Histórias de Tia Nastácia
Capítulos 41, 42, 43 e 44 (último)
41 – O rato orgulhoso
Um rato fazedor de grande ideia de si mesmo, vivia esperando ocasião de realizar coisas que mostrassem a sua importância. Certa noite acordou de sobressalto. A casa estava queimando. O rato ficou aflitíssimo, sem saber como escapar.
As labaredas, porém, cresciam e ele teve de resolver-se; ou ficava ali, e morria assado, ou escapava. Fechou os olhos e lançou-se ao fogo. Mas; sem saber como, não se queimou. Achou-se lá fora, sem o menor tostadinho no pêlo. Isto o encheu de enorme orgulho.
— Qual! Sou mesmo diferente dos outros. Nem as chamas têm coragem de me queimar…
Passeou por ali uns instantes e voltou a ver o estado do incêndio. Só então percebeu que não tinha havido incêndio nenhum. Os raios do sol, que se ia erguendo, é que lhe deram a impressão de fogo.
O rato suspirou. A sua importância não era o que ele havia suposto. Mas que fazer para provar tal importância?
A pouca distância havia um morro altíssimo.
— Eis uma boa façanha para um rato como eu: dar um pulo e cair lá em cima do morro!
Preparou cuidadosamente o pulo e pulou. Novo desastre. Em vez de alcançar o alto do morro, caiu em cima dum montinho de areia, a seis palmos de distância.
O rato entristeceu. Estava custando a provar ao mundo a sua importância.
Olhou. Viu um lago que lhe pareceu enorme. Foi para lá. Mediu a distância.
— Se consigo atravessar a nado este aguão, todos os animais têm que reconhecer em mim um verdadeiro herói.
Lançou-se à água, nadou, e por fim chegou ao meio do lago. Sentia na cauda o peso de milhares de peixes agarrados a ela. Estava já cansadíssimo, de modo que teve de empregar todas as forças para chegar à margem oposta. Chegou, afinal. Uf!
— Canseira assim jamais senti. Mas não é para menos. Acabo de atravessar um dos maiores lagos do mundo.
Prestando melhor atenção, porém, viu que não havia atravessado lago nenhum, e sim uma pocinha lamacenta.. Os tais peixes que se agarraram à sua cauda não passavam de vermes da lama.
O rato ficou aborrecidíssimo, mas mesmo assim não abandonou o plano de fazer grandes coisas.
Longe dali havia um pau, que lhe deu a ideia de estar espetado no céu. “Oh; lá está uma grande coisa a fazer. Visivelmente aquele pau está sustentando o céu. Se eu o derrubar, o céu cai. O mundo inteiro ficará esmagado, mas eu provarei a minha importância.”
Foi. Examinou bem o pau e depois abriu um buraquinho para esconder-se quando o céu viesse caindo. Feito isso, pôs-se a roer a madeira.
Roeu, roeu, roeu, e quando viu que o pau estava cai não cai, correu a esconder-se no buraco.
— Pobre mundo! Vai ficar inteirinho achatado pelo céu!…
Esperou uma porção de tempo. Não ouviu barulho nenhum.
— Que será que houve?
Talvez o céu ficasse enganchado na lua — e com mil cautelas botou a cabeça fora do buraco, para espiar.
Que desapontamento! O céu azul lá estava no lugar de sempre, com um grande sol no meio. O ratinho olhou para o pau caído: era uma simples vara.
O ambicioso sentiu grande tristeza, mas não desanimou. “Hei de fazer uma coisa grande, custe o que custar. Hei de transportar este monte daqui para o oceano.” Disse e pôs-se ao trabalho. Foi furando o monte e carregando a terra aos bocadinhos até o mar. Passou nisso anos e anos, até que um dia olhou e não viu mais o monte. Ele realmente o havia transportado para o mar.
— Hum! Agora compreendo como se fazem as grandes coisas. É à força de muito trabalho e muita paciência.
E morreu feliz por haver realizado um sonho de grandeza.
— Bravos aos esquimós! — gritou Emília. A historinha deles está mais suculenta que todas as contadas até agora.
