Desistória – capítulos 9 e 10 (final).

Desistória – capítulo 9.

 

 

Ai, ai, ai dos que moram sobre a terra.

 

            9. crepúsculo de dor.

 

            desci a montanha de neve. não tenho idade. nunca terei. um espírito insano me condenou a presenciar estes fatos e participar desta história.

            fecho os olhos e vejo uma multidão atribulada a correr entre casas enormes. as criaturas estão escravizadas a máquinas imensas e inúteis. algumas dessas criaturas estão vivas.

            fecho os olhos e vejo uma catástrofe. explosões e morte. há um simultâneo silêncio de alguns dias. dos buracos saem criaturas sujas de negro. algumas dessas criaturas estão vivas.

            fecho os olhos e vejo um grande formigueiro, ordenado e correto. todos executam suas pequenas tarefas, pertencentes a uma grande tarefa: manter vivo aquilo que está morto. as criaturas trabalham. algumas dessas criaturas estão vivas.

            fecho os olhos e vejo discussões. as criaturas querem convencer as criaturas. amordaçam o instinto da vida e liberam o instinto da morte.

            fecho os olhos e vejo guerras.

            vejo guerras.

            abro os olhos e vejo uma tribo trabalhando seu cobre e seu bronze. vestem-se de maneira vistosa, cultuam seus deuses, elevam seus templos e palácios. escravizam os semelhantes. cada vez que conquistam um povo, destroem a todos. a vida humana não tem valor.

            ruem suas construções de tijolos e de pedras. quebram-se seus carros. arruínam-se suas pequeninas embarcações. fogem para a vida selvagem alguns dos seus animais domésticos. esquecem-se de semear a nova seara. seus filhos discutem e se dividem e procuram seus próprios caminhos. sacrificam seres humanos aos seus deuses, para que sucedam bem os seus planos.

            e mais guerras.       

            chegados aos lagos e mares mais mansos, elevam suas palafitas. nas toras de madeira, cavoucam o barco frágil. com fibras de vegetais, executam redes para pescar. das peles das caças fazem cobertas contra o frio. queimando o barro preparam vasilhas rústicas. quando têm tempo, sulcam no barro úmido desenhos simples. não se lembram que os avós dos avós derretiam metais. fazem suas armas com pedras que esfregam em pedras mais duras.

            espalham-se em pequenos grupos, pelo mundo cheio de perigo.

            ainda guerras.

            a vida é difícil. frio, fome, feras, espíritos que entram no corpo e matam com dores, inchaços, arrepios, prostração. os que morrem são enterrados, para que os animais não os devorem. mas eles aparecem em sonho, enchendo de terror o acordar. vão ao local onde o morto foi enterrado e o cobrem de pedras, para que ele não fuja e venha perturbar a noite. fazem de barro os pequenos simulacros dos que se foram, para que eles fiquem tranquilos. as mulheres estão sempre barrigudas. mas as crianças morrem por um nada. as mais peludas resistem mais ao frio.

            quando brigam, os que saem vivos se separam em bandos menores e se espalham mais ainda.

            não se lembram mais de como eram as casas dos lagos. entrar no lago é ser devorado pelos monstros. fogem e acham cavernas. vivem em pequenos grupos. espíritos terríveis habitam o mundo lá fora. desenham animais nas paredes. fabricam estatuetas de fêmeas inchadas, seios, nádegas, barriga.

            e guerras.

            falta água. o rio secou. o bando avança lento, as narinas ao vento, sentindo cheiros. qualquer ruído os enche de terror. as mães protegem seus pequenos. quando encontram, comem raízes, mel, frutas. armam-se com pedaços de madeira pesada. um chefe, à frente, avança encurvado. as narinas farejam. de repente um cheiro distante de água. os olhos brilham. por meio de grunhidos avisam-se uns aos outros. alegria, satisfação. ao transpor a colina, porém, vêem o brilho da água mas sentem também um cheiro diferente, ameaçador, inimigo. descem cheios de furor. os pequenos ficam à espreita, lá no alto, os olhos arregalados de espanto e horror. o bando inimigo avança. medem-se. farejam-se. pulam e recuam. súbito, um encontro de paus no ar, o ruído excita, todos se lançam à frente e se batem e se destroem e quebram-se as pernas e os braços e os crânios.

            os pequenos, lá no alto, voltam em desabalada carreira. os mais frágeis vão morrendo, comem o que encontram. de medo dos perigos, sobem em árvores. dias e noites a fugir e a procurar comida e água. os pelos aquecem.

            o tempo parou.

