agora e sempre

A ditadura da burrice 08: AGORA E SEMPRE


O pai, junto à hetaíra, comenta:
Ele merecia essa sorte.
A mãe, dedilhando a lira, lamenta:
Ele mesmo buscou tal morte.
O filho, acendendo a pira, proclama:
Não é bom criar problema.
O avô, copiando a Ilíada, exclama:
Não se deve contrariar
o sistema.

E Sócrates bebeu a cicuta. 
Lá fora o povo aplaudia.
E Sócrates bebeu a cicuta.
Afinal, isso não ocorre todo dia.

O pai, a contar denários, comenta:
Ele merecia essa sorte.
A mãe, a tecer sudários, lamenta:
Ele mesmo buscou tal morte.
O filho, a roubar dromedários, proclama:
Não é bom criar problema.
O avô, compondo a parábola, exclama:
Não se deve contrariar
o sistema.

E Cristo foi pregado à cruz.
Lá embaixo o povo aplaudia.
E Cristo foi pregado à cruz.
Afinal, isso não ocorre todo dia.

O pai, a erigir papados, comenta:
Ele merecia essa sorte.
A mãe, a trançar bordados, lamenta:
Ele mesmo buscou tal morte.
O filho, a quebrar tratados, proclama:
Não é bom criar problema.
O avô, ensinando a Escolástica, exclama:
Não se deve contrariar
o sistema.

Giordano Bruno foi queimado,
Ao redor, o povo aplaudia.
Giordano Bruno foi queimado,
Afinal, isso não ocorre todo dia.

O pai, a erguer capelas, comenta:
Ele merecia essa sorte.
A mãe, a mexer gamelas, lamenta:
Ele mesmo buscou tal morte.
O filho, a enganar donzelas, proclama:
Não é bom criar problema.
O avô, lendo o verso arcádico, exclama:
Não se deve contrariar
o sistema.

E Tiradentes foi enforcado,
Em volta o povo aplaudia.
E Tiradentes foi enforcado,
Afinal, isso não ocorre todo dia.

O pai, a fraudar falências, comenta:
Ele merecia essa sorte.
A mãe, a exigir decências, lamenta:
Ele mesmo buscou tal morte.
O filho, a viver carências, proclama:
Não é bom criar problema.
O avô, diante da Estatística, exclama:
Não se deve contrariar
o sistema.

Era eu, ou você, ou ele ou nós.
E a gente achando que entendia.
Sim, era eu, você, e ele e nós.
Afinal, isso nos ocorre todo dia.

Curitiba, 29.11.1977

apolo e jacinto, 13

apolo e jacinto, 13.

uma hora depois, chegou o criado. parecia que o esperavam.
Que estranho, levar-me lá pra cima. a mulher o puxava.
ele está lá em cima. pediu que subisse assim que chegasse. os criados cuidarão dos cavalos e da carga.
os criados? e a porta se abriu.
entre e feche a porta. isto. molhou-se muito? teófilo estava deitado, enrolado em cobertores. havia outra cama e uma tina com água quente.
a capa ajudou um pouco mas, depois, começou a pesar. estava mais longe do que eu pensava. posso descer?
não.
o que devo fazer?
você não vai dormir lá embaixo. disse ao taverneiro que viajamos juntos. ainda bem que veio com a capa.
o que devo fazer?
tranca a porta, tira essa roupa, entre na água quente. eles trarão comida aqui. não quero ficar sozinho até chegar a noite. você ficará comigo e jogaremos dados.
alio tirou a capa lentamente, pingava água, estendeu-a num canto, sobre o chão. depois, de costas, com a cabeça baixa, parou por um instante. teófilo levantou-se, enrolado, segurou-o no ombro com uma das mãos.
não quero ficar até a noite sem ter alguma coisa pra fazer. você está gelado, puta que pariu! entre já na água quente.
alio desceu as calças, lentamente. teófilo não queria olhar, virou-se, afastou-se. Ora, é apenas um criado! não olhou, mas sentiu ferroadas de marimbondo no coração e seu sexo estremeceu. deitou-se. ouviu o barulho da água. aconchegou-se no meio dos cobertores. alio tremia. com as conchas das mãos levava água sobre o corpo, teófilo ouvia o barulho e imaginava cada gesto.
não está quente?
está.
Está com vergonha de mim. Tenho de pô-lo à vontade, não devia ter feito isto. Tomara que eu não esteja sendo capturado por uma terceira armadilha…
bateram. alio encolheu-se, escondendo o sexo com as mãos. teófilo levantou-se, ajeitou os cobertores, expondo rapidamente sua nudez camuflada.
suspendeu a tranca. o dono entrou.
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minueto do cocozinho teimoso

Canções Diversas 09: MINUETO DO COCOZINHO TEIMOSO.
Cançãozinha feita para meus dois filhos.


Cocozinho teimoso,
já chegou tua hora;
eu puxei a descarga,
você não foi embora.
Você vai lá pro fundo,
fica escondidinho;
quando eu menos espero,
você volta inteirinho.

Cocozinho teimoso,
estou muito zangado;
joguei um balde d’água
mas não deu resultado:
você desaparece,
eu me vejo sozinho;
quando eu menos espero,
você volta inteirinho.

Cocozinho teimoso,
já perdi a paciência.
Tô ficando irritado
com a tua insistência.
Você dá cambalhotas
que nem um palhacinho;
quando eu menos espero,
você volta inteirinho.
 
Eu peguei uma faca
e cortei-o ao meio.
Dei de novo a descarga
e atingi-o em cheio.
Mas eu levei um susto
com o que vi depois.
Era um cocozinho.
E agora são dois.
 
Curitiba, 28.06.1982
 
(canto: Isa)