dalva, herivelto, amarcord

DALVA, HERIVELTO, AMARCORD

    Dalva de Oliveira e Herivelto Martins? Claro que me lembro! Eu me lembro??
    Existe um tipo de mentira que não transforma o mentiroso em pecador: é aquela, resultado de uma traição da memória.
    Quando eu era menino, minha avó contava uma história que teria acontecido no sertão mineiro: certo homem comprara um par de botas mas elas estavam muito largas. Apesar de ter ficado bravo por causa disto, um dia ele calçou as botas e saiu pra caçar. Perto de um rio, um jacaré de papo amarelo (ói tu aí em cima, que assinou o decreto do acordo ortográfico, como é que fica isso? jacarédepapoamarelo?), um jacaré, eu dizia, minha avó contava, pegou-o pelo pé e começou a arrastá-lo até a água. Ele conseguiu se segurar numa árvore fina e puxa que puxa, o jacaré, segura que segura, o herói, ele mexeu o pé da bota abocanhada, a bota saiu e o jacaré lá se foi com a bota e safou-se o quase coitado. Pois é. Amarcord.
    É um episódio possível. Não é nenhuma peripécia à la barão de Münchhausen, com trema. Para usar uma expressão linguisticamente ridícula, dá pra dizer que esta narrativa contém um alto teor de plausibilidade.
    Minha irmã Angela, que mora nos Estados Unidos, há alguns meses me contou que eles lá adoram ouvir a história do nosso avô com o jacaré e a bota. Tive que desmenti-la. Ela é mais nova que eu 2 anos, não lembrava direito. Não foi com o nosso avô que aconteceu mas com um homem qualquer. Isto é um exemplo do que eu disse na introdução.

    Esta minissérie sobre a Dalva de Oliveira e o Herivelto Martins, com toda certeza, deve ter sacudido, em milhares de brasileiros, a poeira da saudade. Velhas emoções esquecidas sobem num redemoinho e começam a machucar, ainda mais porque a madame Música está no olho do furacão.
    Cada um tem lá as suas lembranças. Cada outro sabe onde o calo dói. Minha recordação sobre a época não tem nenhum jacaré mas garanto que tem lá sua pontinha de charme. Vou transcrever trechos de mensagens trocadas nesses últimos dias, que ajudarão na sequência da narrativa.

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o homem que queria tremer

quinto A

O HOMEM QUE QUERIA TREMER

quinto A

Nota: Esta peça foi apresentada em novembro de 1972 no Auditório da Biblioteca Pública do Paraná, por alunos da turma Quinto A, da Escola Raphael Hardy. Durante o segundo semestre, de duas aulas semanais de Educação Artística, uma era dedicada aos ensaios. Foi um interessante exercício, escrever a cada semana um episódio, que era dado aos atores responsáveis pelos papéis.
    Baseei-me em dois famosos contos dos Irmãos Grimm (1785/1863 e 1786/1859), O Homem que queria tremer (Märchen von einem, der auszog, das Fürchten zu lernen) e O Túmulo (Der Grabhügel). Informação curiosíssima: No conto O Túmulo, o Soldado menciona o personagem de O Homem que queria tremer. Que eu me lembre, isto não ocorre em nenhum outro conto dos Irmãos Grimm. Isto poderia significar que os Irmãos, que saíram pela Alemanha anotando da boca do povo os seus contos e lendas, fariam algum tipo de “literatura” em cima do material anotado?
    Ao final do texto, apresento a lista dos alunos-atores, com seus respectivos papéis.

Cena 1. Sala (Pai, Compadre, Homem).

