Dom Quixote das Crianças
Capítulos 05 e 06
05 – Dom Quixote volta para casa. A queima dos livros
Sem responder à pergunta, Dona Benta continuou:
– Quando o pobre cavaleiro andante se viu só, com o grupo já bem longe, soltou um profundo gemido. Quis levantar-se. Impossível. Estava completamente derreado. Deixou-se então ficar onde estava, a recordar vários lances da cavalaria andante, em que o herói servira em condições ainda piores que a sua. Vieram-lhe à lembrança uns versos duma das histórias lidas.
Onde estás, senhora minha,
Que não te dói o meu mal?
Ou não o sabes, senhora,
Ou és falsa e desleal!
Nesse ponto apareceu gente. Apareceu um homem lá da aldeia dele, que andava em compras de trigo. Vendo o cavaleiro caído, correu a socorrê-lo. Tirou-lhe a viseira e exclamou:
– Que é isto? O Senhor Dom Quixote por aqui, neste estado?
Fale! Que foi que lhe sucedeu?
Mas não obteve resposta. O herói da Mancha perdera a fala.
Vendo a gravidade do seu estado, o homem o tomou nos ombros e o arrumou dobrado em dois sobre o burrinho em que viera. Depois recolheu as armas por ali espalhadas, o escudo, o espadão, os pedaços da lança, pendurando tudo sobre a sela do Rocinante – e lá se foi para a aldeia com aquele carregamento de cacos.
Ia caindo a noite quando parou à porta da casa de Dom Quixote, onde tudo andava de pernas para o ar desde o dia do seu desaparecimento. O cura da aldeia e o barbeiro lá se achavam, conversando com a ama e a sobrinha.
– Veja, senhor cura – dizia a ama -, veja que desgraça! Há já seis dias que o nosso homem desapareceu com o cavalo, a lança, o escudo e aquela ferragem da armadura do bisavô! Tudo por causa dos tais malditos livros de cavalaria, que lhe viraram a cabeça…
– É verdade, sim – confirmou a sobrinha. – O senhor cura pode crer que o meu honrado tio passava às vezes até quarenta e oito horas seguidas agarrado a esses bolorentos livros, sem querer saber de mais nada. Só os largava para erguer-se, pegar da espada e atirar golpes contra as paredes, gritando que estavam ali torres e gigantes. E quando, já exausto, não podia mais suster a espada, bebia um copão d’água, dizendo ser o preciosíssimo elixir com que o brindara o encantador Esquife, seu amigo.
– Fizemos mal em deixá-lo entregar-se de corpo e alma a tais livros – observou o cura. – O melhor é queimá-los todos sem demora.
Chega o dano que já causaram.
Foi nesse ponto da conversa que soaram batidas à porta. Um criado correu a abrir, e com o maior dos espantos todos deram com a estranha carga que o homem trazia em seu burrico.
A sobrinha, a ama e o cura correram de braços abertos para o reaparecido, mas Dom Quixote não estava em estado de receber abraços de ninguém; só queria cama.
– Deitai-me já – murmurou com voz fraca -, pois estou bastante moído, por culpa de Rocinante – e chamai quanto antes uma fada que me cure.
– Hum! – fez a ama, virando-se para o cura. – Que lhe disse eu? – E para o fidalgo em pandarecos: – Venha, venha, senhor. Nós o poremos são como um pêro, sem auxílio de fada nenhuma.
Com muitas cautelas, os homens ali presentes puseram Dom Quixote sobre a sua macia cama. Tiraram-lhe as ferragens; examinaram-lhe o corpo em procura de ferimentos; não acharam nenhum – apenas machucaduras.
– Eu estou é contuso – disse ele. – Numa luta contra terríveis gigantes meu cavalo veio ao chão e não pude defender-me. Moeram-me.
– Tá, tá, tá! – exclamou o cura. – Lá vêm os gigantes! Não há remédio: temos de queimar os tais livros quanto antes.
Foram feitas mais algumas perguntas ao herói escalavrado, mas Dom Quixote não queria saber de histórias. Só queria comer e dormir, de modo que tiveram de o deixar em paz.
No dia seguinte, muito cedo, enquanto o fidalgo ainda estava no melhor do sono, o cura voltou com o barbeiro. Depois de alguns cochichos com a sobrinha e a ama, foram-se todos à biblioteca, na ponta dos pés. Arrecadar os livros de cavalaria não custou muito, porque tudo lá era cavalaria – mais de cem, afora os miúdos. Foram levados para o quintal. Momentos depois uma enorme fogueira os devorava.
– Louvado seja Deus! – exclamou a ama diante do montão de cinzas. – Pelo menos estes não mais mexerão com a bola do senhor meu amo.
