Alma desdobrada, capítulos 158, 159, 160, 161 e 162.
158.
os primeiros meses do ginásio foram o período mais atormentado da minha vida. hoje, percebo as diferenças que machucavam, desvendo suas causas, descubro suas justificativas e vislumbro suas necessidades: aqueles inseguros adolescentes, dependentes de uma auto-afirmação como machos, carentes de uma confirmação de suas supostas normalidades, temerosos da possibilidade de virem a ser mais mal amados do que mal amados já eram, aqueles infelizes descobriram onde se firmar, para não morrer afogados nas suas vidinhas de merda. alguém que podia ser criticado, ridicularizado, gozado, pisoteado, para presentear-lhes a eles com a coroa das mil redenções. esse alguém era eu. e o momento era o da chamada, porque, ao responder, eu falava – presente – baixinho. tenho certeza de que não falava com afetação nem de modo feminino. só falava baixinho. para eles, todavia, esse era um ponto fraco, inda que não fraco. esperavam atentos o momento e, deflagrada a discreta explosão, um murmúrio quente pairava um momento sob suas cabeças de meninos perdidos.
159.
Z… à minha espera na porta do teatro. conversamos. tranquilamente. nenhum terremoto ameaça meu peito. nenhuma águia vem cantar que arrancará pedaços de minha carne com seu bico afiado. sem terremotos nem águias, eu pairo diante de você, menino, estranhamente, a ouvir e a falar. os passantes se chegam, entram, cumprimentam rapidamente, percebem que estamos juntos ainda uma vez. não me preocupa o que poderiam pensar os passantes. mas penso que me envaidece ser visto com você. por algumas pessoas, principalmente. mas, claríssimo, não por vaidade te quero comigo, e sim, porque te quero comigo.
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