Alma desdobrada, capítulos 178, 179 e 180.
178.
descubro aos quarenta anos o que é ficar embriagado. meu pai bebia, a imagem do que vem a ser embriaguez transparecia sinistra e ameaçadora no meu entender medroso. para facilitar a sensação de vitória, percebo que todas as bebidas têm um sabor desagradável. levam em si um pouco de inferno, no exato momento em que atravessam os umbrais da garganta. então, sou virtuoso enquanto não bebo. não sigo o caminho do erro, com minha abstemia. consigo.
só o vinho me perturba.
o vinho me entontece, as cores saltam das coisas todas e ele é doce como as lendas das mitologias. o vinho me joga para trás, para as velhas eras cheias de magia, insegurança e pasmo. o vinho lembra guirlandas de flores perfumadas, cabelos convulsionados por carinhos zonzos, bocas com cheiro e gosto de uva. olhos que pretendem ainda ver o brilho do mundo, mas se fecham pesados como cobertores hibernais. sexos aconchegantes, não enraivecidos e inteiros e armados para mais um orgasmo; mas intumescidos o suficiente, para mostrar-se vivos; e aquietados o bastante, para serem beijados em sua semi-sonolência.
o vinho me convida a atravessar o larguíssimo estreito que leva ao grande mar.
antes, eu tinha medo do grande mar. sempre parei antes do próximo copo. sempre acreditei que tivesse vencido.
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