Reforma da Natureza – Primeira Parte
Capítulos 1, 2 e 3
1 – A reforma da Natureza
Quando a guerra da Europa terminou, os ditadores, reis e presidentes cuidaram da discussão da paz. Reuniram-se num campo aberto, sob uma grande barraca de pano, porque já não havia cidades: todas haviam sido arrasadas pelos bombardeios aéreos. E puseram-se a discutir, mas por mais que discutissem não saía paz nenhuma. Parecia a continuação da guerra, com palavrões em vez de granadas e perdigotos em vez de balas de fuzil.
Foi então que o Rei Carol da Romênia se levantou e disse:
– Meus senhores, a paz não sai porque somos todos aqui representantes de países e cada um de nós puxa a brasa para a sua sardinha. Ora a brasa é uma só e as sardinhas são muitas. Ainda que discutamos durante um século, não haverá acordo possível. O meio de arrumarmos a situação é convidarmos para esta conferência alguns representantes da humanidade. Só essas criaturas poderão propor uma paz que satisfazendo a toda a humanidade também satisfaça aos povos, porque a humanidade é um todo do qual os povos são as partes. Ou melhor: a humanidade é uma laranja da qual os povos são os gomos.
Essas palavras profundamente sábias muito impressionaram àqueles homens. Mas onde encontrar criaturas que representassem a humanidade e não viessem com as mesquinharias das que só representam povos, isto é, gomos da humanidade?
O Rei Carol, depois de cochichar com o General de Gaulle, prosseguiu no seu discurso.
– Só conheço – disse ele – duas criaturas em condições de representar a humanidade, porque são as mais humanas do mundo e também são grandes estadistas. A pequena república que elas governam sempre nadou na maior felicidade.
Mussolini, enciumado, levantou o queixo.
– Quem são essas maravilhas?
– Dona Benta e tia Nastácia – respondeu o Rei Carol – as duas respeitáveis matronas que governam o Sítio do Pica-pau Amarelo, lá na América do Sul. Proponho que a Conferência mande buscar as duas maravilhas para que nos ensinem o segredo de bem governar os povos.
– Muito bem! – aprovou o Duque de Windsor, que era o representante dos ingleses. – A Duquesa me leu a história desse maravilhoso pequeno país, um verdadeiro paraíso na terra, e também estou convencido de que unicamente por meio da sabedoria de Dona Benta e do bom-senso de tia Nastácia o mundo poderá ser consertado. No dia em que o nosso planeta ficar inteirinho como é o sítio, não só teremos paz eterna como a mais perfeita felicidade.
Os grandes ditadores e os outros chefes da Europa nada sabiam do sítio. Admiraram-se daquelas palavras e pediram informações. O Duque de Windsor começou a contar, desde o começo, as famosas brincadeiras de Narizinho, Pedrinho e Emília no Pica-pau Amarelo. O interesse foi tanto que pouco depois todos aqueles homens estavam sentados no chão, em redor do Duque, ouvindo as histórias e lembrando-se com saudades do bom tempo em que haviam sido crianças e, em vez de matar gente com canhões e bombas, brincavam na maior alegria de “esconde-esconde” e ” chicote-queimado.”
Comoveram-se e aprovaram a proposta do Rei Carol.
Eis explicada a razão do convite a Dona Benta, tia Nastácia e o Visconde de Sabugosa para irem representar a Humanidade e o Bom-Senso na Conferência da Paz de 1945.
Com grande naturalidade Dona Benta aceitou o convite e deliberou seguir com todo o seu pessoalzinho – menos a Emília. Emília recusou-se a partir porque estava com a ieéia que lhe veio pela primeira vez quando ouviu a fábula do Reformador da Natureza. Fazia já meses que Dona Benta havia contado essa fábula assim:
O Reformador da Natureza Américo Pisca-Pisca tinha o hábito de botar defeito em todas as coisas. O mundo para ele estava errado e a Natureza só fazia tolices.
– Tolices, Américo?