— Na verdade, este conto encerra uma preciosa lição — disse dona Benta. — Não há obstáculos que a paciência não domine. E até houve um grande pensador que disse: “O gênio é uma longa paciência.”
— Mas, vovó, então tais esquimós são bem adiantadinhos. Para inventar histórias com lições como essa, é preciso que tenham boa cabeça.
— Pudera não! — gritou Pedrinho. — Eles só comem peixe. Peixe contém fósforo. Fósforo é sinônimo de inteligência.
— Mas se é assim — disse Narizinho — por que não progridem?
— Ah, minha filha, os esquimós já fazem o maior dos milagres vivendo naquela terra de gelos infinitos. Não há por lá vegetação nenhuma, a não ser, em certos pontos, a tundra, que é um tapete rasteiro de musgos e líquens. Isso dum povo desenvolver-se exige coisas: terras boas para culturas, clima agradável, cem fatores favoráveis. Para mim não há heroísmo maior do que o das tribos que
passam a vida nos gelos. Brrr!…
— Bom. Conte outra dum país frio — da Rússia, por exemplo.
E dona Benta contou a história dos…
42 – Peixes na floresta
Era um camponês que tinha uma esposa muito faladeira. Um dia em que ele achou um tesouro enterrado na floresta, trouxe-o para casa e disse à mulher:
— Acabo de descobrir uma grande fortuna, mas temos de escondê-la. Onde será?
A mulher achou melhor enterrarem o tesouro debaixo do assoalho da isbá em que moravam. O camponês concordou. Mas assim que a mulher foi ao poço buscar água, tirou o tesouro dali e escondeu-o em outro lugar.
A mulher veio com a água.
— Mulher mulher — disse o camponês — é preciso que ninguém saiba que temos este tesouro aqui debaixo do assoalho. Muito cuidado com a língua, ouviu?
Mas como não tinha a menor confiança nela, armou um plano.
— Olhe, amanhã iremos à floresta apanhar peixes. Dizem que estão aparecendo em quantidade.
— O quê? Peixes na floresta? Onde já se viu isso?
— Na floresta você verá. Madrugadinha o camponês levantou-se e foi à vila. Comprou uma porção de peixes, uma porção de aletria e
uma lebre. Passou depois pela floresta, espalhando tudo aquilo em vários pontos. A lebre ele fisgou num anzol de linha comprida e jogou n’água.
Chegando em casa, almoçou e convidou a mulher para irem à floresta. Foram. Que beleza! Peixe por toda parte, um aqui, outro ali, outro acolá. A mulher, com gritos de surpresa, ia acomodando a peixada na cesta.
Depois deu com a aletria pendurada de uma árvore.
— Olhe, marido! Aletria pendurada em árvore!…
— Não me espanto de coisa nenhuma — disse o homem. — Nestes últimos dias tem chovido muita massa dessa, que fica assim pendurada das árvores. Mas a gente da aldeia já apanhou quase tudo.
Nisto chegaram à lagoa, onde ele jogara a lebre.
— Espere um pouco, mulher. Esta manhã pus aqui uma linha de anzol com isca para lebre d’água. Vou ver se apanhei alguma.
Puxando a linha apareceu no anzol uma lebre.
— Como é isso? — gritou a mulher. — Lebre d’água? Que coisa espantosa! Nunca ouvi dizer de lebre que morasse em água!…
— Nem eu, mas o fato é que pesquei uma.
Voltaram para casa com aquela lindíssima colheita e a mulher passou o dia a preparar os peixes e a lebre.
Uma semana depois em toda a redondeza só se falava no tesouro que o camponês descobrira. As autoridades mandaram chamá-lo.
— É verdade que achou um tesouro na floresta?
O camponês riu-se.
— Tesouro, eu? Ah, quem me dera achar um!
— Mas sua própria mulher anda assoprando no ouvido de toda gente que você achou um tesouro e o escondeu debaixo do assoalho da sua isbá.
— Minha mulher anda a dizer isso? Coitada! É uma louquinha que não sabe o que diz.
