GIL VICENTE 12. FARSA DOS FÍSICOS (1512)

o físico

Resumo:

    Um Clérigo, apaixonado, manda que seu Criado vá a Blanca Denise falar de seus amores. O Criado se recusa porque sempre é repelido com zombarias. Acaba indo até a moça com uma carta. A moça o maltrata e devolve a carta, rasgada e sem ter sido lida. O Clérigo adoece. A partir daí entram uma mulher e quatro médicos (os físicos). Cada um tem um diferente receituário, apresentando uma medicina que de ciência nada tem. A mulher receita “um suadouro de bosta de porco velho”. O último físico cura através da Astrologia (“Em Peixes estava a lua, isto foi na quarta feira; Mercúrio, à hora primeira… não vejo causa nenhuma para febre verdadeira”). É chamado o Padre para a extrema-unção. O Padre, ao saber que a doença dura dois anos, exclama: “Dois anos e outros dez e meio correspondem a dois dias em amores. Há quinze anos ardo em fogo! Ponho a mão sobre você e faça de conta que está são”. E traz cantores com uma salada musical e termina a peça. A salada é uma ensalada ibérica, gênero musical que consiste numa canção com trechos de canções diferentes. No caso desta canção, seu texto é cheio de disparates (Era em maio, véspera de Natal… Meia-noite com lua, na hora do sol sair… Era a páscoa florida, no mês de São João… etc.).

GV028. Quatro Cantores

En el mes era de Maio,
Véspora de Navidad,
Quando canta la cigarra,
Quem ora soubesse
Onde amor nacesse,
Que o semeasse.
Media noche con lunar
Al tiempo que el sol salia,
Recordé, que no dormia
Con cuidado de cantar.

Ervas do amor, ervas,
Ervas do amor,
Á las puertas de la ciudad,
Dijo el abad á Teresa:
Tan buen molinero sondes,
Martin Gomes,
Tan buen molinero sondes.

Era la Pascoa florida
En el mes de San Juan.
Cuando la mona parida
Perguntó al sacristan
Teresica del Robledo,
Que te guarde Dios de mal:
Respondió Pero Piñan
Estae quedo co’a mão,
Frei João, Frei João,
Estae quedo co’a mão.

Padre, pois sois meu amigo,
Quando falardes comigo,
Frei João,
Estareis vós quedo, mas estai vós quedo,
Mas estai vós quedo co’a mão;
Frei João, estai quedo co’a mão.
Perguntaban cual Pirico,
Qual Pinão ou qual Frei João,
Não diria quien era la moça,
Não diria quem, nem quem não.
Yo yendo mas adelante,
Dijo Francia en su latin:
Se volen la guerra, se volen la guerra,
Bone xi si volen la guerra,
Vera xi si volen la guerra.
Dijo la vieja en Portugues:
Palombas, se amigos amades
No riñades
Paz in celis, paz in terra
E paz no mar:
Tan garredica la vi cantar
Ficade amor, ficade,
Ficade amor.

(canta Jorge Teles)

Comentário:

    Preciosa fonte de conhecimentos médicos de há quinhentos anos, já que os físicos são conhecidos médicos das cortes ibéricas. O tema do amor (ou desejo) de um velho por uma mocinha é constante em Gil Vicente. Novamente temos um Autor cheio de frescura e graça, irônico e grande criador de tipos.
Esta peça é bilingue: o moço, a mulher e o quarto médico são portugueses, os demais espanhóis. Gil Vicente apresenta uma interessante curiosidade linguística na fala dos quatro físicos: cada um tem um tique, repetindo expressões intercaladas com as falas: Entendeis?  Ouvi-lo? Habeis mirado? Si!
Quanto ao Frei João que aparece na letra da canção, segundo o comentarista e organizador da obra completa de Gil Vicente editada pela Livraria Sá da Costa Editora, professor Marques Braga, seria uma referência a um personagem que aparece em diversas “chácaras” (canções longas que contam geralmente uma tragédia, mais tarde chamadas de romances) da idade média. Ora, convenhamos, professor… O texto da chácara fala de um frei João que tinha encontros amorosos com uma morena. O marido descobre e a mata. Se fosse verdade essa referência, Gil Vicente não diria na letra: “padre, sois meu amigo, quando falardes comigo… fique quieto com a mão, frei João… não diria quem era a moça, não diria quem nem, quem não…” É muito mais provável que um certo frei João safado tenha cometido alguma indiscrição (para falar o mínimo) com alguma dama da corte, vindo o caso a público e tornando-se motivo de chacota na canção da peça.

canção 06. pássaros de ontem

Canções Diversas 04: PÁSSAROS DE ONTEM

peguei, um a um, meus sonhos dourados,
um a um, sonhos alados,
ai, cortei-lhes suas asas;
pra que não viessem voar alvoroçados,
em bandos alvoroçados,
a fazer sombra nas casas
do anseio meu.

podei-lhes, depois, as unhas agudas,
podei as unhas agudas,
ai, que são de arranhar
lembranças doídas, fantasias mudas,
doidas fantasias mudas,
de nunca se acabar
o anelo meu.

seus magos bicos eu quebrei também,
bicos eu quebrei também,
ai, calando os seus cantos
cantos da luz do amor que sempre vem,
do amor que sempre é um bem,
e de outros desejos tantos,
tormento meu.

a todos esqueci na prisão forte,
esqueci na prisão forte
ai, da fria agonia;
inertes estão à espera da morte,
sempre à espera da morte,
que é quem agora vigia
no peito meu.

(canta jorge teles)

Curitiba, 17.05.1982

CONTA OUTRA VÓ 06. A BOSTA DA VACA

a bosta da vaca

desenho de Ricardo Garanhani 

Nota: Eis aqui um exemplar da ética não explicitada de toda uma época. A pobreza é fonte de virtude, a fé possibilita o milagre e o mal sempre é punido. Bem-aventurados os simples.

 

          Era uma vez uma mulher muito pobre, que tinha muitos filhos, uns oito, e era viúva. Trabalhava na casa de uma mulher muito rica e muito má. A pobre trabalhava na cozinha da rica. Fazia pão, fazia biscoito, fazia bolo, fazia broa.

          Naquela época as filhas casavam e continuavam morando com os pais. Então as casas eram enormes e cheias de filhos e filhas e genros e netos e netas e avô e avó e bisavô e bisavó e tataravô e tataravó. Essa mulher rica era também viúva e na casa dela vivia uma gentarada que só de pão era uma fornada enorme. Era a mulher pobre que fazia aquela pãozeira. E sempre sobrava muita massa no tacho ou na bacia ou no alguidar. Cada vez que terminava uma massa, a mulher pobre pegava uma colher de pau e rapava toda aquela rapa e botava numa gamela e de tarde levava pra casa dela. Aí ela encontrava os filhinhos chorando de fome e assava no fogão de lenha aquela rapa de massas e virava uma broa bonita e os filhinhos comiam e paravam de chorar e até já estavam gordinhos.

          Todos os dias ela fazia isto.

          Aí, num domingo, a rica estava passeando e encontrou os menininhos da pobre, limpinhos e gordinhos. Achou muito esquisito e resolveu espiar.

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