– Pois então?!… Aqui neste pomar você tem a prova disso. Lá está aquela jabuticabeira enorme sustendo frutas pequeninas e mais adiante vejo uma colossal abóbora presa ao caule duma planta rasteira. Não era lógico que fosse justamente o contrário? Se as coisas tivessem de ser reorganizadas por mim, eu trocaria as bolas – punha as jabuticabas na aboboreira e as abóboras na jabuticabeira. Não acha que tenho razão?
E assim discorrendo Américo provou que tudo estava errado e só ele era capaz de dispor com inteligência o mundo.
– Mas o melhor – concluiu – é não pensar nisso e tirar uma soneca à sombra destas árvores, não acha?
E Américo Pisca-Pisca, pisca-piscando que não acabava mais, estirou-se de papo para cima à sombra da jabuticabeira.
Dormiu. Dormiu e sonhou. Sonhou com o mundo novo, inteirinho reformado pelas suas mãos. Que beleza!
De repente, porém, no melhor do sonho, plaf! uma jabuticaba cai do galho bem em cima do seu nariz.
Américo despertou de um pulo. Piscou, piscou. Meditou sobre o caso e afinal reconheceu que o mundo não estava tão mal feito como ele dizia. E lá se foi para casa, refletindo:
– Que espiga! … Pois não é que se o mundo tivesse sido reformado por mim a primeira vítima teria sido eu mesmo? Eu, Américo Pisca- Pisca, morto pela abóbora por mim posta em lugar da jabuticaba? Hum!… Deixemo-nos de reformas. Fique tudo como está que está tudo muito bom.
E Pisca-Pisca lá continuou a piscar pela vida em fora, mas desde então perdeu a cisma de corrigir a Natureza.
Ao ouvirem Dona Benta contar essa fábula todos concordaram com a moralidade, menos Emília.
– Sempre achei a Natureza errada – disse ela – e depois de ouvir a história do Américo Pisca-Pisca, acho-a mais errada ainda. Pois não é um erro fazer um sujeito pisca-piscar? Para que tanto “pisco”? Tudo que é demais está errado. E quanto mais eu “estudo a Natureza” mais vejo erros. Para que tanto beiço em tia Nastácia? Por que dois chifres na frente das vacas e nenhum atrás? Os inimigos atacam mais por trás do que pela frente. E é tudo assim. Erradíssimo. Eu, se fosse reformar o mundo, deixava tudo um encanto, e começava reformando essa fábula e esse Américo Pisca-Pisca.
A discussão foi longe naquele dia; todos se puseram contra a reforma, mas a teimosa criaturinha não cedeu. Berrou que tudo estava errado e que ela havia de reformar a Natureza.
– Quando, Marquesa? – perguntou ironicamente Narizinho.
– Da primeira vez em que me pilhar aqui sozinha.
2 – Aparece a Rã
Essa ocasião havia chegado. Ao saber que Dona Benta recebera convite dos chefes da Europa para ir arrumar o pobre continente, Emília deu um pulo de gosto e, já com a ideia da reforma da Natureza na cabeça, declarou que não ia.
– Não vai, como, Emília? – disse Dona Benta. – Acha que posso deixar você sozinha aqui?
Emília disfarçou a verdadeira razão de ficar. Declarou que não ia para evitar escândalos na Conferência da Paz.
– Sim – disse ela – se eu for não é para ficar dormindo no hotel, não! Também hei de querer tomar parte na Conferência – e tenho umas tais verdades a dizer aos tais ditadores que a senhora nem imagina. E fatalmente sai “fecha”. Vira escândalo. É isso que quero evitar.
Dona Benta ficou pensativa, e foi à cozinha consultar tia Nastácia.
Encontrou-a areando o tacho para fazer goiabada.
– Nastácia – disse ela – Emília encrencou. Quer ficar. Diz que se for à Conferência sai fecha com os ditadores e haverá um grande escândalo internacional – e estou com medo disso. Tenho horror a escândalos.
