GIL VICENTE 09. AUTO DA FÉ (1510)

benito

Resumo:

Dois pastores entram numa capela e ficam maravilhados com os bonitos objetos, que nunca tinham visto. Há pessoas da corte, com roupas festivas. Tudo que os pastores falam é engraçado. Tentam adivinhar o que é cada objeto e para que serve. Surge a Fé, segundo eles, vestida como uma moura. A Fé explica: é noite de natal. E esclarece sobre a natividade.

GV021. Benito e Brás.

No no no no no no

No no no,

Que no quiero estar en casa;

No me pagan mi soldada,

No no no, que no que no.

No me pagan mi soldada,

No tengo sayo ni saya

No no no, que no que no.

(canta João Batista Carneiro)

 

Comentário:

Para cada auto de natal Gil Vicente criava uma situação nova. O objetivo das apresentações era sempre o mesmo mas o dramaturgo variava as situações. Os pastores falam um castelhano bem rústico e a Fé fala português. Nesta peça há dois aspectos que indicam o que virá a ser o futuro Gil Vicente: um grande humanista precursor e um crítico feroz ao tipo de catolicismo do Portugal de então.

Quando a Fé pede aos pastores que cantem em louvor ao nascimento do menino, ela insiste: cantai per vosso uso acostumado, como lá cantais co’ o gado. (Cantem como estão acostumados a cantar junto do gado). E eles cantam uma canção popular. Isto era vanguarda, o uso das tradições populares como recurso expressivo para manifestação da religiosidade.

Por outro lado, uma das primeiras falas de um dos pastores, quando entra na capela, é: Mas que monton de coronas! Bendigalos santo Anton. (Mas que monte de coroinhas! Bendiga-os santo Antonio), aludindo ao grande número de padres. Santo Antonio é uma zombaria, pois que era o protetor dos animais. Numa peça futura, Gil Vicente vai abordar o problema da quantidade de religiosos com mais precisão e sarcasmo. Chegaremos lá.

as alegres comadres…. – shakespeare

AS ALEGRES COMADRES DE CAMPO LARGO

Tradução livremente adaptada de The merry wives of Windsor, de William Shakespeare (1564-1616), para um grupo de estudantes.

PERSONAGENS:
JOÃO FALSTAFF, libertino.
FENTON, um jovem.
ROBERTO SHALLOW, um cidadão.
SLENDER, seu primo, meio idiota.
SR. FRANK FORD, homem rico.
COMADRE ALICE FORD, sua mulher.
SR. JORGE PAGE, homem rico.
COMADRE MEG PAGE, sua mulher.
ANINHA, jovem filha dos Page.
GUILHERME, menino, filho dos Page.
PROFESSOR HUGO EVANS, professor inglês.
DOUTOR CAIUS, médico francês.
BARDOLFO, PISTOLA, NYM, empregados de Falstaff.
ROBIM, menino de recado de Falstaff.
SIMPLES, empregado de Slender.
RUBI, empregado do Dr. Caius.
SENHORA APRESSADINHA, empregada do Dr. Caius.

Criados, empregados, fadas e fantasmas fantasiados…

Uma rua em Campo Largo. Uma das entradas do palco é a porta da casa dos Page.

ROBERTO SHALLOW: Não adianta, Professor Hugo. Não tente me convencer. O senhor João Falstaff não zombará mais de mim. Vou aos tribunais!
SLENDER: Aos tribunais… Aos tribunais…
ROBERTO: Isto mesmo, primo. Professor, tenho uma família honrada. Não admito.
SLENDER: Não admito… Não admito…
ROBERTO: Isto mesmo, primo. Preciso honrar meus antepassados. Foram dos primeiros a morar em Campo Largo.
SLENDER: Em Campo Largo… Em Campo Largo… Têm até brasão.
ROBERTO: Isto mesmo, primo. Há mais de trezentos anos.
SLENDER:  Trezentos anos… É o mesmo escudo que usavam os descendentes que nasceram antes e será usado pelos antepassados que ainda vão nascer.
PROFESSOR HUGO (com sotaque inglês): Ser muito bom ter um escudo no família. Melhor ainda quando són muitos escudos. Gostaria de fazer o reconciliamento para acabar com toda a ofensividade. Vocês devem fazer os pazes. Quanto a você, jovem Slender, tenho um sugestionamento. Conhece o menina Aninha?
SLENDER: A menina Aninha Page? Tem cabelos escuros e é bonita.
PROFESSOR: Penso que você deve pedí-la em namoro. Ela herdou do avô um fortuna e se juntar com o seu fortuna, vocês dois serón muito felizes. Vou chamar o Senhor Jorge Page e resolvemos tudo.
ROBERTO: Falstaff estará aí?
PROFESSOR: Claro! Eu não estar mentindo. Detesto quem diz o mentira e também detesto quem não diz o verdade (Palmas).
JORGE PAGE: Quem bate?
PROFESSOR: O Professor Hugo! E Roberto Shallow, que tem um brasón e o jovem Slender, que quer falar com o seu filha!
SLENDER: O Senhor é que vai falar… O Senhor é que vai falar…
JORGE (entrando): Bom dia.
PROFESSOR: Pretendo fazer os pazes entre Roberto e Falstaff. Ele está aí?
JORGE: Está lá dentro. Mas vejam, aí vem ele. (Entram Falstaff, Bardolfo, Pistola e Nym).
ROBERTO: Sr. João Falstaff! O Senhor me ofendeu.
FALSTAFF: Eu ofendi o Senhor?
ROBERTO: Vai ter que responder ao Concelho Municipal.
FALSTAFF: Ouça o meu conselho. Pronto, já respondi.
ROBERTO: Estes seus empregados! Levaram-me a um bar, me embebedaram e me roubaram.
FALSTAFF: Pistola, você roubou a carteira deste senhor?
PISTOLA: Claro que não. Juro pelos senadores que nunca mentem.