            é um eterno presente.

            um espírito insano me condenou a presenciar estes fatos e participar desta história. eis o que vi:

            uma fêmea caminha sobre a vegetação. está excitada. os cheiros a entontecem. qualquer ruído a assusta. tem o sexo molhado e sente contrações fortes. apalpa-se, umedece os dedos, cheira, estranha. as narinas arfam. então surge um macho. ele também excitado, impetuoso, o cheiro diferente. assustam-se, gritam, correm, vigiam-se. aproximam-se gemendo. arreganham-se os dentes mas avançam. inimigos mortais que se buscam. dois medos que se aproximam um do outro. olhos cheios de um ódio receoso. tocam-se, assustam-se, gritam, pulam. aquietam-se. nova tentativa. o macho arreganha as unhas e os dentes. seu sexo está crescido, furioso, grande, duro, com um cheiro fortíssimo. a fêmea tem medo. gemendo, os dentes afiados à mostra, curva-se, põe-se de quatro, exibe suas carnes molhadas. o macho sente o impulso, segura-a nos ombros, morde-a de jeito a subjugá-la, inicia uma série de movimentos e ao sentir o pênis encontrar o orifício, acelera, geme, enfia embrutecido, o baixo ventre trabalhando por si mesmo, convulsivo. uma pequena explosão, ele retira e se prostra no chão. ela se encolhe e descansa.

            um aviso longínquo não chega até eles: de que existe olhar, sorriso, abraço, carinho e beijo.

            um espírito insano me criou para que eu viesse presenciar estes fatos e participar desta história. eis o que vi:

            a fêmea está intranqüila. catou gravetos, folhas, farejou, afastou-se um tanto do resto. não muito, para não correr perigo, não pouco, para não ser incomodada. fez um ninho. algo se move dentro dela. está cansada, lenta, um peso ameaça escorrer por entre as pernas. suas mamas estão inchadas. então se deita e espera. a barriga como que fecha e abre. ela se entrega. as pernas se abrem, se escancaram. sente arder a vagina. leva as mãos, está molhado. algo se rompe, se abre. ela tateia. os olhos doces. ajuda a retirar o que quer sair. puxa devagar, sente-se livre. levanta-o, uma cria, um menininho. morde a tripa que lhe sai, vai mordendo, mascando, até chegar na barriguinha. aperta, esfrega os dentes. corta. a outra parte da tripa, ela puxa devagar e a abandona. leva a cria ao peito, para aquecê-la. aos poucos a cria se anima, sua boca procura, tateia, se mexe. acha o bico da mama. suga forte. a fêmea sente escoar-se o sangue de seu corpo. num gesto de instinto, aconchega o rosto junto à cria.

            nenhum dos dois ouve o aviso longínquo de que existe nome. e liberdade.

            um espírito insano me pediu para presenciar estes fatos e participar desta história. eis o que vi:

            a cria cresceu e sai atrás da mãe. procuram comida. mexem, levantam folhas, cavoucam o chão. a fêmea ouve um grito. tem tempo de ver uma cobra escorregando para longe. toma a cria no colo. berros de dor. ela o abraça, acaricia-o, dá-lhe a teta. a cria grita, cada vez mais alto, a fêmea geme desnorteada. chega ao rostinho da cria o seu rosto aflito. lambe-o. os gritos vão ficando mais fracos. a cria vai mudando de cor e sua perna aumenta de tamanho. os olhos fechados. gemidinhos. a fêmea caminha com aflição, geme cada vez mais alto. de um lado para o outro. de um lado para o outro. a cria está mole em seus braços. a fêmea levanta a cria, olha para os lados, medo e impotência. a cria esfria. a cria esfria. a fêmea carrega-o um tempo. deposita-o no chão, senta-se, fica olhando.

            não ouve um aviso longínquo, de que existe choro.

            um espírito insano me perguntou dessas coisas.

            respondi que vi a fêmea estender as duas mãos abertas para o alto e ficar um tempo a olhá-las.

            cheias de nada.

 

  

Desistória – capítulo 10 (final).

 

 

            Amém.

 

            10. a noite negra.

 

            assim não seja.

 

  

Curitiba, 22 de abril de 1982.

Malhistorio – ĉapitro 8.

Malhistorio – ĉapitro 8.

 

 

          Ve! Ve! la granda urbo, la vestita per bisino kaj purpuro kaj skarlato, kaj ornamita per oro kaj altvaloraj ŝtonoj kaj perloj! ĉar en unu horo pereis ĉion da riĉeco.

