Monteiro Lobato

Histórias de Tia Nastácia

Capítulos 30, 31, 32, 33 e 34

 

30 – O pinto sura

Era uma vez um pinto diferente de todos os mais pintos do galinheiro. Que culpa tinha ele disso? Nenhuma. No entanto, todos judiavam dele — vejam só! — porque era sura…

O pobrezinho nem comer em paz podia. Na hora do milho, era zás! uma bicada daqui, zás! uma bicada dali, enquanto os outros, sossegadamente, enchiam o papo até estufar.

E se apanhava algum bichinho, grilo ou içá, era aquela certeza: a galinhada inteira punha-se a correr atrás dele até tomar o petisco.

Por causa disso o pinto sura vivia sempre com fome, encolhidinho pelos cantos, magro e mandigüera…

Certo dia perdeu a paciência. Um frangote carijó, que andava de namoro com umas frangas amarelas, deu-lhe, à vista dessas meninas de penas, uma tal sova de bicadas que o deixou descadeirado. As frangas entusiasmaram-se com a valentia do carijó, riram-se à grande do triste sovado que nem suster-se em pé podia. E chegaram, mesmo, a compor um versinho:

Foi saracura,

ó pinto sura!

Quem te pregou

tamanha surra?

O pinto, desesperado, resolveu queixar-se ao rei.

— Levo-lhe uma carta — pensou lá consigo — e o rei há de atender-me. Depois, quero ver!…

Procurou pelo chão uma carta.

Bobinho como era, qualquer papelzinho para ele era carta.

Achou logo um pedacinho de papel quadrado e, tomando-o no bico, partiu em direção ao palácio do rei. Levava ainda um embornal cheio de milho para ir manducando pelo caminho.

Andou, andou, andou, até que deu com uma raposa sentada à beira do caminho com um cacho de uvas na mão.

— Bom dia, dona Raposa!

— Ora viva, pinto sura! Para onde vai com tanta pressa?

— Ao palácio do rei, entregar-lhe esta cartinha.

— Quer levar-me também?

— Só se você couber neste embornal…

— Caibo, sim! — disse a raposa, e com muito jeito acomodou-se dentro do embornal.

— Mas não me vá comer o milho, hein? — recomendou o pinto, fincando o pé na estrada.

Andou, andou, andou, até que deu com um rio de águas muito limpas, cheio de peixinhos. Parou para beber, e estava glug! glug! quando o rio disse:

— Amigo sura, que vontade de ir viajar com você!

— Pois vamos. Já levo comigo a raposa e nada me custa levar também um rio. Até é bom — porque não preciso parar no caminho quando tiver sede.

— Pois aceito o convite! — disse o rio. E, enrolando-se como um novelo, ajeitou–se dentro do embornal ao lado da raposa, a qual se encolheu toda e exclamou:

— Chispa! Arreda para lá, que me molha, senhor rio!

— Cuidadinho! — interveio o pinto. — Não me vão brigar aí dentro!… E o senhor rio que não me molhe o milho.

Disse e continuou a viagem. E andou, andou, andou, até que deu com um espinheiro.

— Saia do meu caminho, ouriço! — intimou ele. — Saia da frente que quero passar!

— Hum! Como está valente o pinto sura!… — retorquiu o espinheiro.

— Saia da frente, já disse! — repetiu o pinto engrossando a voz. — Saia da frente, senão…

A raposa, ouvindo o bate-boca, espichou a. cabeça para fora.

— Que é lá isso? — perguntou.

— É este espelho sem aço que não me quer dar caminho!… — berrou o pinto, furioso.

A raposa virou-se para o espinheiro e propôs:

— Olhe, amigo, em vez de estar aí cercando o pinto sura, muito melhor que viesse cá dentro nos fazer companhia.

— Mas será que caibo nesse embornalzinho?

— Como não? Cá está o milho, estou eu, está o rio e ainda há lugar para muita gente. O pinto sura vai ao palácio do rei tratar dum negócio muito importante…

— Nesse caso, vou também! — resolveu o espinheiro — e dobrando os espinhos encolheu-se todo e acomodou-se no embornal.