– E sai fecha mesmo, Sinhá. -Depois daquela história da Chave do Tamanho, Emília ficou prepotente demais. Não atura nada. Dá escândalo mesmo, Sinhá, e é até capaz de estragar o nosso trabalho por lá. Pedrinho me contou que aquilo nas Europas está pior que quarto de badulaque quando a gente procura uma coisa e não acha. Tudo de perna para o ar, disse ele. Tudo sem cabeça, espandongado. A nossa serviceira vai ser grande, Sinhá, e com a Emília atrapalhando, então, é que não fazemos coisa que preste. Minha opinião é que ela fique.
– Mas ficar sozinha aqui, Nastácia?
– Fica com o Conselheiro e o Quindim – que mais a senhora quer? Juízo eles têm para dar e vender – e ainda sobra. Eu converso com o Conselheiro e explico tudo. .
Dona Benta pensou, pensou e afinal se convenceu de que tia Nastácia tinha razão. Controlada pelo Conselheiro e defendida pelo Quindim, que mal havia em Emília ficar?
E Emília ficou.
Narizinho, porém, que era a que mais conhecia a Emília, não deu crédito àquele pretexto de não ir para não dar escândalo.
– Isso é história dela, vovó! Emília até gosta de escândalo. Quer ficar sozinha eu sei para que é – para sapecar á vontade, fazer alguma coisa ainda mais maluca do que aquela da chave do tamanho. Eu, se fosse a senhora, não a deixava aqui sozinha.
Mas Dona Benta era a democracia em pessoa: jamais abusou da sua autoridade para oprimir alguém. Todos eram livres no sítio, e justamente por essa razão nadavam num verdadeiro mar de felicidade. Emília recusava-se a ir? Pois então que não fosse. Como forçá-la a ir? Com que direito? E que adiantaria ir a contragosto, emburrada? E Emília teve licença para ficar.
Isso foi na própria manhã da vinda do convite. Um mês depois chegava a comissão incumbida de levar Dona Benta.
Essa comissão veio no único navio ainda existente no mundo. Todos os outros estavam repousando no fundo dos mares, vítimas dos submarinos e torpedos aéreos. Dona Benta, arrumou as malas, vestiu o seu vestido de gorgorão amarelo do tempo de D. Pedro II, mandou que tia Nastácia pusesse a saia nova de pintinhas verdes e lá foram as duas para bordo do navio.
Pedrinho e Narizinho acompanhavam a ilustre vovó na qualidade de netos; e o Visconde, com uma gorda pasta de ciência debaixo do braço, seguia na qualidade de Consultor Científico.
Emília, o Conselheiro e Quindim estiveram presentes ao bota-fora na porteira, e ouviram as últimas recomendações de tia Nastácia sobre as galinhas, os porquinhos de ceva e uma ninhada de pintos que já estavam bicando.
– Não se ponham a ajudar os pintinhos a sair da casca senão eles morrem – disse ela. – Pinto sabe muito bem se arrumar sozinho. E não esqueçam de molhar as mudinhas de couve lá na horta.
Ouvindo aquelas recomendações tão sensatas, os homens da comissão entreolharam-se, como quem diz: – “Com pessoas de tão belo espírito prático, e tão cuidadosas de tudo, a Conferência vai ser um verdadeiro triunfo para a humanidade (e não erraram.)”
Assim que se pilhou sozinha, Emília correu à máquina de escrever e bateu uma carta para uma menina do Rio de Janeiro com a qual andava já de algum tempo se correspondendo e planejando “coisas.”
“Querida Rã:
Estou só – só-só-ró-só-só! Todos foram para a Europa arrumar aqueles países mais amarrotados do que latas velhas e agora preciso que você venha passar uma temporada aqui.
Você é das minhas: das que não concordam. Podemos realizar aquele nosso plano de reforma da Natureza. O Américo Pisca-Pisca era um bôbo alegre. Reformou a Natureza como o nariz dele, e foi pena que a abóbora do sonho não lhe esmagasse a cabeça de verdade.
Seria um bobo de menos no mundo. Nós faremos uma reforma muito melhor. Primeiro reformamos as coisas aqui do sítio. Se der certo, o mundo inteiro adotará as nossas reformas. Sua mãe não há de querer que você venha. É “adulta” e os tais adultos são uns Américos Pisca-Piscas. Mas você vem assim mesmo.
