Desistória – capítulo 3.

Desistória – capítulo 3.

 

 

Toma o livro e devora-o.

 

            3. dias de insônia.

 

            quanto ódio cabe no coração humano?

            qual o tamanho do máximo medo suportável?

            de que poço sem fundo nasce a decisão do desafio?

            quero começar do começo.

            queria começar do começo. não sei onde é o princípio de minha história. não sei se tem princípio e menos ainda sei se é história. que seja história, já que qualquer história é história, mesmo a do projeto de homem não fecundado. nesse caso ficaria o projeto do sonho ou o projeto do desejo ou o projeto da esperança. e quantas vezes não é a história do desejo, da esperança ou do sonho, uma vazia história mais digna e perene que as histórias de tantos homens, com suas apenas urinas, fezes, babas e ejaculações? seja minha história história. história sem princípio e com final.

            como só tenho perguntas e não-sei no coração, decido por uma história já começada, sem ordem cronológica nem rigor lógico. esta que acabei de introduzir, falando de um grande ódio, um grande medo e a decisão do desafio.

            pensei a princípio evitar descrições e narrativas de um cotidiano que terminou por me trazer, através de uma insônia desoladora e controlada, a este ponto onde estou agora, o limiar do meu próprio fim. mas percebo que sem descrições e narrativas não me farei entendido. não sei se me pretendo entendido. não sei se consigo.

            sei, porém, que não quero ficar tecendo labirinto em cima de labirinto, como uma angustiada criatura de um livro antigo.

            então, resolvo pela mínima narrativa, apenas a indispensável para que se entenda aquilo que pretendo contar. e para isso, divido meu narrar em duas partes: que mundo é esse meu? e o que tenho a fazer dentro dele?

            já se passaram muitos e muitos anos desde que o grande cataclismo sobreveio. estudamos nos livros de história do homem que houve um desastre inesperado e que infelizmente naquele acidente muita gente tinha morrido e quase todo o patrimônio cultural da nossa espécie estava perdido ou prestes a desaparecer. mas os livros todos repetem que o principal objetivo da grande reconstrução tinha sido alcançado: em poucas dezenas de anos, todo o planeta voltava a viver sua vida antiga, cheia de conforto e sedução, um admirável mundo sob todos os sentidos. um grande governo, escolhido por representantes idôneos de cada continente, regia a ordem universal e dirigia as populações obedientes ao passo final. e dizem os livros que, com a participação individual, a nossa grande civilização se ultrapassará brevemente, mais breve do que sonha o ingênuo sonho do homem. e nós, leitores desses livros cheios de superlativos, escritos numa gramática impecável pelo grupo dos chamados sete sábios da terra, nós éramos compelidos a estudar todas as ciências para tentar, a cada nova vez, dar o passo heróico que separaria ainda mais fortemente nós homens daqueles que nos são inferiores na escala da vida.

            e eu fui escolhido, depois dos testes superiores na segunda escola, eu fui indicado para me dedicar de corpo e alma a um ousado projeto.

            contavam os mestres que tinham sido descobertos, voando em torno do planeta, em rotas determinadas e precisas, uns pequenos corpos feitos, possivelmente, pelo próprio homem, que emitiam sinais mínimos a algumas grandes máquinas. sabia-se que estas máquinas estavam ligadas aos telefones mas estes funcionavam independentemente delas, desde que um grupo, logo após a noite negra, tinha se dedicado inteiramente à sua ressurreição, o que foi conseguido após exaustíssimos estudos. e mais: lendo uma página não carbonizada de uma revista dos dias anteriores à noite da queda das estrelas, uma estranha página de revista com fotografias a cores, diferentes das nossas em branco e cinza e preto, lendo esta página, um grupo de pesquisadores descobriu que as grandes máquinas deveriam se prestar a comunicações a grandes distâncias, assim como se fosse possível nós do sul nos comunicarmos à mesma hora com os do norte.

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Malhistorio – ĉapitro 2.

Malhistorio – ĉapitro 2.

 

 

 

          Ĉi tiuj estas la venantoj el la granda afliktado, kaj ili lavis siajn robojn.

  

          2. la grava tagmezo.

  

          emociege estas percepti la grandecon kaj la persistadon kaj la luktokapablon de la homo. komforte estas senti la povon de rekonstruo kaj la gravan koncentron de fortoj, kiu efektiviĝis post la granda katastrofo.

          mi ne volas memori tiujn tagojn de doloro kaj sango. ĉiu postvivanto, escepte de la etuletoj, havas siajn rakontojn plenaj je ektimo. mi, knabino, savita de unu el tiuj grandaj kaj neklarigeblaj hazardoj, ĉar ĉirkaŭe ĉio estis teruro kaj surprizo. kaj same kiel mi, ĉi tie kaj tie, apartaj kreitaĵoj elvenantaj el truoj, velkintaj mirakletoj de ne atendita fortuno, kiuj proksimiĝis unu al la alia kaj kreis pli dignan miraklon­: malgranda pilgrima grupo, ĝis ĉiuj rimarkis ke la granda miraklo okazis, homoj plorante alvenantaj, kvazaŭ ratoj serĉe al manĝaĵo, de trankvila dormado, intermiksiĝante kaj sin demandante pri tio, kion fari kaj kiel komenci.

          mi ne volas memori tiujn unuajn tagojn. estas aferoj ne rakontendaj. estas hontaĵoj ne transdonendaj. estas torturoj ne restarigendaj. estas sordidaĵo, kiun oni ŝnurfiksas al la ŝtono de silento kaj forĵetas en la akvojn de forgeso.

          kaj tiuj novaj tagoj petas esperon. do, mi ne volas memori mallumadon sed nur prikanti kaj laŭdi tiun grandan sunon hodiaŭ naskiĝantan, tiun grandiozan momenton de nia tagmezo.