O pinto, muito contente da vida, piou qui-qui-ri-qui-qui! — e lá se foi, de papo empinado e cartinha no bico, como um grande figurão!

De novo andou, andou, andou, até que, de repente, ao dobrar um espigão, viu lá embaixo o palácio do rei, alumiando de ouro e prata.   Aqui o pinto, assombrado de tanta beleza, parou, com receio de continuar a viagem. Mas para não perder tempo enquanto refletia, engoliu vinte grãos de milho.

— Que leve a breca! — disse por fim. — Quem não arrisca, não petisca!

E dirigiu-se, firme, na direção do palácio real.

Lá chegou de tardezinha. Cumprimentou os guardas e foi entrando, muito senhor de si.

— Epa! Que sem-cerimônia é essa? — perguntou-lhe um criado de farda verde. — Que é que quer?

— Quero que não me aborreça! — respondeu o pinto, fechando a carranquinha. O criado abriu a boca, a pensar lá consigo: “Isto há de ser algum mágico disfarçado em pinto!” E deixou-o passar.

O amigo sura, então, com toda a importância, atravessou salões e mais salões até chegar à sala do trono, onde viu o rei, todo emproado, de coroa na cabeça e cetro na mão. Aproximou-se dele, dobrou os joelhos e — qui-ri-qui-qui! — entregou-lhe a carta.

O rei pegou no papelzinho, examinou-o de um lado e de outro; vendo que era um papel sujo apanhado no lixo, encheu-se de furor. Voltou-se para os guardas:

— Já com este pinto malcriado fora daqui! Ponham-no junto com as galinhas — e amanhã, panela com ele!…

O pobrezinho, agarrado pela asa, viu-se arrastado pelo palácio afora até um galinheiro onde várias galinhas orgulhosas esperavam a vez de serem mastigadas pela real dentuça de S. Majestade. Mal o viram, começaram a judiar dele, dando-lhe bicadas ainda piores que as do carijó namorador.

Mas o pinto lembrou-se de que trazia no embornal a raposa; e, tirando-a para fora, disse:

— Raposinha amiga: dê um pega, dos bons, nestas emproadas!

A raposa, incontinenti — zás, zás! — deu cabo de todas as galinhas e dos galos que vieram defendê-las.

Livre, assim, daqueles inimigos, o pinto sura mais que depressa saltou o muro e “abriu” para trás, com quantas pernas tinha. O rei, ao saber do acontecido, rebolou-se no chão de cólera; depois deu ordem, aos berros, para que em perseguição do pinto partisse um regimento de cavalaria.

O regimento partiu no galope — pá-tá-lá! pá-tá-lá! — erguendo nuvens de poeira.

Quando o pinto ouviu aquele tropel, tremeu de medo, com uma gota de suor frio na testa.

— Estou aqui, estou assado! — murmurou.

— Assado, nada! — falou de dentro do embornal uma voz. — Solte-me e verá.

Era o rio quem falava. O pinto, criando alma nova, soltou-o; e o rio, desenrolando-se por ali afora, inundou os campos e deteve a soldadesca.

Mas os soldados logo arranjaram canoas e conseguiram atravessar o rio.

Ao vê-los de novo galopando atrás dele, o pinto esfriou e disse:

— Estou aqui, estou em molho pardo!

— Molho pardo, nada! Solte-me e verá. – Era o espinheiro quem falava.

Mais que depressa o pinto soltou o espinheiro, o qual, arrepiando os espinhos, fechou a estrada como tranqueira que nem porco-do-mato vara.

O pinto, vitorioso, subiu a um cupim e fez pito para os soldados.

Depois encheu o papinho de milho e continuou a viagem, sossegadamente, ciscando bichinhos à beira da estrada.

Quando deu acordo, tinha chegado. Mas aqui ficou triste.

— Pobre de mim! — pensou. — Vai recomeçar a minha vida de animal judiado… Venci o rei, venci as galinhas do rei, venci os soldados do rei; mas pior que tudo isso é o malvado frangote carijó deste galinheiro. Que será de mim?

Enchendo-se de ânimo, porém, entrou no velho cercado onde nascera. Entrou ressabiado, com mil cautelas, espia de um lado, espia de outro.

