herons and scavengers… 20

festas

20. Parties

Translated by Angela Telles-Vaz

At the end of the year, maybe October or November, a tiny group of aloof and smiling five year old boys arrived at the school. Sempiternal deities! Five year olds! From which orphanage were they left over? Which nun had to separate them, by choosing this or that criterion those that should find shelter amidst that collection of human zoology, rats, dogs and jackals? Which slim and delicate fingered-hands could no longer rock those little creatures, caressing their round faces, smoothing the soap foam on the backs and soft thighs of those little pieces of people? Five year olds!
Some still spoke wrongly. Not many. I suppose five or six, maybe more because soon at the parties they will take part in a little theater play about the vowels and punctuation marks.
We all adopted those little sufferers. It was as if they belonged to the flock of the big brothers. Their toys were protected, their objects taken care from usurping hands. We just got used to the little ones.
From that moment on, I stopped being one of the youngest of the school. Nevertheless, my position of receiving general protection was never shaken. I never felt jealous of the little ones, like for instance, I felt of Little Marcos, everything stayed as before. Would it be because of the classes? Geography and multiplication tables…
It’s strange that these little porcelain figurines left a mark inside of me only because of a short episode but a very significant one. During Christmas, they took part in a play to be seen by everyone. That’s how their vivid image remained with me, disguised as letters and punctuation marks.
We were lined up, cover, mark steps, rest… The nervous teachers arrived at the theater, someone gave the signal and the little play began.
The small flock of birds entered. I was in ecstasy. They had hung on their chest a very white piece of cardboard. The first one represented the letter “a”, he went forward and spoke a verse. The “e”, and “i” followed and all the vowels spoken. Then, it was time for the punctuation mark, the comma and the period… The interrogation mark struck me a lot, I don’t remember if it was the verse or the precise drawing, the curve well drawn or the child that played the part.
I don’t know how the others reacted. I was simply amazed by it all.
It was Christmas day. I knew already that Santa Claus didn’t exist. I couldn’t notice if there was something bright or enlightened in the air. No one heard different songs, no sounds but the everyday cries, besides the routine of slangs and curse words. The only difference was that we were told that it was Christmas day. Christmas was the day that he was born, the one that lived at the church, lying inside a glass coffin, dressed in purple with real hair and eyes – thankfully – closed.
I also knew, somewhat, what it meant to die. The most remote memory of my life, which I recall, happened in Manhuaçu: I participated in the funeral of a kitten organized by Zélia. And the same had happened to that man born on Christmas. And every year, he returned to be crucified with nails that would break our hands.
In the afternoon, the bell rang. It should be Christmas by now. Because the air was full of a bronze sound that took long to stop, slowly lowering, another sound pounding strongly like a hammer and the monotonic music went on and on. That afternoon bell was very sad. It stopped hurting the heart when someone shouted that they were going to give away the milk candy to every one of us.
Milk candy!
The milk candy was like a smile, it was a bell without sorrow, the tearless look of the widow-mother on the other side of the train window. I don’t know. It was sweet, tasty, melted slowly. It was inversely proportional to that thick and foul-smelly goo that we had to take to get rid of the worms. While that goo was swallowed down to be settled inside of each one for a number of days, the milk candy, though inversely, melted quickly and everything hadn’t been more than a dream spell.
That sweet was a great lie.
My heart stumbles while I write.
Prometheus rachitic heart doesn’t resist to all the pecking.
I will only mention that during that whole afternoon and confused dreams at night, the lights and sounds seemed to come from a fantasy world where the sisters live, the mermaids, the colorful cars, the mother, the grandmother, the bath soaps, the blankets…
That lie lasted very little.

to be continued on next sunday.