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CONTA OUTRA VÓ 04. O NARIZ DE SUA MÃE

o nariz de sua mãe

desenho de Ricardo Garanhani

(Nota: Ô historinha danada de terrorista! Minha vó a contava e recontava com a maior tranquilidade. Fazia parte do acervo de contos moralistas, com os quais os antigos educavam as crianças. Educação baseada no medo da porrada. Parece que nunca funcionou, a não ser para continuar uma triste herança de sadomasoquismo. Por outro lado, essa mãe, que não sabia o que fazer com o filho, é um  exemplo da educação da modernidade. Liberdade sem freio algum. Que situação difícil! Outra observação: nunca encontrei este conto triste em minhas tantas e tantas leituras.) 

    Era uma vez uma viúva pobre. Ela tinha só um filho e trabalhava dia e noite para sustentá-lo. Era muito boa e nunca zangou com o menino e tudo que ele queria, ela fazia.

    Ele foi crescendo muito manhoso. A mãe já não tinha autoridade e ele fazia tanta birra quando queria alguma coisa, que ela acabava satisfazendo as suas vontades.

    Passado algum tempo, ele já não tinha por ela a mínima consideração. Matava aula e ia pro mato caçar passarinho na arapuca. Ela pedia pra ele entregar a roupa lavada e ele deixava a roupa no caminho e ia nadar pelado no rio. De noite ela queria gravetos pra aumentar o fogo e esquentar a casa mas ele ficava até tarde conversando com os malandrinhos e a vela acabava e o querosene acabava e no escuro a mulher começava a chorar.

    Todas as vizinhas falavam com ela: É preciso dar um jeito nesse menino! O pepino se torce é de pequeno. Quem semeia ventos colhe tempestade, ele vai te dar trabalho!

    E quando a outra vizinha falava:

   Qual! Pau que nasce torto, morre torto!,

    aí, ela ficava aliviada e concordava.

    Nunca teve coragem para cortar a vara de marmelo, como todas faziam. Não tinha chicote. Não se curvou jamais para pegar o chinelo. Nunca levantou a mão pro filhinho.

    O filhinho arrumou uns amigos muito treteiros. Começaram a fazer artes. Se um velho passava um pito neles, eles riam e xingavam nomes feios. Se uma velha ralhava, eles jogavam pedras no galinheiro dela. Se o homem corria atrás deles, eles machucavam o boi no dia seguinte. Se era uma mulher que implicava, sujavam o tacho de doce no terreiro.

    Assim ele foi crescendo e a mãe apaixonada só sabia chorar. Chorava de dia e chorava de noite. Queria fazer alguma coisa e não conseguia.

    Foi que, um dia, a polícia bateu na porta dela. Ele não estava. O guarda disse que ele tinha ferido um velho na rua, com um canivete, e seria preso. As vizinhas acudiram, uma trouxe água com açúcar e de noite ela soube que o filho tinha saído da cidade.

    Aconteceu assim: o filho dela deu uma canivetada no velho e, de medo de ser assassino, fugiu pro mato. Passou fome e frio e começou a roubar dos roceiros. Achou que era muito fácil roubar, melhor do que trabalhar. Começou a ser ladrão. Cada vez mais audacioso. Com o tempo passando, ele era o mais conhecido e o mais temido. Matou gente também e agora era ladrão e assassino. Os guardas tinham medo dele porque ele tinha muita fama.

    E assim, ele semeou naquela região o terror e a morte. O rei mandou pegá-lo. Nunca conseguiram. Souberam muito tempo depois que chefiava um bando terrível. O rei colocou então sua cabeça a prêmio. Se o pegassem morto, seriam mil moedas de ouro. Se o pegassem vivo, seriam duas mil.

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