cantam a música do Fiun e propôs outra reforma:

– Em vez de suprimir as asinhas deles, podemos fazer que percam o gosto pelo sangue e aprendam outras músicas além do Fiun. Poderão alimentar-se de água açucarada, ou mel das flores. E podemos fazer gaiolinhas minúsculas, de fios de cabelo, do tamanho de caixas de fósforos, para termos em casa pernilongos cantores. Seria uma galanteza. Um freguês chega a uma loja e pede: “Quero um pernilongo na gaiola, dos bons.” E o caixeiro traz várias gaiolinhas para ele escolher, todas com um cantor do Fiun dentro. Mas acho os pernilongos pequenos demais. Eu os faria assim do tamanho de camundongos.

– Oh, não! – protestou Emília. – Sou inimiga do tamanho. Acho que as coisas quanto mais se aperfeiçoam, menores ficam.

A conversa caiu sobre o tamanho. Emília contou vários episódios do tempo em que ela destruiu o tamanho das criaturas humanas, como está contado na chave do Tamanho.

– O tamanho. Rã, é a tolice das tolices, coisa inútil, que só serve para atrapalhar. Se dentro duma formiguinha cabem todos os órgãos necessários á vida – coração, cérebro, pulmões e o mais, e se pequeninínhas como são elas se arranjam tão bem no mundo, por que motivo um tamanhão como o do Quindim, por exemplo? Se os homens fossem do tamanho de pulgas seriam mais felizes. A desgraça dos homens está no tamanho. O Coronel Teodorico tem quase dois metros de altura e pesa cem quilos. Mas que adianta? Não escora uma discussão com o Visconde, que pesa menos de meio quilo e só tem dois palmos de altura. Quando uma coisa começa a aperfeiçoar-se, vai perdendo o tamanho. Aqueles animalões de antigamente – os brontossauros, por exemplo. Por que desapareceram? Porque eram grandes demais. Não havia comida que chegasse. Hoje há poucos animais muito grandes, e parece que todos vão diminuindo. Já o número dos pequenos aumenta. Só de micróbios há milhões. Aqui no sítio nós fizemos guerra ao tamanho e empacamos. Ninguém cresce. Pedrinho e Narizinho estão parados há anos – como Peter Pan.

A Rã ficou triste e confessou que estava crescendo. Cada ano sua estatura aumentava e ela também aumentava de peso.

Emília resolveu o caso:

– Pois pare. Faça como eu, Faça como o Visconde. Os mamíferos estão diminuindo de tamanho. Você é mamífera. Dona Benta contou que no começo eram quase todos enormíssimos e hoje estão bem menores. E os que teimam em ficar grandes levam a breca. Por que os homens andam a matar se de todos os jeitos nas guerras? Por causa do tamanho. Se ficassem pequenininhos como os pulgões, todos viveriam na maior abundância e sem guerras. Dona Benta diz que a causa das guerras é a falta de comida, um homem como o Coronel Teodorico come uns dois ou três quilos de coisas por dia. Se fosse do tamanho duma pulga contentava-se com iscas de coisas. O que ele come num dia dá para alimentar um milhão de formigas por um mês. Se Dona Benta e tia Nastácia não conseguirem harmonizar os homens lá na Europa, eles continuarão a matar-se nas guerras até não ficar nem um só para remédio.

– E se acontecer isso, quem você acha que vai tomar conta do mundo? – perguntou a Rã.

– As formigas, disso não tenho a menor dúvida. São inteligentíssimas. As ideias delas, de fazerem suas cidades no fundo da terra, é a melhor ideia que existe. Só com isso já escapam de mil coisas, de cem mil perigos – até dos bombardeios aéreos. Que é que os homens fazem para se libertar dos bombardeios? Imitam as formigas – afundam pela terra adentro. Nas zonas arrasadas pela guerra não ficou animal nenhum – mas as formigas ficaram. Só elas – imagine que beleza!

– Mas as formigas me parecem atrasadas em muitos pontos – tornou a Rã. Nem asas têm…

– Como não têm? Têm quando querem. No tempo da “ovação” o céu fica cheio de formigas de asas. Depois descem para abrir buraquinhos e pôr os ovos, e a primeira coisa que fazem é sacudir o corpo e derrubar as asas. No mês de outubro vejo muito disso por aqui.

A Rã ficou pensativa.

– Por que será que elas derrubam as asas, uma coisa tão preciosa?

