Monteiro Lobato

Dom Quixote das Crianças

Capítulos 07 e 08

 

07 – Novas aventuras pela estrada. Os frades

– Por isso é que ele era tão gordinho – observou a menina.  –Esse Sancho, aqui nos desenhos, parece um chouriço. O que quer é comer, comer, comer. Só não entendo uma coisa. Dom Quixote tinha a bola virada; era pois natural que visse fantasmas e gigantes de todos os lados. Mas Sancho? Como é que não tendo a bola virada seguia o cavaleiro por toda parte?

– Sancho – respondeu Dona Benta – era uma criatura de bom senso, sem nada de louco, mas um tanto simplório e espertalhão.

Seguia Dom Quixote por interesse. Primeiro, a ilha; depois, coisinhas que pudesse ir pegando pelo caminho. As aventuras tinham de lhe render alguma coisa, disso estava ele certo.

– Sova, rendia! – observou a boneca. – Estou vendo que esse Dom Quixote é o que Tia Nastácia chama armazém de pancadas. As suas aventuras ainda estão no começo e quantas tundas já não recebeu?

– Lá isso é verdade – concordou Dona Benta. – Se vocês lerem a história inteira de Dom Quixote, irão repassar um rosário de sovas que não acaba mais – não só que ele dava nos outros, como as que apanhava. E se Sancho ia pilhando coisas aqui e ali, também levava suas doses de pau muito bem malhado.

– Mas não havia de doer – disse Emília. – Ele era acolchoadinho de banhas. Eu não tenho dó de gente gorda que apanha. De gente magra, sim. Os gordos hão de ser como bonecos de borracha. Não há meio de quebrar lá dentro osso nenhum. As banhas acolchoam os ossos. Continue lendo “Monteiro Lobato”

Visitas: 7

Monteiro Lobato

Dom Quixote das Crianças

Capítulos 05 e 06

 

05 – Dom Quixote volta para casa. A queima dos livros

Sem responder à pergunta, Dona Benta continuou:

– Quando o pobre cavaleiro andante se viu só, com o grupo já bem longe, soltou um profundo gemido. Quis levantar-se. Impossível. Estava completamente derreado. Deixou-se então ficar onde estava, a recordar vários lances da cavalaria andante, em que o herói servira em condições ainda piores que a sua. Vieram-lhe à lembrança uns versos duma das histórias lidas.

Onde estás, senhora minha,

Que não te dói o meu mal?

Ou não o sabes, senhora,

Ou és falsa e desleal!

Nesse ponto apareceu gente. Apareceu um homem lá da aldeia dele, que andava em compras de trigo. Vendo o cavaleiro caído, correu a socorrê-lo. Tirou-lhe a viseira e exclamou:

– Que é isto? O Senhor Dom Quixote por aqui, neste estado?

Fale! Que foi que lhe sucedeu?

Mas não obteve resposta. O herói da Mancha perdera a fala.

Vendo a gravidade do seu estado, o homem o tomou nos ombros e o arrumou dobrado em dois sobre o burrinho em que viera. Depois recolheu as armas por ali espalhadas, o escudo, o espadão, os pedaços da lança, pendurando tudo sobre a sela do Rocinante – e lá se foi para a aldeia com aquele carregamento de cacos. Continue lendo “Monteiro Lobato”

Monteiro Lobato

Dom Quixote das Crianças

Capítulos 03 e 04

 

03 – Primeiras aventuras

– Dom Quixote já não estava armado? – observou Emília.

– Ser “armado cavaleiro” é coisa diferente de um cavaleiro armar-se com armaduras e armas. Ser armado cavaleiro é receber o grau de cavaleiro andante, dado por outro cavaleiro. E nisso ia pensando Dom Quixote pelo caminho. Era-lhe absolutamente indispensável encontrar um cavaleiro que o armasse cavaleiro. Mas onde esse cavaleiro padrinho? Dom Quixote olhava dum lado e de outro e só via o deserto. Nem sombra de cavaleiro.

Súbito, distingue ao longe um desses pobres albergues de beira de estrada muito comuns na Espanha; mas para sua imaginação sempre em fogo aquilo se afigurou imponentíssimo castelo com torres, ameias, ponte levadiça e o mais dos castelos famosos.

Ótimo. Lá dentro encontraria o cavaleiro em condições de o armar cavaleiro. O costume no tempo dos castelos era, quando algum visitante se aproximava das suas muralhas, ser avistado por algum anão do alto das torres, o qual anão tocava uma corneta, dando aviso ao senhor de que havia gente fora. Dom Quixote deteve-se a certa distância, à espera de que soasse o toque de “cavaleiro andante à vista”.

Não soou coisa nenhuma, e como Rocinante, com uma fome danada, estivesse impaciente por entrar na estrebaria, Dom Quixote aproximou-se do albergue.

Na porta estavam duas mulheres do povo – mulheres vagabundas, dessas que hoje chamam “mulheres de porta de venda”.

Para a sua imaginação, entretanto, pareceram formosíssimas castelãs que ali respiravam a brisa do campo. E para elas se dirigiu. Nisto ecoou no pasto atrás da casa uma buzina: tratadores de cabras que faziam soar o toque de recolher. “Ótimo!”, pensou consigo o fidalgo. “O anão da torre está dando ao senhor do castelo o aviso da minha chegada” – e aproximou-se das vagabundas, as quais, com medo daquela criatura tão esquisita, toda enlatada e armada, fizeram menção de fugir para dentro. Dom Quixote as sossegou com um gesto, e erguendo a viseira descobriu o rosto magro, coberto de pó. Continue lendo “Monteiro Lobato”

Visitas: 77