Cheire meia pitada desse pó que vai no saquinho de papel – só meia, se não em vez de parar aqui você vai parar não sei onde. Eles partiram esta manhã e eu já estou me sentindo muito “tênia…” (Depois que Emília soube que “solitária” era sinônimo de “tênia”, passou a empregar a palavra “tênia” em vez de “solitária.” “Não é gramatical” – dizia ela – “mas é mais curto.”)
A Rã, assim chamada por causa da sua magreza de menina de onze anos, era emilíssima, das que não concordam mesmo. Assim que leu a carta, deu dez pinotes e tratou de dividir o pó do saquinho em duas partes “bissolutamente” iguais. Por influência da Emília ela andava usando a palavra “absolutamente” dita dessa maneira.
Antes de reformar a Natureza, Emília já havia feito várias reformas na língua.
– Que está fazendo aí, menina? – perguntou a mãe da Rã, ao vê-la dividindo o misterioso pó.
– Estou “bi” o que leva e trás para que me leve e traga – respondeu ela em linguagem da pitonisa de Delfos (na língua emiliana “bi” queria dizer “dividir em dois.”)
A boa senhora está claro que não entendeu coisa nenhuma, mas como já estava acostumada às respostas enigmáticas da filha, deu um suspiro e foi cuidar de outra coisa.
A Rãzinha cheirou o pó, de acordo com as instruções da carta. Imediatamente seus olhos se fecharam e em seus ouvidos cantou o célebre fiunn! Instantes depois sentiu-se largada no chão. Abriu os olhos: um terreiro! Só podia ser o terreiro do sítio. Mas não viu ninguém. A casa, fechada. No ar, só dois sons; um ronco que devia ser do Quindim na soneca do costume e um barulho de mastigação com jeito de ser Rabicó. Ainda sentada e tonta, a menina gritou: – Emília! Emilinha! Emiloca! …
3 – O Passarinho Ninho
A resposta foi um “Aqui!” vindo do pomar. Correndo no rumo da voz, a menina encontrou Emília tão entretida com um passarinho que nem sequer a olhou. Estava afundando as costas dum tico-tico. Todos os passarinhos têm costas “convexas”, isto é, arredondadas para cima. Emília estava fazendo um passarinho de costas “côncavas”, isto é, com um afundamento redondo nas costas. A Rã ficou a olhar para aquilo sem entender coisa nenhuma, até que Emília explicou.
– Estou fazendo o passarinho-ninho. A boba da Natureza arruma as coisas às tontas, sem raciocinar.
Os passarinhos, por exemplo. Ela os ensina a fazer ninhos nas árvores. Haverá maior perigo? Os ovos e os filhotes ficam sujeitos à chuva, às cobras, às formigas, às ventanias. O ano passado deu por aqui um pé–de-vento que derrubou o ninho deste tico-tico, ali da minha pitangueira – e lá se foram três ovos tão bonitinhos, todos sardentinhos. E mais uma vez me convenci da “tortura” das coisas. Comecei a reforma da Natureza por este passarinho.
A Rã não entendeu que reforma era aquela e perguntou:
– Para que esse afundamento aí nas costas do tico-tico?
– Pois é o ninho – respondeu Emília. – Faço o ninho dele aqui nas costas e pronto. Para onde ele for, lá vão também os ovos ou os filhotes – e não há perigo de cobra, nem de ventania, nem de chuva.
– De chuva há – disse a Rãzinha. – Nos ninhos em árvores a fêmea está sempre em cima dos ovos. Mas aí…
Emília fez um muxoxo de superioridade.
– Já previ todas as hipóteses – disse ela. – Faço a caudinha dele bem móvel, de modo que possa virar para trás e cobrir os ovos quando for preciso, como se fosse um telhadinho.
A Rã deu-se por satisfeita e com a maior atenção acompanhou o preparo do primeiro passarinho ninho do mundo.