garças e abutres… 20

festas

20. Festas

    No final do ano, outubro ou novembro, chegou ao colégio um minúsculo grupo arisco e sorridente de menininhos de cinco anos. Sempiternas divindades! Cinco anos! De que orfanato teriam sobrado? Que freira teve que separá-los, escolhendo por este ou aquele critério, aqueles que deveriam alojar-se no meio daquela coleção da zoologia humana, ratos, cães, chacais? Que mãos de dedos magros e delicados não puderam mais embalar aquelas criaturinhas, acariciar seus rostinhos redondos, alisar a espuma do sabonete nas costas e nas coxas macias daqueles pedacinhos de gente? Cinco anos!
Alguns falavam errado, ainda. Não eram muitos, tenho idéia de uns cinco ou seis, mas deviam ser mais, porque, daqui a pouco, nas festas, eles apresentarão um teatrinho com as vogais e os sinais de pontuação.
Todos adotaram aqueles pequeninos sofredores. Era como se tivessem entrado num bando de grandes irmãos. Seus brinquedos eram respeitados, seus objetos resguardados de mãos raptoras. Acabamos por acostumarmo-nos com os pequeninos.
A partir daquele momento, eu deixei de ser um dos caçulas do colégio. Apesar disso, minha posição de protegido geral nunca foi abalada. Nunca senti ciúmes dos pequenos, como sentia de Marquinhos, por exemplo, tudo continuou como antes. Seria por causa das aulas? A geografia e as tabuadas…
É estranho que estas figurinhas de porcelana se tenham marcado dentro de mim apenas por um episódio curto, mas muito significativo. No natal, eles apresentaram um teatrinho para todos. A imagem deles permaneceu assim dentro de mim, fantasiados de letras e sinais de pontuação.
Fomos colocados em forma, cobrir, marcar passos, descansar… As professoras chegaram nervosas, alguém deu o sinal, começou o teatrinho.
O pequeno bando passarinho foi entrando. Eu estava extasiado. Eles tinham pendurado sobre o peito uma folha de cartolina muito branca. O primeiro era a letra “a”, avançou e falou um versinho. Seguiram-se o “e”, o “i”, todas as vogais falaram. Depois, foi a vez dos sinais de pontuação, a vírgula, o ponto… O ponto de interrogação me marcou muito, não lembro se pelo versinho, se pelo desenho certo, a curva bem feita, ou se pela criança que o representou.
Não sei como reagiram os outros. Eu ficara simplesmente maravilhado.
Era dia de Natal. Eu já sabia que papai-noel não existia. Se alguma coisa de mais brilhante ou luminoso estava no ar, eu não percebia. Não se ouvia canções diferentes, nenhum som além dos gritos cotidianos, além da rotina da gíria e dos palavrões. A única diferença que havia, era dizerem que o dia era dia de natal. Natal era o dia em que ele nasceu, aquele que morava na igreja, estendido dentro dum caixão de vidro, com um vestido roxo, cabelos de verdade e olhos – ainda bem – fechados.
Também sabia, mais ou menos, o que era morrer. Em Manhuaçu, aconteceu a mais remota passagem de minha vida, de que tenho lembrança: participei do enterro de um gatinho, organizado pela Zélia. E o mesmo tinha acontecido com aquele homem nascido no natal. E, todos os anos ele voltava para ser crucificado com pregos que arrebentariam a mão da gente.
À tarde, o sino tocou. Agora, sim, devia ser natal. Porque o ar estava cheio de um bonito som de bronze que demorava a sumir, ia baixando devagarinho, outro martelava forte e a música monotônica continuava. Aquele sino à tarde era muito triste. Deixou de machucar o coração, quando alguém gritou que iam distribuir doce de leite.
Doce de leite!
O doce de leite era um sorriso, era um sino sem tristeza, era um olhar de mãe-viúva do outro lado da vidraça do trem, sem lágrimas. Sei lá. Era doce, era gostoso, desmanchava-se lento, era inversamente proporcional àquela gosma grossa e fétida que tomávamos para as lombrigas. Enquanto que a gosma descia para ficar instalada dentro de cada um durante dias seguidos, o doce de leite, ainda inversamente, se diluía depressa e tudo não tinha passado de um sonho enfeitiçado.
Aquele doce era uma grande mentira.
Meu coração tropeça ao escrever.
O coração do Prometeu raquítico não resiste a todas as bicadas.
Só direi que, no resto da tarde e nos confusos sonhos da noite, as luzes e os sons pareciam de um mundo fantástico, onde habitariam as irmãs, as sereias, os carros coloridos, a mãe, a vó, os sabonetes, os cobertores…
Aquela mentira durou muito pouco.

continua no próximo domingo.