PAI: Ah, meu Deus do céu! Onde andará esse meu filho? Passei a noite toda esperando, já amanheceu e nada dele chegar. (batem) Opa! Será que é ele?
COMPADRE (entrando): Bons dias, compadre. Vim ver se você me empresta uma galinha choca para cobrir uns ovos de galinha d’angola.
PAI: Pois não, pois não. E como está a comadre?
COMPADRE: Está bem, está bem. Espera o seu décimo sétimo filho. E o afilhado, por onde anda que há muito tempo não visita os pobres?
PAI: Ah, compadre. Está me dando aborrecimentos, este filho. Saiu ontem para vender uns patos na aldeia vizinha e não voltou até agora.
COMPADRE: Santo Deus! Pode ter acontecido alguma coisa! Há ladrões terríveis no caminho, bandoleiros desalmados. Que teria acontecido?
PAI: De ladrões e bandoleiros eu não tenho medo. Meu filho é forte, você sabe, e um murro dele derruba qualquer golias. Mas me arrepio só de pensar que ele teve que viajar à noite perto do cemitério da igreja abandonada. Estão falando que há assombrações horríveis vagando por lá.

 

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GIL VICENTE 39. AMADIS DE GAULA (1533)

amadis de gaula

Resumo:

Amadis e seus três irmãos conversam sobre a vida de aventuras, para adquirir-se a glória. Amadis fala que não combate pela glória mas porque serve a Oriana, “formosura soberana”. Os irmãos se separam, em busca de grandes proezas. Entra o rei Lisuarte, da Inglaterra, com a corte. Um arauto anuncia que sete reis inimigos estão se preparando para atacá-lo. Surge o nome do donzel do mar, o cavaleiro perfeito, Amadis de Gaula, para combater em sua defesa. Oriana, a filha do rei, se afasta com sua dama e pede que o arauto entregue a Amadis uma carta, marcando uma entrevista. Amadis e Oriana tem um encontro, onde ele jura eterno amor e serviço a sua dama. Quando Amadis está longe, realizando suas façanhas, defendendo uma princesa ultrajada, vem um anão, seu criado, e fala a Oriana que o herói está servindo a outra dama. Oriana, indecisa a princípio, acredita e manda outra carta a Amadis, rompendo sua relação. Em desespero por ter sido considerado infiel, Amadis esconde-se na Penha Pobre e vive como ermitão. Don Dorin, que estava presente quando Amadis se desfez das armas e vestiu a túnica de ermitão, fala a Oriana sobre a fidelidade do herói. Oriana pede que Dinamarca, donzela de sua corte, vá até Amadis e o peça para voltar. Com o mal-entendido esclarecido, Amadis anuncia sua volta à Oriana.

GV132. Amadis (fala) – Sinfonia Amadis.

1º. Movimento: Triste, “ma non troppo”:

Oh mis angústias mayores!
Que entre dolor y dolor
Me nacen outros dolores.

2º. Movimento: Mais triste, “ma molto meno di più”:

Porque el mundo en que me daño
Nunca fue para mi mundo
Sino una mar de engaño.

3º. Movimento: Quase em fuga, “comunque senza paura”:

Oh mundo de engaño!
Ardido seas en fuego.

(fala: Jorge Teles)

 

Comentário:

Amadis de Gaula é o mais antigo e o mais famoso livro sobre cavaleiros andantes. Sua mais antiga versão é em castelhano mas muitos estudiosos o consideram como sendo de origem portuguesa. O herói é muito citado por Dom Quixote como o mais perfeito de todos (sendo caricaturalmente imitado, como no episódio da Sierra Morena). Ao levar este tema para o palco, Gil Vicente inaugurava uma nova vertente para o teatro ocidental, logo logo transformada em dramas de capa e espada. Já era um escritor cônscio de seu talento. A linguagem da peça é tipicamente palaciana, retórica e bem distanciada daqueles falares espontâneos de muitos dos personagens vicentinos. Isto não lhe diminui a graça mas concede à obra um outro tipo de graça. Há uma quantidade de citações sobre o amor.
Dois aspectos dessa peça são estranhos aos nossos olhos de hoje. O anão, que criou todo o mal-entendido entre os apaixonados, com uma mentira, não reaparece para algum tipo de punição. Esta preocupação não escaparia a um autor mais moderno. E o final da peça é brusco, porque Amadis simplesmente anuncia a volta, já que assim ordenou sua dama. O reencontro emocionante não acontece.

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