Desistória – capítulo 0,

Desistória – capítulo 0.

 

 

todo homem tem direito a duas almas.

o livro é a segunda alma do homem.

 

 

 

            epílogo: a noite negra.

 

            Assim seja.

            O que dá testemunho destas coisas diz: sim, venho depressa.

            os homens carneiros saltavam do trem quando viram o grande clarão do lado de fora. berros aflitos e os homens carneiros viraram ovelhas e como ovelhas chifravam e se empurravam em busca de uma saída. bebês ovelhas foram pisoteados, as mãozinhas trituradas a princípio, depois os corpos amassados e já as barrigas arrebentadas e as patas dos que corriam por cima ficaram sujas de sangue quente e vermelho.

            E se alguém tirar qualquer coisa das palavras da profecia deste livro, Deus lhe tirará a sua parte no livro da vida, e da cidade santa, e das coisas que estão escritas neste livro.

            a professora rata ensinava aos ratinhos de uniforme as grandes palavras que seguram o coração dentro do vidro fosco e a vida dentro do muro estreito. a professora rata condicionava seus alunos a aprender das coisas que mantém de pé um homem morto, como se fosse possível estar morto e vivo ao mesmo tempo, obediente zumbi do sistema. e com o menino ratinho que se mexia mais do que o permitido, a professora rata ralhava, dizendo que, sem atenção, ele não seria jamais nunca um grande homem. foi então que ouviram a explosão e se olharam apavorados e cheios de medo e de seus olhos como que escapassem chamas de um grande terror e se encolheram e não lhes foi permitido um chiadinho último, que os tetos tombaram e eles, esmagados aos montes, viraram uma pasta de açougue, molhada e de cheiro forte.

            Porque eu protesto a todos os que ouvem as palavras da profecia deste livro, que, se alguém lhes juntar alguma coisa, Deus o castigará com as pragas escritas neste livro.

            e nos grandes bancos os homens furões e as mulheres raposas e os velhos lobos entretinham-se aos rodopios com suas astúcias que lhes faziam brilhar mais violentos os olhos; e se cheiravam e se espiavam e se mediam forças, fazendo assim exalar muito mais forte o fedor de seus corpos pelancudos e de seus pelos cheios de suor executivo. então, deu-se que sobreveio um grande estrondo e as vidraças se estilhaçaram em tantos cacos e todos se viram tentando adivinhar quem lhes ameaçava as pastas cheias de dinheiro alheio. mas não tiveram tempo de saber da grande bomba, porque o chão se abriu e engoliu como uma boca de inferno os seus rabos e seus dentes e suas unhas e suas maldades. desfizeram-se aos pedaços.

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Alma desdobrada, cap 284, 285, 286, 287, 288, 289 e 290. (final)

Alma desdobrada, capítulos 284, 285, 286, 287, 288, 289 e 290. (final)

 

284.

          quando comecei a escrever alma desdobrada, veio-me a ideia de escrever o que chamaria de os dez dias que não me abalaram em nada, anotações minuciosas sobre os próximos dez dias de minha vida. e isto foi feito. resolvi incluir aqui alguns trechos, em ordem cronológica. abandonei o resto.

          lembrei-me então de escritos avulsos.

          estes escritos seriam: poemas antigos, cartas a Y…, cartas a Z…, a história do sensato, a novelinha em que sou sequestrado por visitantes de outro planeta, algo que se chamaria eu e tu, quem matou garcia lorca?, e uma parábola.

          resolvi queimar tudo. sobraram três poemas e a história do duende.

 

285.

          dentro do caos, todas as ordens são ordens.

          tenho direito ao caos porque já me organizei. esse prisma não admite ponto de vista. as associações de assunto são libérrimas.

          por minha liberdade, ainda uma vez.

          eu me perdoo todas as repetições deste livro. eu me perdoo tudo neste livro. eu me perdoo este livro.

 

286.

          meu pai, me dê a mão, agora. quero você do meu lado, porque sinto chegar a hora de deixar a terra deste livro.

 

287.

          você, mãe, deste outro lado.