garças e abutres… 19

patchwork

19. Retalhos

    Há um bando aflito de pequenas lembranças me incomodando, exigindo registro. São pequeninas garças inquietas, inofensivas, apagadas. Batem-se dentro da gaiola da minha memória e, se eu as solto, elas partem numa vertigem.
Ou partem, simplesmente.
Será como uma colcha de retalhos; pedacinhos de um momento qualquer, por um motivo ou outro, inesquecível.
Lembro de um sonho apenas. Estou no meio de toda a família, caminhando no alto dum morro, cuidando para não escorregar. Sei que minha mãe está ali, não a vejo, porém. Sinto grande alegria por que estou em Manhuaçu, isto significa, então, que saí do colégio. De todos os presentes, só consigo ver a Zélia, que sorri e me dá a mão. Ela tem franja e veste um vestido curto, como numa das pouquíssimas fotos da família, o pai, a mãe e dez dos onze filhos; o mais velho já tinha casado. De repente, encontramos, no declive, um pé de tomate. Rodeamos a planta, de mãos dadas, como se brincássemos de roda ao seu redor.  Mas tudo começa a se apagar. Lembro do desespero enorme que senti, ao acordar. Aquele dia foi de uma lenta agonia. Fiquei esquecido de tudo, perdido por ali, sentindo alfinetadas confusas no coração, um aperto na alma, tanta coisa…
Um dia um marimbondo me mordeu na nuca. Foi um desespero. Senti que havia algo grudado, passei a mão e o bicho saiu voando, amarelo e preto, tinha tantos!, me deixando com o pescoço em brasa. Passava água para esfriar, o ardor durou todo um dia.
Uma vez, eu estava brincando e chegaram Geraldo e um amigo negro. Esse negro é alto e magro, ah, já sei, ele ficava no beliche de baixo e foi sobre ele que eu urinei, enquanto dormia. Eles me disseram para eu rezar pra gente sair de lá. Eles já tinham pecado, não adiantava muito, mas eu era inocente,
    e se alguém quiser molestar um inocente…
e se rezasse com fé, conseguiríamos sair. Eu tinha, sim, um tipo de inocência, pois perguntei se era para rezar como nos santinhos, de mãos postas e olhar perdido para o alto. Disseram que eu rezasse como quisesse, o importante era ter fé. Eles se foram cheios de esperança e eu me perguntei, perplexo, o que seria necessário fazer, para ser pecador. Comecei a rezar todas as noites, para constatar um horror: eu não tinha fé. Tinha medo. Se eu tivesse fé, rezaria a oração até o fim. E eu sempre me distraía, olhando para os lados e ouvindo as conversas.
E o que dizer das marchas? Atenção! Em forma! Cobrir! Marcar passo! Mar… char! Alguém tocava um bumbo e todo mundo começava a marchar. Não havia um aluno de apelido Passarinho? Não era um pouco retardado? Não era ele que marchava fora do padrão?, ambos os braços para a frente, para trás, para a frente…
De uma feita, descendo do dormitório, aquele bando, senti algo caindo na minha cabeça. Passei a mão e cuspi enojado. Alguém escarrara para o alto e caíra em cima de mim. Faziam muito isto, mas eu nunca fora premiado. Passei muito tempo debaixo da torneira, demorou para descolar-se a brancura gosmenta e esverdeada.
Não falei das tentativas de fuga. Às vezes, desapareciam para sempre. No mais freqüente, eles eram capturados, apanhavam “pra burro”. Uns, foram encontrados com enxada na mão, chapéu de palha, mas não tinham trocado o uniforme. Alguém comentou:
São uns patetas! O principal, eles não trocaram.
Mas, quando sumiam para sempre, viravam heróis.
Não é verdade que um deles foi encontrado muito e muito longe? Tinha pegado um trem, tinha conseguido roupas, tanta coisa difícil! E lá estava ele, de volta, rodeado de ouvintes, todo machucado e de mãos inchadas, explicando os sucessivos detalhes de sua aventura frustrada. Um velho índio, contando aos curumins inexperientes e medrosos, como ele quase conseguira chegar aos domínios da mãe-lua.
Certa vez, eu, Valdemar, Bojão, Zé da Silva e Hermes, falávamos de assombração. O dia terminava e já começava a escurecer. Tinham dito de garfos e facas que dançavam no refeitório, alguém tinha visto. Ou um saci, enrolando fumo. Um de nós observou que, no muro, à nossa frente, havia o desenho grande de um diabo, uma carranca feia com chifres e cavanhaque. Quem falou, primeiro, que o desenho parecia olhar pra gente? Quem continuou, dizendo que ele ria? De quem partiu a idéia de que ele se mexia na parede? E eu juro, que ele começou a se mexer. Nossos pobres corações entraram a pular, ficamos brancos e, após um ruído qualquer, o desespero nos fez correr covardemente até um grupo de grandes. Um de nós falou que a máscara do diabo estava se mexendo. Sinuca liderou, seguimos atrás, cheios de espanto, e mostramos o desenho imóvel e idiota. A zombaria foi feia. Eu morria de vergonha e já não sabia se o diabo tinha ou não rido para mim, mexendo a carranca.
Falei das redes que faziam? Com fios de carretel, uma espécie de filé, era preciso uma varinha. Teciam aquela renda aberta, com a qual faziam uma rede para prender o cabelo para trás. Eram obras de arte. Aprendi a tecê-las, mas esqueci.
Estas lembranças são estranhas. São esfarrapadas demais. Arrebentadas. Cacos de vidro…
E não quero me esquecer de falar de música. Cantávamos muito pouco, algumas canções infantis, pouquíssimas. Mas, sempre havia os hinos pátrios. Mais tarde, eu os aprendi de verdade, participando de corais escolares. Daquela época, fica na minha lembrança apenas a idéia de que todas as músicas do mundo eram muito tristes. Machucavam por dentro. E me tatuaram com uma dúvida que carregarei para sempre no coração: será que toda a música, pra ser bonita, precisa mesmo ser triste?

continua no próximo domingo.