Mas aconteceu o que ele jamais esperara. As galinhas vieram rodeá-lo, muito amáveis, com festinhas e olhares meigos. Quanto ao frango arreliento, nem sombra!

— Que é dele? — perguntou o sura.

— Foi para a panela — responderam as galinhas.

O pinto criou alma nova. Depois, olhando, olhando e não vendo o galo, indagou:

— E o galo esporudo?

— Morreu de gogó — disse com lágrimas nos olhos uma bela poedeira.

O pinto sura deu um pinote de alegria.

— E… e quem é o galo agora?

— É você, beleza!… — exclamaram todas as frangas em coro.

Só então o sura compreendeu que a viagem tinha levado muito tempo e ele não era mais o pobre pinto que dali partira e sim um formoso galo, de crista no alto do coco e esporas apontando nos pés.

Em vista disso pulou para cima dum jaca, estufou o papo e desferiu um canto de vitória: Có-có-ri-có-có! Quem é o rei daqui?

E a galinhada inteira respondeu: O galo sura só!

O pinto já não era mais pinto, e sim um corajoso galo…

 

          Todos gostaram, sobretudo do pedaço em que pegou um papelzinho do chão e disse que era carta.

          — Bobinho, bobinho… — comentou Emília. — Tal qual o pinto com que sonhei…

 

31 – O jabuti e o homem

Um jabuti estava em sua toca, tocando gaita. Um homem ouviu e disse: “Vou pegar aquele malandro” — e chamou: “Ó jabuti!”

— Oi! — respondeu o jabuti.

— Vem cá, jabuti.

— Já vou — disse o jabuti — e botou a cabecinha na abertura do buraco. O homem foi e agarrou-o e levou-o para casa, onde o fechou numa caixa. No dia seguinte, de manhã, antes de ir para o serviço, disse aos meninos:

— Não me vão soltar o jabuti, ouviram? — e foi trabalhar.

O jabuti pôs-se a tocar a sua gaitinha lá dentro da caixa. Os meninos aproximaram-se, curiosos. Ele parou.

— Toque mais, jabuti — pediram os meninos.

O jabuti respondeu:

— Vocês estão gostando da minha gaita. Imaginem se me vissem dançar…

Os meninos abriram a caixa para verem o jabuti dançar. O jabuti saiu e dançou pela sala.

Lé, lé,

lé, lé…

Lé, ré, lé, ré…

Depois pediu para dar um pulinho ao quintal.

— Vá, jabuti, mas não fuja.

O jabuti foi ao quintal e fugiu para o mato.

— O jabuti fugiu! — gritaram os meninos. — Como será agora?

Um deles teve uma lembrança: botar na caixa uma pedra com a forma do jabuti, para enganar o pai.

Assim fizeram.

À tarde o pai voltou da roça e disse’ “Ponham a panela no fogo e preparem-me o jabuti.”

Os meninos obedeceram, pondo a pedra na panela. Quando chegou a hora do jantar, o homem sentou-se à mesa, lambendo os beiços. Mas ao botar o jabuti no prato, viu que era pedra.

— Vocês deixaram o jabuti fugir!

Os meninos disseram que não, mas nesse momento soou lá no mato a gaitinha do fugitivo:

Tim, tim, tim…

Olô, olô, olô…

O homem foi lá.

— Ó jabuti!

O jabuti respondeu: “Oi!” Por mais que o homem procurasse, não o achava.

— Vem cá, jabuti!

E o jabuti: “Oi!” Cada vez respondia dum lugar diferente, até que o homem danou e voltou para casa, muito desapontado.

 

— Só isso? — gritou Emília. — É pouco…

          — Não, tem mais coisas — respondeu tia Nastácia. — Há uma porção de historinhas do jabuti, que é um danado de esperto. Ninguém logra ele.

          — É verdade — disse dona Benta. — O jabuti, ou cágado, como o chamamos aqui no sul, é um animalzinho que muito impressiona a imaginação dos homens do mato — os índios; daí todo um ciclo de histórias do jabuti, onde ele aparece com umas espertezinhas muito curiosas.

          — E é mesmo uma galanteza — disse Narizinho — sobretudo uns verdes, do tamanho duma bolacha Maria. Já vi dois em casa da mãe do Tônico.