— É verdade, sim! — gritou a mulher, furiosa. — Ele achou um tesouro, que eu ajudei a enterrar debaixo do assoalho! Louca, eu! É boa…
— Quando foi isso? — perguntou o camponês.
— Na véspera daquele dia em que juntamos peixe na floresta.
— Peixe na floresta? — repetiu o homem, fazendo cara de não entender.
— Sim. No dia em que choveu aletria e você pescou uma lebre d’água.
As autoridades convenceram-se de que a mulher era mesmo louca, e como na busca que deram nada encontrassem debaixo do assoalho da isbá, o caso morreu. O camponês esfregou as mãos, de contente.
— Veja se eu fosse me fiar nela! Estava hoje desmoralizado e com o meu rico tesouro perdido…
— Que complicação para chegar a esse resultado! — exclamou Narizinho. — Esse camponês sabia a mulher que tinha.
— E que grande maroto! — disse Pedrinho. — Logrou a mulher, logrou as autoridades — logrou todo mundo. Freguês mais escovado ainda não vi.
— E isbá, dona Benta, que é? — perguntou Emília.
— É o nome das casas da roça lá na Rússia, em geral de madeira. Casa de roça, aqui nós chamamos rancho, casebre, casa de sapé, mocambo e outras coisas assim. Lá é isbá.
— Gostei da história dos russos — disse Narizinho. — Está pitoresca.
Vamos ver outra de lá mesmo.
— Não. Para variar contarei uma de outra terra muito fria, a Islândia.
E dona Benta contou a história de…
43 – O alcatraz e o eider
Havia uma disputa entre o alcatraz (espécie de pelicano). e o eider…
— Antes de mais nada — pediu Narizinho — explique que bichos são esses.
— O alcatraz é uma ave marinha que tem um saco debaixo do bico. Uma ave com fama de ser a mais glutona de todas. Por isso os homens de certas zonas utilizam-na para a pesca. Botam-lhe uma argola no pescoço, debaixo do tal saco, de modo que o alcatraz pesque o peixe mas não possa engoli-lo. E o eider é um patão marinho dos países frios, famoso pela maciez de sua pluma; muito usada para travesseiros e acolchoados.
Bem. O alcatraz e o eider andavam brigando justamente por causa da pluma. Cada qual queria ter o privilégio de produzi-la. Por fim combinaram uma coisa.
Ficaria com o privilégio da pluma o que acordasse mais cedo e avisasse ao outro de que o sol estava nascendo.
Disposto a ganhar a partida custasse o que custasse, o alcatraz resolveu passar a noite acordado. Já o eider tratou de dormir o mais cedo possível. Sono, porém é sono. Quando chega não há quem agüente, de modo que lá pela madrugada o alcatraz estava de não poder mais consigo. Tinha de fazer esforços tremendos para conservar os olhos abertos.
De repente não pôde mais, cochilou — e teve um pesadelo, pondo-se a gritar: “O sol! O sol está nascendo!
A gritaria acordou o eider, que ficou a rir-se de ver o pobre alcatraz naquela luta para resistir ao sono. Por mais que fizesse, o sono o ia vencendo. Afinal sua cabeça pendeu e ele dormiu duma vez.
Justamente nesse instante o sol começou a levantar-se.
— O sol! O sol! Lá vem vindo o sol! Ganhei! — gritou o eider.
E teve de sacudir o alcatraz para acordá-lo.
Desde então ficou o eider com o privilégio das plumas maciíssimas — tudo porque soube fazer as coisas.
— Está aí um ponto meio duvidoso — disse Pedrinho. — O eider não soube fazer nada — apenas dormiu. Teve sorte, isso sim.
— Espere, Pedrinho. Note que o alcatraz, muito estupidamente, quis forçar a vitória, e a vitória não gosta de vir desse modo. Já o eider respeitou as leis da natureza, não forçou coisa nenhuma.
— Que lei?
— A lei do sono. A sabedoria do eider foi tratar de dormir o mais cedo possível. Era o meio de estar bem acordadinho à hora do nascer dó sol. O alcatraz contrariou a lei do sono — e pá! levou na cabeça,
— Por falar em eider, vovó, não poderíamos criar essa ave aqui? — perguntou a menina. — Teríamos plumas para os nossos travesseiros — coisa muito, melhor que macela.
