Alma desdobrada, capítulos 140, 141, 142, 143, 144. 145. 146. 147 e 148.
140.
namorei B… às escondidas. era uma situação que me agradava porque, sendo ela casada e vizinha, não podíamos alimentar a relação com o tempo integral. eu não estava apaixonado. eu não estava nada apaixonado. na realidade, pesquisava-me. pretendia saber até onde chegaria. um dia, entre abraços e beijos, senti uma ereção. as coisas se encaminhavam como eu queria.
fazia experimentos comigo mesmo.
141.
matei aula e fui no cinema santa alice assistir um filme: os doze trabalhos de hércules. tinha dezesseis anos e estava no quarto ano ginasial. os argonautas prepararam o barco, os remadores iniciaram seu ritmo compassado, orfeu, o cantor, entoa um hino à deusa anfitrite e o barco principia seu flutuar em direção a incríveis aventuras. termina o filme, eu estou profundamente tocado. algo se mexe e se convulsiona dentro de mim. aqueles deuses todos me perseguem. tomo o bonde, começo a pensar no deus que diziam ser o verdadeiro. alguma coisa muito clara soa assim na minha cabeça:
o homem de hoje não pode ser o único certo, contrariando todas as outras crenças. ou todos os deuses existem ou não existe nenhum deus.
apavoro-me, sinto calafrios, meu respirar fica profundo e percebo que meus pés e mãos começam a formigar. estou muito assustado porque é uma situação nova na minha vida. tenho a impressão de que estou morrendo ou sendo possuído por um espírito. o formigar aumenta, a circulação está aceleradíssima e toda a energia do meu corpo parece querer concentrar-se no meu estômago ou próximo dele.
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