Monteiro Lobato

Dom Quixote das Crianças

Capítulos 15 e 16

 

15 – Conquista do elmo de Mambrino, o mais famoso do mundo

Estava Dona Benta nesse ponto da história, quando Narizinho se lembrou de perguntar por que razão nos livros velhos se fala tanto em barbeiros.

– Estou com esta pergunta a lhe fazer há muito tempo, vovó. Parece que antigamente os barbeiros eram muito mais importantes do que hoje. Por que isso?

– É, minha filha, que antigamente os barbeiros também funcionavam como médicos. O grande remédio da humanidade, durante muito tempo, foi a sangria – e os barbeiros, além de barbearem os fregueses, também os sangravam quando adoeciam.

– E por que foi esse remédio abandonado? – quis saber Pedrinho.

– Simplesmente porque não curava. A ignorância dos nossos antepassados era maior que a nossa de hoje. Em matéria já de medicina, então, eles praticavam verdadeiros absurdos, como esse de tirar o sangue dos pobres enfermos, como se no sangue estivesse o mal.

– E isso durou muito tempo?

– Durou, meu filho. Tudo que é errado dura muito. A humanidade é bem isso que a Emília vive dizendo. A história da humanidade não passa de história de horrores, estupidez e erros monstruosos. Hoje, por exemplo, olhamos com grande superioridade para os antigos, com dó deles, certos de que nossas ideias são certas e hão de durar sempre. Mas nossos bisnetos rir-se-ão das nossas ideias como nós nos rimos das ideias de nossos bisavós, e os bisnetos dos nossos bisnetos rir-se-ão das ideias dos nossos bisnetos – e assim até o infinito. Continue lendo “Monteiro Lobato”

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Monteiro Lobato

Dom Quixote das Crianças

Capítulos 13 e 14

 

13 – Combate com os carneiros

– Pobre Sancho! – exclamou Narizinho. – É possível que ainda pegue a ilha que Dom Quixote lhe prometeu – mas eu não queria uma ilha, nem que fosse a de Madagascar, por esse preço.

– Pois eu queria – contrariou a boneca.

– Está claro. Criaturas de pano, sem costelas, podem ser petecadas a vida inteira que não dói, nem quebra nada. Mas o pobre Sancho, apesar de gordinho, já devia andar com as costelas em pandarecos. Que adianta uma ilha para um homem descostelado?

O Visconde interveio corri a sua ciência.

– Isso de quebrar costelas não tem muita importância – disse ele. – Elas soldam-se. Muito mais perigoso é quebrar o crânio.

– Por quê? Crânio também solda. Todo osso solda – objetou Pedrinho.

– Sim, mas quando o crânio se quebra quase sempre a quebradura do osso espeta os miolos e o paciente fica de cérebro transtornado. Não se pode mexer no cérebro humano. Aquilo tem um tal arranjo, que qualquer desarranjinho provoca doenças horríveis –

loucuras, perda de memória, mil coisas. A maior maravilha que existe é o cérebro.

– É verdade – concordou Emília. – Tudo quanto há na Terra, feito pelos homens, sai dessa maravilha – as guerras, os crimes, as maluquices…

– Isso também não, Emília – disse Pedrinho. – Sai o mau e também o bom. Saem as invenções, saem as obras de arte, os livros como este… Continue lendo “Monteiro Lobato”

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Dom Quixote das Crianças

Capítulos 11 e 12

 

11- Grande combate com arrieiros. Pancadaria em Dom Quíxote e Sancho

– No dia seguinte, bem madrugada, Dom Quixote e Sancho despediram-se dos bons cabreiros e puseram-se a caminho. Depois de atravessada uma extensa floresta, saíram num campo, através do qual corria um riacho de águas límpidas. Tão formoso lhes pareceu o sítio que apearam e soltaram as cavalgaduras para que pastassem livremente.

Amo e escudeiro sentaram-se na relva macia e abriram os alforjes, porque a ceia da véspera já estava digerida. Comeram com bom apetite. Confiado no bom gênio de Rocinante, Sancho deixou-o completamente solto – e disso veio desastre, porque, aparecendo um bando de animais, o cavalo correu a brincar com eles. Esses cavalos, porém, estavam com fome; queriam capim e não pândega; de modo que receberam o feixe de ossos a coices e mordidas, escangalhando-lhe os arreios. Os donos dos animais, vendo aquilo, correram de pau em cima do intruso. Ora, além de coices, receber pauladas era muito para Rocinante. O pobre cavalo caiu por terra, derreado.

Diante de tamanha ofensa, Dom Quixote empunhou a espada e investiu contra os arrieiros, seguido de Sancho de cacete em punho.

Travou-se renhidíssima peleja, onde houve espadeiradas e pauladas a valer. Por fim, vencidos pelo número, Sancho afocinhou e Dom Quixote foi estatelar-se junto ao escangalhado Rocinante. Os arrieiros, certos de que tinham dado cabo dos três, montaram precipitadamente em seus cavalos e fugiram.

Quem primeiro voltou a si foi Sancho. Abriu os olhos. Soltou um gemido profundo.

– Senhor Dom Quixote! Ah, Senhor Dom Quixote!…

– Que queres de mim, amigo? – respondeu com voz débil o fidalgo.

– Se me pudesse dar umas gotas do tal bálsamo de Ferrabrás. Há de ser tão bom para amassamento a pau como para ferimentos de espada. Continue lendo “Monteiro Lobato”

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