— Pois eu em vez de plumas de eider preferia papos de alcatraz, para pescar de argola na lagoa — disse Emília.
— Impossível — respondeu dona Benta. — Essas aves não agüentariam o nosso clima. Muito quente para elas.
— Poderiam dormir na geladeira — lembrou Emília.
— Ei, ei, ei! — exclamou Narizinho. — Eu já andava admirada dum livro inteiro sem uma asneirinha só…
— E agora vovó? — indagou Pedrinho. — Que história vai contar?
— Creio que chega. Com tantas histórias assim, vocês apanham uma indigestão.
— Mais uma apenas, para fechar a série. Pedrinho pensou um bocado.
— Uma de onde?
— Uma do Rio de Janeiro, por exemplo — uma bem carioca.
Dona Benta olhou para o forno. Depois riu-se e contou
44 – História dos dois ladrões
Era uma vez um boiadeiro lá do sertão, que tinha cara de bobo e fumaças de esperto. Um dia veio ao Rio de Janeiro gastar os cobres duma boiada. Logo que desceu do trem e ia se encaminhando para um hotelzinho próximo, foi abordado por um homem de cara ainda mais boba que a sua.
— Boa noite, meu senhor! — saudou o homem humildemente.
O boiadeiro respondeu com um “boa noite” desconfiado, e foram andando juntos. O homem começou a contar uma história muito comprida.
Disse que era da roça e estava completamente zonzo naquela capital. Não conhecia ninguém, não sabia tomar bondes, atrapalhava-se com qualquer coisinha — e o pior de tudo era o medão de ser roubado.
— Isto aqui — disse ele — é gatuno de todos os lados. Ninguém pode confiar em ninguém. Os piratas não dormem. Se a gente está com dinheiro no bolso, eles conhecem pelo cheiro — e tanto fazem que deixam uma pessoa limpa.
— Se o senhor tem tanto medo, é sinal de que está empatacado — disse o boiadeiro.
O homem correu os olhos, com desconfiança, dum lado e doutro; depois respondeu quase num cochicho:
— O senhor adivinhou. Todo o meu medo vem de trazer no bolso um pacote de notas no valor de dez mil cruzeiros, que lá na minha terra me encarregaram de entregar à Santa Casa. Mas não sei onde é a Santa Casa.
Se pergunto, ensinam-me errado — ou então desconfiam de que estou com dinheiro.
E deu um suspiro. Depois continuou:
— Aquela gente lá da roça não imagina o que é isto aqui. Nem eu imaginava coisa nenhuma. Se soubesse, não vê que não me encarregava deste maldito dinheiro. Dez mil cruzeiros! Se perco o pacote, ou se algum pirata me passa a perna, vão dizer por lá que roubei — e fico desacreditado.
— E que pretende fazer? — indagou o boiadeiro.
— Minha ideia é descobrir um homem de bem que queira encarregar-se da entrega do dinheiro. Mas não acho esse homem. As caras desta terra não me inspiram a menor confiança. Só a sua. Assim que vi o senhor, tive um pressentimento no coração: “Aquele, sim, aquele tem cara de homem de bem.” Por isso me aproximei.
O boiadeiro ficou muito lisonjeado com a boa ideia que o homem fazia dele.
— Lá isso, sou. Graças a Deus tenho um nome limpo. Quem quiser tratar com pessoa séria, me procure.
O homem do pacote suspirou.
— Deus seja louvado! Custou, mas achei. Meu coração não nega. Quando o vi descendo esta rua; palpitei cá comigo: “Meu salvador vai ser aquele homem…”
— Mas de que maneira acha que eu possa servi-lo? — perguntou o boiadeiro.
— Dum modo muito simples. Eu lhe dou o pacote dos dez mil cruzeiros e o senhor faz a entrega à Santa Casa.
Os olhos do boiadeiro brilharam.