 

288.

          e agora, de mãos dadas com dois fantasmas sagrados, eis-me no limiar de alma desdobrada. não falei tudo. arranquei espinhos e teci guirlandas de rosas.

          abri minha alma diante de mim mesmo, como um deus que se desdobra.

          contemplei escondidas vergonhas e dores acobertadas e pequeninas glórias quase esquecidas.

          convivi com meus fantasmas. não me livrei deles; para isso, seria preciso ser de outra estirpe de deuses, que não aquela a que pertenço. mas, se deles não me livrei, tornei-os, com esse convívio, amigáveis e inofensivos.

          fantasmas saudosos são aqueles que eram assustadores demônios.

 

289.

          eu me dobro novamente, para voltar à convivência com as outras gentes.

          têm eles sempre coisas a aprender e a ensinar.

          e nada mais.

 

290.

          eis, então, o momento em que estas coisas se calam dentro de mim.

 

curitiba, 10.11.1982.

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Alma desdobrada, cap. 275, 276, 277, 278, 279, 280, 281, 282 e 283.

Alma desdobrada, capítulos 275, 276, 277, 278, 279, 280, 281, 282 e 283.

275.

          não expliquei ainda o que é, para mim, a penúltima loucura.

          a penúltima loucura é a loucura que permite ainda um retorno. se não mais se conseguir sair da loucura, eis a última loucura.

          é pensar num livro e escrevê-lo. é sonhar uma casa e fazê-la. é fazer aquilo a que os homens chamam loucura, e, uma vez conseguido, verificar que nada se alterou na minha vida, a não ser a plenitude de uma nova conquista.

          é ser zaratustra, sem acabar nietzsche.

          é ser hamlet, sem delirar.

          é ser ivan karamázof, sem ver o diabo.

          é ser quixote, sem confundir moinhos com gigantes.

 

276.

          quieto, jeremias. calma! não é ainda a hora de chorar. você não é louco, apenas um impotente, senhor de sua dor.

 

277.

          perco o sono e começo a delirar.

          estas palavras foram escritas no meu texto chamado os dez dias que não me abalaram em nada.

          e eu resolvo ressuscitá-las. copio tudo e incluo na sequência disto que se parece com um livro. sobre isto, se livro ou não, não tenho certeza.

          perco o sono e começo a delirar. fiz, durante o dia, um convite para sair com um estranho jovem que encontrei no terminal do ônibus. estranho porque pálido, olhar perdido, palavras tropeçantes. ele se disse doente e não quis me acompanhar.

          e, no meu delírio, eu imagino o que poderia ter acontecido, se ele não tivesse recusado o convite. ele entraria no carro e eu tentaria uma conversa toda cheia de perguntas. tocá-lo-ia nas coxas, muito discretamente. dependendo da reação, os toques seriam mais invasivos. e eu perguntaria quer ir na minha casa, e diria que depois o levaria de volta, e que nada seria feito, caso ele não se sentisse à vontade. estas pequenas mentiras que organizam encontros e delimitam destinos.

          e terminado o momento do prazer eu me organizaria para tranquilizá-lo e devolvê-lo ao mundo. mas o sono é meio hipnótico e eu não domino mais o seu caminho. e, apavorado, vem subitamente a imagem de que ele poderia morrer durante os espasmos do orgasmo.

          o que faço? levo o corpo e o despejo num canto de rua… chamo a polícia, toda verdade deve ser revelada… faço um buraco no jardim e o enterro…

          um tipo de terror domina meu sono que não é mais sono. percebo que estou tendo um pesadelo, não consigo mover o corpo e sei que estou todo suado. e surge o empregado perguntando que terra é esta que está toda mexida?… e um dos cães me aparece com um grande osso na boca… e o jovem nu, sujo de terra, sai do chão e fica repetindo eu não morri…

          acordo apavorado. que bom que ele não veio comigo. não, não foi um pesadelo. apenas deixei que a imaginação seguisse o seu rumo desvairado.

          aos poucos meu coração se aquieta e um torpor começa a me carregar para dentro de um sono normal. mas minha mente desenha ainda uma frase, que não é completada…

          aprenda eu isto, para o dia de que nunca precisarei: a cova teria que ser bem funda, bem funda teria que ser a cova…

 

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