 

           8. novluno.

 

           li dormas. li sonĝas, ke mi dormas. li ne scias ke mi tenas enmane lian morton. li fidas je mi. li amas min. lia dekstra kruro ripozas sur miaj femuroj. lia dekstra mano ripozas sur mia mamo. li spiradas sur mia kolo. li ne scias ke mi tenas enmane la pulvoron kiu silentigos lin. mi sentas per mia brako la trankvilajn kaj fidantajn batadojn de lia koro. kaj denove mi pensas pri la ringo sur mia fingro, el kie mi prenos la pulvoron kiu dormigos lin je alia speco de dormo. dormo en kiu li ne plu sentos miajn mamojn nek miajn femurojn nek la odoro de mia sekso. dormo en kiu li ne plu sonĝos pri amo al mi. ĉar li amas min. tute senespere, ekzakte kiel ĉiuj aliaj. per amo je totala sindonemo. mi silentigos lin kaj tute sola regnos sur tiu granda imperio. ĝuste por tio, mi naskiĝis.

          mi havas nek patron nek patrinon, kantis malnova kanzono konata de mi.

          mi havas nek patron nek patrinon,

          filino de la arbar’,

          nepino de la montar’.

           la dikulino vartis min. edzino de la mastro. li, skeletece magra, ŝi, elefantino graveda je ventro, je brakoj, je femuroj. ŝi donis manĝon kaj banis min, li donis ordonojn. ili havis grandegan filon, blankan kaj blondan, terure blankan kaj troege blondan. li levadis min, frotis la densajn lipharojn sur mian ventron, ĵetis min alten, prenis min dum falo, denove la lipharojn kaj krevanta kiso sur miaj piedoj.

          ni ĉiuj vekiĝis malfruege. tiu tenduma vivo ne estis facila, hodiaŭ ĉi tie, morgaŭ tie; sed estis tre amuza. ni vekiĝis malfrue ĉar la cirko funkciis ĝis frumateno. mi jam kapablis helpi, laŭ ilia diro. do, tuj post la manĝo, la estro sendis min por helpi la blondan filon. estis la filo, tiu kiu devis fliki la vestojn de la monstroj aŭ kunporti al ili manĝaĵon aŭ lavi iliajn kaĝojn. mi restis ĉe li kaj plenumis etajn taskojn: preni la forgesitan kudrilon, kunporti la martelon posttagmeze, fininte la duan manĝon, ni devus organizi la noktan programaron. helpi pri la dispono de la malplenaj ĉeloj, kontroli ĉu la nomoj pendadis sur la ĉelaj pordoj, etendi la grandan tolaĵon por ke la pluvo ne surprizu nin.

          vespere mi nenion faradis. mi restis algluita al la mantelo de la filo dum li prezentis, unu post la alia, la kuriozegajn monstrajn kreitaĵojn, dum li parolis pri iliaj krimoj kaj iliaj punoj. ni fajrigis la torĉojn, la popolamaso ariĝis, ridante kaj kriante. post la organizo de malgranda grupo, li komencis la prezentadon:

          ĉi tie, gesinjoroj!, gapu fronte al tiu duonviro!, indikante la duonviron, kiu nek krurojn nek sekson havis: nur la trunkon, kapon kaj brakojn. jen, gesinjoroj, tiu kreitaĵo estis riĉa civitano de la granda ĉefurbo! kaj okazis ke, iutage, li ne buĉis hundon por la ofero al la dio de militvenko. en la posta tago tute malaperis duono de li, la kruroj kaj tio, kiu estas la plej vira valoraĵo kaj plej plaĉa al la virinoj! ĉiuj ridadis kaj manfrapis, inter si rigardante per kontenta varmeco.

          kaj ni iris al la kaĝo de la flugilhava viro. la flugilhava viro!, gesinjoroj!, estas tiu horora kreitaĵo kun manoj algluitaj al ŝultroj. li mem rakontis al mi, turmentplena, ke en sanktigita tago, en sia vilaĝo, li aŭdacis tuŝi la fekundigan akvon, mokante pri la diino de geedziĝoj, tiun akvon per kiu la sterilaj virinoj ŝmiras mamojn kaj ventron, esperante gefilojn generitajn per dia helpado. kaj jen en la posta tago liaj brakoj malaperis kaj liaj manoj algluiĝis al la ŝultroj, kvazaŭ senplumaj flugiloj. ĉiuj kriadis kaj prifajfadis kaj manfrapadis.