— Pois estou às suas ordens — disse ele. — Neste mundo um tem de servir o outro. Já que lhe inspiro tanta confiança, disponha dos meus préstimos.
— Ora graças! — suspirou o homem, tirando o pacote do bolso. Era um pacote de notas graúdas, muito bem amarrado, com uma de cem cruzeiros em cima.
— Pois aqui está o pacote, meu senhor. E eu fico imensamente agradecido da sua bondade, Ah, nem imagina o peso que me tira do coração! Uf! Esse dinheiro estava me deixando doido…
O boiadeiro pegou no pacote e foi abrindo a mala para guardá-lo.
— Espere — disse o homem. — Eu tenho no senhor a mais absoluta confiança, mas sempre é bom que me dê uma garantiazinha — aí um dinheirinho qualquer, porque afinal de contas eu acabo de lhe entregar dez mil cruzeiros. Dez mil cruzeiros é uma fortuninha…
O primeiro ímpeto do boiadeiro foi restituir o pacote. Depois mudou e disse, pondo a mão no bolso:
— Serve uma garantia de mil e quinhentos cruzeiros? É todo o dinheiro que tenho no bolso.
O homem cocou a cabeça vacilante. Afinal resolveu:
— Serve. É pouco, mas serve…
O boiadeiro puxou os cobres e deu os mil e quinhentos cruzeiros.
Despediram-se cada qual seguindo numa direção.
— Dez mil cruzeiros! — foi murmurando o boiadeiro. — Dez mil cruzeiros! Para que precisa a Santa Casa de tanto dinheiro? Muito melhor eu distribuir isto lá pelos pobres da minha terra — pelo menos metade. É justo que a outra metade fique comigo, em pagamento do trabalho…
No hotel pediu um quarto, onde se fechou para contar o dinheiro. Só encontrou aquela nota de cem cruzeiros. O resto era papel de jornal…
— Isso é o célebre conto-do-vigário, vovó! — gritou Pedrinho. — Todos os dias leio nos jornais coisas assim — e só me admiro de ainda haver gente que vá na onda. Como há bobos no mundo!…
— Como há patifes, isso sim — emendou dona Benta. — O segredo do conto-do-vigário é que um quer passar a perna no outro. Trata-se dum duelo entre dois tipos de ladrões — o ladrão esperto e o ladrão bronco. O bronco apanha o pacote — o esperto apanha a garantia. Eu, se fosse a polícia, punha os dois na cadeia.
— Mas isso não é história do folclore — disse Narizinho.
— Como não? Se é um produto do povo, é folclore do legítimo. Note que o principal elemento de todas as histórias é o logro. Seja príncipe ou jabuti, um logra o outro. A variedade está só nos jeitinhos do logro. O conto-do-vigário é um desses mil jeitos do esperto apanhar o dinheiro do bronco — num caso em que o bronco também é ladrão.
— Ah! — exclamou Emília. — Eu é que queria que alguém viesse para cima de mim com um pacote da Santa Casa…
— Que fazia?
— A coisa mais simples do mundo. “Quer garantia, meu caro senhor? Pois então abra o pacote e tire quanto quiser.” Bastava isso.
— Bom, essa é a resposta natural duma pessoa honesta — mas quem cai no conto não é honesto. Assim que vê o pacote já fica assanhado para pegar o dinheiro, e portanto fará tudo, menos abrir o pacote.
— E agora? — perguntou Pedrinho.
— Agora chega — disse dona Benta. — Vocês já devem estar empanturrados de histórias.
— Eu confesso que estou — disse Emília. — Estou cheinha de reis e príncipes e princesas encantadas e velhas corocas e jabutis e veados e onças. Sinto até um gostinho de jardim zoológico na boca.
— Também eu estou farta — disse Narizinho. — Histórias do povo não quero mais. De hoje em diante, só as assinadas pelos grandes escritores. Essas é que são as artísticas.
— Bem — concluiu dona Benta. — Da próxima vez contarei só histórias literárias, isto é, as escritas pelos tais grandes escritores. Agora cama! Narizinho já bocejou três vezes…
E a criançada foi dormir.
