Monteiro Lobato

PETER PAN

 Capítulo 2

  

2 – A Terra do Nunca

             No outro dia, antes de Dona Benta continuar a história de Peter Pan, tia Nastácia apareceu com a sua sombra diminuída de mais um pedaço no ombro.

            — Parece que é um rato que anda roendo a minha sombra — disse ela colocando-se entre o lampião de cima da mesa e a parede branquinha. — Veja, Sinhá — acrescentou apontando para a sombra projetada na parede. — Está faltando mais um pedaço, bem no ombro. Neste andar eu acabo sem sombra nenhuma. Isto é uma desgraça.

            — Não acho — disse Narizinho. — Tanto faz você ter sombra como não ter. De que vale sombra?

            — Parece, menina, parece que não vale nada — respondeu a negra. — Mas o mundo é malvado, e se sabem que eu não tenho sombra são capazes até de me queimarem viva, como fizeram com a coitadinha da Joana do Arco.

            — Joana d’Arc.

            ‘— Ou isso. O mundo dá cabo de toda gente que não é igual a todos os outros. Dona Joana tinha olhos melhores que os do resto das gentes e por isso via mais coisas, tinha visões. Eles foram é queimaram a coitada. Se me enxergarem sem. sombra são capazes de dizer que sou feiticeira. O mundo é mau, menina. Credo… Continue lendo “Monteiro Lobato”

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Monteiro Lobato

PETER PAN

 A HISTÓRIA DO MENINO QUE NÃO QUERIA CRESCER, CONTADA POR DONA BENTA

 Capítulo 1

  

1 – Peter Pan

            Quem já leu as Reinações de Narizinho deve estar lembrado daquela noite de circo, no Pica-pau Amarelo, em que o palhaço havia desaparecido misteriosamente. Com certeza fora raptado. Mas raptado por quem? Todos ficaram na dúvida, sem saber o que pensar do estranho acontecimento. Todos, menos o gato Félix. Esse figurão afirmava que o autor do rapto só poderia ter sido uma criatura — Peter Pan.

            — Foi ele! — dizia o gato Félix. — Juro como foi Peter Pan.

            Mas quem era Peter Pan? Ninguém sabia, nem a própria Dona Benta, a velha mais sabida de quantas há. Quando Emília a ouviu declarar que não sabia, botou as mãos na cinturinha e:

            — Pois se não sabe trate de saber. Não podemos ficar assim na ignorância. Onde já se viu uma velha de óculos de ouro ignorar o que um gato sabe?

            Dona Benta calou-se, achando que era mesmo uma            vergonha que o gato Félix soubesse quem era Peter Pan e ela não — e escreveu a uma livraria de S. Paulo pedindo que lhe mandasse a história do tal Peter Pan. Dias depois recebeu um lindo livro em inglês, cheio de gravuras coloridas, do grande escritor inglês J. M. Barrie. O título dessa obra era Peter Pan and Wendy.

            Dona Benta leu o livro inteirinho e depois disse: Continue lendo “Monteiro Lobato”

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Monteiro Lobato

O MINOTAURO

Capítulos 23 e 24 (último)

 

23 – A Panatenéia

         A primeira coisa que Pedrinho fez ao chegar ao “Beija-flor das ondas”, foi correr à despensa em procura duma lata de sardinha. Queria variar. Andava enjoado de azeitonas e figos, de tanto que os comeu durante a “penetração” nos fundões da Hélade. E enquanto abria a lata, foi fazendo perguntas a Rabicó.

         – Como vão as duas, vovó e Narizinho? Estão ainda na casa de Péricles?

         – Sim. E já vieram cá em companhia duma senhora muito bonita e mais três homens. Dona Benta mostrou-lhes o navio inteiro, até a cozinha, onde houve um grande movimento de pipocas e batatas fritas.

         – E vovó não disse nada? Não me deixou nenhum recado?

         – Não. Esteve de prosa com aqueles gregos e a lidar com agulhas, carretéis, a máquina de coser e a bússola.

         Pedrinho fez um sanduíche de sardinha e foi comê-lo no tombadilho, com os olhos no mar. Estranhou a calma do porto.

         – Que fim levaria a gente do Pireu? Tudo deserto… Continue lendo “Monteiro Lobato”

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