          kaj tiele ni sekvadis, de la flugilhava viro al la virino kun tri mamoj kaj al maljunulo senripa kaj al la plej eta viro en la tuta mondo kaj al la viro manĝanta tra la kolo, per sia tubeto. la spektantaro admiradis, kriadis, amuziĝadis. kelkaj el ili, tamen, ne estis aŭtentikaj. mi sciis sed ne rajtis priparoli. ekzemple, la vira virino. iam en la tendumaro aperis mizera virino, al kiu, dum vilaĝa invado, oni fortranĉis unu el la mamoj. la mastro ordonis farbi vilaron sur la senmama flanko, algluis duonbarbon kaj pecon de peniso kaj ununuran testikon interkrure. dum tiu prezentado, la torĉoportantoj malantaŭigis la lumon, kaj nur la konturoj de tiu fantasta aperaĵo montriĝis.

          granda estis la ekzaltiĝo de la filo dum la prezentado de tiuj estaĵoj. iam mi rimarkis ke li ofte ŝanĝis la miraklojn, laŭ lia plia aŭ malplia alkoholtrinkado. tamen, neniu perceptis. ĉiuj parolis malsimilajn lingvojn, kiom da estis tiuj lingvoj?, ili nur spektadis kaj amuziĝadis.

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Rubaiat, de Omar Khayyam, 46 a 60

Rubaiat, de Omar Khayyam, 46 a 60

traduzido por Matos Pereira. Editora Jangada, Rio de Janeiro, 1944.

 

XLVI

Do ganha pão, na faina atormentada,

vi o Oleiro moldando diligente;

e o barro, numa voz quase sumida,

pedia: “Meu irmão, mais docemente!.”

 

XLVII

Uma tarde, no fim de Ramadan,

– antes da lua grande se ostentar –

detive-me no pátio da olaria

com meus irmãos de barro a conversar.

 

XLVIII

Uma fila de vasos multiformes

junto à parede achava-se alinhada.

Havia ali uns jarros que falavam

e outros que ouviam, mas sem dizer nada.

 

XLIX

Quando eu entrei no pátio da olaria

um jarro disse para seus iguais:

“Deixe que o ilustre visitante evoque

os oleiros, que já não somos mais.”

 

L

Este exclamou: “Por mais zangada a criança,

não despedaça o copo predileto.

E Ele também não quebrará um vaso

que soube modelar com tanto afeto.”

 

LI

Aquele diz, em voz queixosa e triste:

“Perdi meu timbre, ressequido o barro;

mas encham-me com o suco delicioso

e reaverei meu ressoar bizarro.”

 

LII

Disse outro, então: “Não é decerto, embalde,

que, extraídos do barro, e feito gente,

Ele que tão sutil nos deu a forma

nos arremessa à terra novamente.”

 

LIII

Nenhum lhe respondeu, mas, finda a pausa,

fala um pote mais feio que o primeiro:

“Eles zombam de mim, porque sou torto.

Por acaso tremeu a mão do Oleiro?”

 

LIV

Outro falou: “Ouvi dizer, há pouco,

que dentro em breve, aqui virá alguém

que destruirá os vasos ruins – Qual nada!

Ele é amigo e tudo acaba bem.”

 

LV

E o mais extraordinário é que, entre os jarros

– representando o nosso mundo inteiro –

um , de repente, exclama impaciente:

“Digam, quem é o pote e quem o Oleiro?”

 

LVI

Enquanto os potes conversavam baixo,

um espia, o Crescente, e então, sorrindo,

exclama: “Irmãos, irmãos, escutem como

no ombro do Oleiro o laço está rangendo!”

 

LVII

Oh, mestre Oleiro, se és capaz, evita

ferir a argila de onde veio Adão.

Tens em teu torno, a mão de Feridum

e o crânio besuntado de um sultão.

 

LVIII

A argila deste vaso foi outrora

um poeta que era um verdadeiro Apolo.

A alça ao redor do bojo, o braço dele,

quanta vez não cingiu formoso colo!

 

LIX

Ontem, sentado em frente do seu torno

o Oleiro trabalhava, e muito bem.

Quanta mão de mendigo ele amassou.

E quanto crânio de sultão, também.

 

LX

Deixa os problemas sacros e profanos,

e as tramas do porvir; então, sozinho,

embrenha os dedos nas sedosas tranças

desta vestal, que te dispensa o vinho.