Dom Quixote das Crianças
Capítulos 15 e 16
15 – Conquista do elmo de Mambrino, o mais famoso do mundo
Estava Dona Benta nesse ponto da história, quando Narizinho se lembrou de perguntar por que razão nos livros velhos se fala tanto em barbeiros.
– Estou com esta pergunta a lhe fazer há muito tempo, vovó. Parece que antigamente os barbeiros eram muito mais importantes do que hoje. Por que isso?
– É, minha filha, que antigamente os barbeiros também funcionavam como médicos. O grande remédio da humanidade, durante muito tempo, foi a sangria – e os barbeiros, além de barbearem os fregueses, também os sangravam quando adoeciam.
– E por que foi esse remédio abandonado? – quis saber Pedrinho.
– Simplesmente porque não curava. A ignorância dos nossos antepassados era maior que a nossa de hoje. Em matéria já de medicina, então, eles praticavam verdadeiros absurdos, como esse de tirar o sangue dos pobres enfermos, como se no sangue estivesse o mal.
– E isso durou muito tempo?
– Durou, meu filho. Tudo que é errado dura muito. A humanidade é bem isso que a Emília vive dizendo. A história da humanidade não passa de história de horrores, estupidez e erros monstruosos. Hoje, por exemplo, olhamos com grande superioridade para os antigos, com dó deles, certos de que nossas ideias são certas e hão de durar sempre. Mas nossos bisnetos rir-se-ão das nossas ideias como nós nos rimos das ideias de nossos bisavós, e os bisnetos dos nossos bisnetos rir-se-ão das ideias dos nossos bisnetos – e assim até o infinito. Continue lendo “Monteiro Lobato”