          — Mas são mesmo espertos como querem os índios ou é história? — indagou Pedrinho.

          — O cágado parece que tem alguma inteligência e que faz mesmo umas coisinhas jeitosas. Além disso possui aquela casca onde esconde a cabeça e as pernas assim que se vê em apuros. Isso deu aos índios a ideia de esperteza.

          — Arranje, vovó, arranje um jabuti para nós! — pediu a menina. — Deve ser tão interessante…

          — Hei de arranjar, mas agora vamos ouvir outras histórias dele. Continue, Nastácia.

          E tia Nastácia continuou.

 

32 – O jabuti e a caipora

O jabuti entrou num oco de pau e começou a tocar a sua gaitinha. A caipora, lá longe, ouviu e disse: “Não pode ser outro senão o jabuti. Vou agarrá-lo.”

Veio vindo. Parou perto do oco, a escutar.

Li, ri, li, ri…

Lé, ré, lé, ré…

— Olá, jabuti!

— Oi! — respondeu o tocador de gaita.

— Saia do buraco, jabuti, para vermos qual de nós dois tem mais força.

O jabuti saiu, enquanto a caipora cortava um cipó.

— Eu puxo uma ponta e você outra — eu em terra e você n’água.

— Pois vamos a isso, caipora — respondeu o jabuti.

O jabuti entrou na água e amarrou a ponta do cipó no rabo dum pirarucu, que é o peixe de rio maior que há. A caipora, lá em terra, puxou o cipó — mas o pirarucu a arrastou para a beira d’água; e como não tinha mais força, foi puxando-a para dentro do rio. O jabuti, que já estava em terra, bem escondidinho no mato, ria-se, ria-se.

Não podendo mais de tão cansada, a caipora gritou:

— Basta! Você venceu.

O jabuti, sempre a rir-se, entrou n’água e foi desatar o cipó do rabo do pirarucu. Em seguida voltou para terra.

— Está cansado, jabuti? — perguntou a caipora.

— Cansado, eu? Nem um tiquinho! — e a caipora viu mesmo que

nem suado estava. Não teve remédio senão confessar que o jabuti era mais valente do que ela — e lá se foi muito desapontada.

 

— Sempre a esperteza vencendo a burrice! — observou Emília. — Mas que bicho caipora é esse?

          — A caipora — explicou dona Benta — é um dos monstros inventados pela imaginação da nossa gente do mato. Vocês bem sabem que para o povo existem na natureza muito mais coisas do que os naturalistas conhecem, como lobisomens, sacis, mulas-sem-cabeça que vomitam fogo pelas ventas e também caiporas.

          — Mas como é a caipora?

          — Dizem que é um bicho peludo que gosta muito de fumar. Cerca os viajantes nas estradas, de noite, para pedir fumo para o cachimbo. Descrever como é a caipora não é fácil, porque as coisas que só existem na imaginação do povo variam de lugar em lugar. Aqui é dum jeito, ali é do outro. Se querem saber como é a caipora, perguntem ao tio Barnabé. Só negro velho entende bem disso.

 

33 – O jabuti e a onça

Uma vez uma onça ouviu a música da gaitinha do jabuti e aproximou-se.

— Como você toca bem, jabuti! De que é feita essa gaitinha?

— De osso de veado, ih! ih! — respondeu o cascudo.

A onça, que estava querendo apanhar o jabuti; veio com um plano.

— Sou um pouco surda — disse ela. — Toque mais perto da abertura do buraco.

O jabuti apareceu na abertura do buraco e tocou, mas no melhor da festa a onça deu um bote para pegá-lo. O jabuti afundou a tempo; mesmo assim ficou com uma pata nas unhas da onça.

— Ah, ah, ah! — riu-se ele. — Pensa que agarrou minha pata mas só pegou uma raiz de pau! Fiau!…

A onça soltou as unhas, desapontada. O jabuti deu outra gargalhada.

— Grande boba! Era minha pata mesmo que você havia agarrado. Fiau! Fiau!

A onça jurou que não sairia da beira daquele buraco enquanto não apanhasse o jabuti — e ficou lá até morrer de fome.