– Porque só precisam de asas numa ocasião, quando sobem, bem, bem alto, em outubro, a fim de captarem as vitaminas do sol para os ovos. Depois que descem e abrem os buraquinhos já não precisam de asas. Iriam atrapalhá-las lá dentro.

– Mas deve ser muito escuro nos formigueiros – observou a Rã. – Eu gosto muito de luz, muita luz, só luz.

– Que engano! – exclamou Emília. – Você passa nove horas por dia de olhos fechados, dormindo, por quê? Para não ver a luz. Luz só, o tempo inteiro, cansa, atordoa a gente. As formigas usam o escuro á vontade. Quando saem dos formigueiros, regalam-se de luz; quando se recolhem, regalam se de escuro. Isso é que é saber viver. Só luz é tão horrível como só escuro. Por isso é que há a Noite e o Dia.

– E que reforma você pretende fazer nas formigas, Emília?

– Ah, nenhuma. Estudei o caso e vi que com elas nada há a reformar. Tudo perfeito. Eu dou um doce para quem descobrir um meio de melhorar a vida das formigas.

A Rã pensou, pensou e afinal concordou que é mesmo difícil melhorar a vidinha das formigas.

 

6 – Reforma na Europa e nas Pulgas

Depois falaram da viagem de Dona Benta à Europa. A Rã achou que ela não conseguiria nada porque os homens são errados de nascença. Emília discordou.

– Eu conheço as ideias de “vovó” – disse ela. – A primeira coisa que vai fazer na Conferência é transformar o mundo numa Confederação Universal. Todos os países ficarão fazendo parte dessa confederação, como os Estados dos Estados Unidos. E vai acabar com os exércitos e as marinhas, com os canhões e as metralhadoras.

A Rã, que entendia um pouco de política, achou que as grandes nações eram muito orgulhosas para se sujeitarem a ser simples Estados dum grande Estados Unidos.

– Pois se não se sujeitarem, pior para elas – declarou Emília. – Dona Benta acha que os homens devem formar no mundo uma coisa assim como as formigas. Elas são de muitas raças, ruivas, pretas, saúvas, sará-sarás, quenquéns, etc. mas vivem perfeitamente lado a lado umas das outras, sem se guerrearem, sem se destruírem. Se as formigas conseguem isso, porque os homens não conseguirão o mesmo.

– Mas acha que os grandes de lá – os reis, os ditadores, os homens importantes – vão seguir os conselhos de Dona Benta e tia Nastácia?

– E que remédio? – respondeu Emília. – Enquanto eles se guiaram pelas suas próprias cabeças só saiu piolho: desgraças e mais desgraças, destruições sem fim. Eles devem estar convencidos de que, apesar de toda a importância, não passam duns tremendos pedaços de asnos.

A Rã concordou.

À noite, quando foram dormir, ficaram as duas na mesma cama conversando até tarde da noite. O assunto era sempre o mesmo: reformas e mais reformas. Em certo momento uma pulga mordeu Emília. Ela acendeu a luz e pôs-se a caçá-la na brancura do lençol. Pegou-a, afinal. Enrolou-a bem enrolada entre os dedos e largou-a “para ver.” E o que viu foi a pulga reviver e escapar aos pulos.

Emília danou.

– É sempre o que me acontece! Esfrego, enrolo as pulgas e elas se desesfregam, se desenrolam e saem pulando.

Tenho também de reformar as pulgas.

– Como?

– Poderei fazê-las molinhas como qualquer mosca. Já reparou que, para o tamanho que têm, as pulgas são a coisa mais rija que existe no mundo? Mais rijas que borracha… E também vou mudar a velocidade do pulo das pulgas. Faço pulos em câmara lenta, de modo que a gente possa pegá-las no ar com a maior facilidade, como se estivéssemos colhendo uma bolotinha.

A Rã lembrou um “melhoramento” ainda melhor.

– E se cortássemos o pulo das pulgas pelo meio? – disse ela.

Emília não entendeu.

– Cortar, como?

– A pulga pula. Quando chega no ponto mais alto do pulo, para. Fica paradinha no ar, como um ponto final. E a gente, sossegadamente, a pega e a estala entre as unhas. Gosto muito de ouvir o estalinho das pulgas. É o único inseto que tem essa habilidade.

– As baratas também sabem estalar – lembrou Emília.

– Cada vez que Narizinho pisa numa, ela estala. É a linguagem das pulgas e das baratas. E também dos chicotes.

Pedrinho tem um chicote que é mestre em estalos.

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