– Pronto! – exclamou Emília por fim. – Faltam só os ovos. Corra ali e me traga o tico-tico fêmea que está na gaiola.
A Rã foi e trouxe o passarinho. Emília pegou-o com muito jeito e espremeu-o de modo que saíssem três ovinhos sardentos, os quais depositou com muito cuidado no ninho de penas feito nas costas do tico-tico macho – e soltou os dois, pelo ar.
Emília estava radiante.
– Lá se foram! – exclamou. – Acabaram-se as inquietações, os medos de cobra, formiga ou vento. E também se acabou o desaforo de todo o trabalho de botar e chocar os ovos caber só à fêmea. Os homens sempre abusaram das mulheres. Dona Benta diz que nos tempos antigos, e mesmo hoje entre os selvagens, os marmanjos ficam no macio, pitando nas redes, ou só se ocupam dos divertimentos da caça e da guerra, enquanto as pobres mulheres fazem toda a trabalheira, e passam a vida lavando e cozinhando e varrendo e aturando os filhos. E se não andam muito direitinhas, levam pau no lombo. Os machos sempre abusaram das fêmeas, mas agora as coisas vão mudar. Este tico tico, por exemplo, tem que tomar conta dos ovos. A fêmea fica com o trabalho de botá-los, mas o macho tem que tomar conta deles.
– Mas assim os ovos não chocam – objetou a Rãzinha. – Para que choquem é preciso que as fêmeas fiquem uma porção de dias sentadas sobre eles. As galinhas levam 21 dias no choco.
– Já “previ a hipótese” – disse Emília – e reformei esse ponto. No meu sistema de passarinho ninho quem choca não é a fêmea e sim o sol, como acontece com os ovos dos jacarés, tartarugas, lagartixas e cobras.
– E quando não houver sol? Às vezes passam-se dias sem o sol aparecer.
– Nesse caso os ovos que tenham paciência e esperem que o sol apareça. Para que pressa?
A Rã não teve mais nada a dizer. Estava certo. Só então é que Emília se lembrou de cumprimentá-la e saber como iam todos lá da casa. Também lhe examinou as mãos para ver se as unhas estavam de luto. E fê-la voltar-se de perfil e de costas, e dar três pulos. Era a primeira vez que as duas se encontravam pessoalmente.
– Estou gostando do seu físico – disse Emília no fim do exame. – Tive medo de que não correspondesse à ideia que fiz. Muitas vezes a gente imagina uma pessoa e sai o contrário. Gostei muito da sua última carta sobre a reforma das cidades e das gentes. Adoro você, Rã, porque você não concorda.
– Ali, não concordo mesmo! – exclamou a Rãzinha. – Vivo não concordando. Em nós, gente, por exemplo, quanta coisa errada! Por que dois olhos na frente e nenhum na nuca? Eu, se fosse reformar as criaturas, punha um olho na testa e outro na nuca. Desse modo eu dobrava a segurança das criaturas.
– Pois eu aumentava o número de olhos – disse Emília. – Por que dois só? Assim como temos dez dedos podíamos ter dez olhos. Eu punha quatro na cabeça, a norte, sul, leste e oeste. Eu punha dois nos dedões dos pés, para evitar as topadas. Outro dia Pedrinho deu uma topada num tijolo que quase arrancou a unha. Com um olho em cada dedão não há perigo de topadas – nem de espinhos e estrepes. E eu também dava olhos a cada dedo minguinho. O minguinho é uma verdadeiro vagabundo nas mãos. Não faz nada. Fica o tempo todo assistindo ao trabalho dos outros. Ora, se o “mingo” tivesse um olhinho na ponta, podia prestar bons serviços. Às vezes a gente quer enxergar numa cova de dente ou ver se há cera no ouvido e não pode. Com o olho do “mingo”, nada mais fácil.
– E esse olho do minguinho – ajuntou a Rã – podia ser como os microscópios, capaz de enxergar coisinhas invisíveis aos olhos comuns. Mas haveria um inconveniente, Emília. As mãos lidam com tudo, trabalham muito, e esses olhos do minguinho haviam de viver se enchendo de cisco ou se arranhando – e que dor!