 

— Aparece aqui aquele mesmo truque do coelho com a onça — notou Emília. — Quer dizer que a onça é tão estúpida que todos os animais a enganam do mesmo modo.

          — Só não acho direito — disse Narizinho — que a onça ficasse lá até morrer. Por mais estúpida que seja, isso é coisa que onça não faz. Os índios que inventaram esse caso eram bem bobinhos.

          — Eu sei mais histórias do jabuti — disse tia Nastácia.

          — Pois então conte.

          E ela contou a história de…        

 

34 – O jabuti e a fruta

Havia no mato uma fruta que nenhum bicho podia comer sem antes pronunciar o nome dela, e como só uma mulher sabia o nome da fruta, os bichos tinham de ir à sua casa perguntar o tal nome.

— Boioio-boioio-quizama-quizu — respondia a mulher, mas assim que o bicho ia saindo ela o chamava, dizendo: “Eu errei, amigo bicho. O nome não é esse, é outro” — e dizia outro. Os bichos faziam grande confusão, de modo que ao chegarem ao pé da fruta erravam no nome.

O jabuti resolveu comer a fruta. Ao saberem disso os outros animais caçoaram.

— Ora, logo quem! Se os mais pintados não conseguem decorar o nome, que é que espera aquele cascudo?

Mas o jabuti foi à casa da mulher com a sua violinha e perguntou o nome da fruta.

A mulher disse o nome, que ele imediatamente tocou na viola. Depois a mulher disse outro nome, e outro, e outro — e o jabuti ia tocando-os todos na viola até o último, que era o certo. E foi tocando na viola aquele último nome até chegar à árvore.

Repetiu, então, a palavra, certinho, ficando com direito à fruta.

Nisto a onça se aproximou.

— Jabuti não sabe trepar em árvore — disse ela. — Eu trepo para você e em paga recebo algumas frutas.

O jabuti concordou. A onça trepou à árvore, encheu um saco e desceu sem dar nenhuma ao jabuti, que lá se foi atrás dela.

Chegando a um rio, disse ele à onça:

— Comadre onça, me dê o saco para eu passar. Bem sabe que sou bom nadador. Você passa depois.

A onça deu-lhe o saco das frutas, que o jabuti levou às costas até a outra margem do rio — e lá desapareceu com as frutas deixando a onça lograda.

Furiosa com aquilo, a onça jurou vingar-se. Mas o jabuti, avisado, armou um plano. Foi esconder-se numa cova, bem embaixo da raiz em que a onça costumava descansar. Logo depois a onça veio e deitou-se.

— Jabuti, amigo jabuti, apareça! — disse ela.

E o jabuti respondeu de muito pertinho (dentro da cova): “Oi! Oi!”

A onça olhou duma banda e doutra, sem ver sinal de jabuti.     Gritou de novo:

— Jabuti, onde está ?

— Oi! Oi! — foi a resposta.

Vendo aquele som sair debaixo dela, a onça ficou desconfiada. Contou o caso a um macaco que vinha passando e pediu-lhe que desse uma sova em seu traseiro, por andar fingindo de jabuti.

O macaco deu tanto no traseiro da onça que a matou — e o jabuti saiu da cova muito satisfeito  — Lé, ré, lé, ré…

 

          — Arre, que é demais! — exclamou Narizinho. — Os “historiadores” pintam as onças ainda mais estúpidas que os perus. Veja se ela havia de mandar que o macaco desse tamanha surra no seu traseiro…

          — Ora, menina, você está a pedir muito aos nossos pobres índios. Já eles fizeram alguma coisa pondo uma noção verdadeira nessa historinha.

          — Que noção?

          — A do jabuti botar em música a tal palavra difícil para melhor guardá-la na memória. Isso é muito certo. A toada musical ajuda a decorar.

          — E que mania essa dos índios, de fazerem o jabuti músico? Ora o descrevem com uma gaita, ora com uma violinha. Será mesmo musical o jabuti?

          — Coitadinho! Se há bicho que não nasceu para a música é ele. Bobagem dos índios. Fazem isso porque com a gaita ou a viola o jabuti pode lograr mais facilmente os outros bichos.

          — E há mais histórias de jabuti, Nastácia?

          — Há sim. Vou contar agora a de…

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