          postvivanta pro granda miraklo, ĉar la kolektiva morto min malakceptis, mi min vidis meze de kelkaj homoj, kiuj protektis unu la alian, hodiaŭ mi komprenas ke pli por sin kompensi kontraŭ suferoj ol por nura disdividado de la malfacile trovebla pano. kaj jen ni levas tabulojn kaj rompas ŝtonojn kaj ordigas ruinojn kaj starigas malgrandajn hejmojn. estas malfacilaj tagoj, diradis la adoltoj, kaj multege da ordo estas bezonata. homoj alvenis el malproksimaĵoj kaj parolis pri rekonkeroj, oni ja sukcesis funkciigi fabrikon de ŝtofoj, hospitalo estis rekonstruita. kaj ofte ni devis forlasi domaĉon kaj iri al malproksima urbo kun iliaj pli bonaj stratoj kaj novaj dometoj, plenaj je aŭstera ĝojo.

          homoj venis el sudo, klarigis la adoltoj, kun siaj planoj pri disciplino kaj laboro kaj siaj promesoj pri neforgeseblaj venkoj. kaj mi kreskadis kaj sentis la lantan konkeron de la homo kontraŭ la detruado. venis do la tempo, kiam oni ne sukcesis trovi malsimilon inter la hodiaŭa tago kaj tiuj tagoj de antaŭlonge, kiam la mondo tiel evoluis, ke la homoj posedis ĉiujn dezirataĵojn. sed en ĉi momentoj la plej maljunaj avertis:

          neniam plu la mondo estos la sama. neripareblaj perdoj okazis. ni malrapide alvenas al la malnova stato sed neripareblaj perdoj okazis. ni ne havas kaj eble neniam plu havos komputilojn. kelkaj funkciis en lokoj ne trafitaj de bomboj sed oni trovis neniun por deĉifri ilin. oni rakontas ke maljunulo tion kapablis kaj li komencis instrui pri la funkciado al grupo de homoj. sed tiuj absolute nenion sciis, eĉ pri malgravaĵoj, kaj la maljunulo rezignis kaj decidis skribi siajn instruojn, por ke oni lernu en la libroj. subite li mortis kaj ĝis nun neniu kapablis anstataŭigi lin por deĉifri la misteron de tiuj silentaj aparatoj.

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Desistória – capítulo 2.

Desistória – capítulo 2.

 

 

 

            Estes são aqueles que vieram da grande tribulação e lavaram seus vestidos.

 

            2. o grande meio-dia.

 

            é impressionante perceber a grandeza e a perseverança e a capacidade de luta do homem. é reconfortante sentir o poder de reconstrução e a grande concentração de forças que foi levada a efeito, a partir do grande desastre.

            não quero me lembrar daqueles dias de dor e de sangue. todos os que estão vivos, a não ser os mais pequeninos, têm também suas histórias cheias de espanto. eu, menina, salva por um desses monstruosos acasos inexplicáveis, quando tudo ao redor era horror e susto. e como eu, ali e acolá, criaturas avulsas saídas dos buracos, milagrezinhos mirrados de uma fortuna não programada, que se juntavam aos bocados, conjugando um milagre mais digno, de um pequeno grupo peregrino, até se perceber que o grande milagre acontecera, as pessoas se chegando em prantos, como ratos à busca de comida, de sono tranqüilo, e se juntando e se perguntando o que fazer e por onde começar.                      

            não quero me lembrar daqueles primeiros dias. há coisa que não se conta. há vergonha que não se passa adiante. há tortura que não se deve ressuscitar. há sordidez que se amarra à pedra do silêncio e se atira à água do esquecimento.

            e estes novos dias pedem esperanças. então, não quero me lembrar de escuridões, mas tão somente cantar e louvar este grande sol que se levantou hoje, este momento grandioso desse meio do dia.

            sobrevivente por um grande milagre, já que a morte coletiva me tinha rejeitado, me vi no meio de um grupo de pessoas que se amparavam, hoje compreendo que muito mais para compensar sofrimentos do que para partilhar o pão difícil. e nos víamos levantando tábuas e quebrando pedras e desfazendo ruínas e formando pequenos lares. são dias difíceis, diziam as pessoas grandes, e é preciso muita ordem. pessoas chegavam de longe, falando de reconquistas, contando que tinham conseguido fazer funcionar uma fábrica de tecidos ou que um hospital fora reconstruído. e muitas vezes éramos levados a abandonar um lar arruinado e mudávamos para uma cidade distante, com ruas melhores, com casinhas novas e cheias de uma austera alegria.

            homens chegaram do sul, explicavam os adultos, com seus planos de disciplina e trabalho e suas promessas de inesquecíveis vitórias. e eu crescia e sentia a conquista lenta do homem sobre a destruição. veio então o tempo em que não se conseguia diferençar o dia de hoje daqueles dias de antigamente, quando o mundo era tão evoluído e as pessoas tinham de tudo que queriam. mas os mais velhos, então, advertiam:

            o mundo nunca mais será o mesmo. houve perdas irreparáveis. estamos conquistando lentamente a antiga situação, mas houve perdas irreparáveis. não temos e talvez não tenhamos mais computadores. alguns funcionavam em locais não atingidos, mas não houve quem os decifrasse. contam que um velho os conhecia e começou a ensinar do seu funcionamento a um grupo de pessoas, mas eram tantos os pequenos conhecimentos que eles ignoravam, que ele desistiu de ensinar-lhes e começou a escrever suas lições, para que muitos pudessem aprender pelos livros. este homem morreu subitamente e não se encontrou até hoje alguém que o substituísse para decifrar o mistério daquelas máquinas silenciosas.

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