– Nada mais fácil do que evitar isso – lembrou Emília. – Basta que usem dedaizinhos. Ficam cobertos quando não tiverem o que fazer. Mas por enquanto não podemos reformar gente, porque não há gente aqui. Todos os humanos do sítio foram para a Europa.
– E Rabicó?
– Esse é desumano e quadrupedíssimo. Já pensei muito na reforma de Rabicó. Podemos transformá-lo em bípede e …
– E acabar com aquela mania de comer tudo quanto encontra – continuou a Rã. – Eu faria assim: no focinho punha uma espécie de ratoeira, sempre armada; quando ele avançasse num doce ou em qualquer coisa séria, como aquela coroa do casamento de Narizinho, a ratoeira desarmava e segurava-lhe o focinho. E também dava-lhe pernas de tartaruga, para que não pudesse fugir quando Pedrinho o perseguisse com o bodoque.
Emília olhou para a Rã com ar desconfiado. Aquelas ideias pareceram-lhe absurdas. A ratoeira impediria Rabicó de comer não só cocadas e coroinhas como tudo mais, e ele morreria de fome.
– “Bissurdo”, Rã! – disse ela. – A sua ratoeira acabava matando Rabicó e Dona Benta ficava danada.
– Você não me entendeu, Emília. A ratoeira só funcionaria quando ele quisesse comer coroinhas. Para abóbora, milho, mandioca e o resto, não.
– Mas como a ratoeira podia saber quando era coroinha?
– Pelo cheiro. Eu punha um bom nariz na ratoeira.
Emília olhou para a Rã com o rabo dos olhos. Aquela menina estava com jeito de ser maluca …
Apesar disso encarregou-a de reformar Rabicó. A Rã mudou de assunto.
– Na carta que você me escreveu, Emília, encontrei a palavra “bissolutamente” em vez de “absolutamente” e agora você disse “bissurdo” em vez de “absurdo.” Está reformando as palavras também?
– Ainda não, mas já pensei nisso. Por enquanto me limito a cortar uma ou outra letra com a qual me implico. O “a” de certas palavras me obriga a abrir muito a boca – e meu queixo pode cair, como o da filha de Nhã Veva. Experimente dizer absurdo sem abrir a boca.
A Rã experimentou e não conseguiu, mas “bissurdo” ela disse quase de boca fechada.
– Pois aí está! – tornou Emília. – Tudo errado, até o “a” de certas palavras. O mundo é uma grande trapalhada. Para que, por exemplo, caudinha em Rabicó? Na vaca Mocha a cauda tem razão de ser – serve para espantar as moscas. É um espanador. Mas em Rabicó? Para que serve aquele caracolzinho pelado?
– Para enfeite do fim – lembrou a Rã.
– Que fim?
– O fim de Rabicó. Todos os fins têm caudinhas. É o remate. Mamãe diz que é feio comer e deixar o prato limpo, ou beber um cálice de licor sem deixar um bocadinho no fundo. São caudinhas. São os enfeites da boa educação.
Emília estava cada vez mais desconfiada da Rãzinha. Parecia a Alice do País das Maravilhas. Só vinha com disparates. E disse:
– Enfeites são inutilidades. Não quero saber de enfeites nas minhas reformas. Tudo há de ter uma razão científica. Aquela ideia da carta sobre a reforma do Quindim me pareceu maluca. Acho que você quer brincar com a Natureza, menina. Eu quero corrigir a Natureza, quero melhorá-la, entende? Não se trata de nenhuma brincadeira. Negócio sério. Aí está a diferença entre nós. Na última carta você falou em substituir o couro do Quindim por um veludo. Isso é asneira.
– Mas que necessidade tem Quindim dum couro duríssimo, aqui no Pica-pau Amarelo, onde não há espinhos africanos?
– Concordo. Poderá ter um couro mais fino, assim como a camurça; mas de veludo. Rã, é demais. Às vezes penso que você está sabotando a minha ideia de reforma da Natureza …