Mal acabara de dizer isso, ressoam lá dentro berros de Dom Quixote.
– Acudi, acudi, valorosos cavaleiros! – bradava ele. – Nesse andar, os cortesãos vencem a partida!
Todos correm para o quarto do herói, e com espanto o veem de pé, em fraldas de camisa, fazendo com a espada mil movimentos como se estivesse a bater-se contra gigantes invisíveis. O criado agarra-o pela cintura e, a custo, ajudado pelo barbeiro, domina-o, despindo-o das ferragens e deitando-o novamente. Depois que sossegou um bocado, Dom Quixote disse ao cura:
– Ora, pois, Senhor Arcebispo Turpim, não é a maior das vergonhas que por artes do vil encantador dos Doze Pares de França a vitória deste torneio penda para os cortesãos do Imperador Carlos Magno?
Vendo que o doente ainda estava fora do juízo, o cura respondeu de modo a acalmá-lo, como se realmente ele, o cura, fosse o Arcebispo Turpim:
– Oh, não se aflija com isso, Senhor Dom Quixote. O que se perde hoje ganha-se amanhã.
– Assim o espero, senhor arcebispo – respondeu o fidalgo, suspirando – e pediu o almoço.
A fim de cortar o mal pela raiz, o cura e o barbeiro mandaram fechar com tijolos a porta que dava para a biblioteca, de modo que ninguém desconfiasse ter havido porta ali, e foi recomendado à ama que, se ele estranhasse a ausência da porta, lhe dissesse que desaparecera por artes dum encantador.
Três dias após, quando o fidalgo se ergueu da cama, a primeira coisa que fez foi encaminhar-se para a biblioteca em procura dos amados livros. Mas ficou atônito ao dar com uma parede contínua, sem marca nenhuma de porta. Apalpou-a, sondou, examinou. Por fim, chamou a ama.
– E a biblioteca?
– Sumiu, senhor – disse ela. – Enquanto meu amo esteve por fora em aventuras, um maldito mágico apareceu por cá, montado num dragão, e entrou na livraria. O que lá fez não sei. Só sei que a livralhada, e mais a sala da biblioteca, tudo desapareceu, e o mágico se sumiu pelo teto, numa fumaceira, berrando: “Sou Munhaton! Sou Munhaton!”
– Não era Munhaton – explicou Dom Quixote. – Era Freston. Oh, conheço-o muito bem! Trata-se do mais cruel dos meus inimigos. Persegue-me porque está escrito que um dia hei de vencer na luta certo cavaleiro que Freston muito protege.
– Ninguém duvida de semelhante coisa – observou a sobrinha, que ouvia o diálogo. – Mas diga-me, rico tio, para que anda vosmecê a amofinar-se com aventuras, quando pode estar tão sossegadinho em casa? Isso de aventuras é perigoso. Lá diz o povo que quem vai buscar lã muitas vezes volta tosquiado.
– Cala-te! – retorquiu Dom Quixote. – Cá comigo, antes que me tosem eu os deixo pelados como leitões – e embezerrou.
Durante uns quinze dias o herói da Mancha teve o comportamento duma criatura normal. Mas não estava curado, não. Nos seus passeios pelas vizinhanças conseguiu seduzir um pobre lavrador de cabeça fraca e alma crédula, ao qual prometeu mundos e fundos, caso quisesse acompanhá-lo em novas aventuras.
– Sim, meu caro Sancho (Sancho Pança era o nome do lavrador). Serás meu escudeiro – e o escudeiro dum cavaleiro andante acaba sempre, no mínimo, governador dalguma ilha.
A palavra governador fez Sancho esbugalhar os olhos e cair em cismas. Era tentação forte, à qual não soube resistir, e lá consigo deliberou largar a mulher e os filhos para deitar-se ao mundo como escudeiro do herói da Mancha. Combinado tudo, Dom Quixote lembrou-se do conselho do seu padrinho do castelo, isto é, de munir-se de dinheiro. Vendeu mais alguma terra, empenhou o que pôde e desse modo conseguiu rechear a sua bolsa.
Em seguida tratou de refazer do melhor modo a velha armadura avariada pela surra do arrieiro, depois do que ajustou com Sancho a hora e o dia da viagem. Sancho teria de prover-se dos necessários alforjes, indo montado em seu burrinho, um excelente e fiel animal.
A princípio a ideia de andar à aventura seguido dum escudeiro montado em burro não agradou lá grande coisa ao fidalgo; mas por fim consentiu, lembrando-se que poderia dar a Sancho o corcel do primeiro cavaleiro encontrado pelo caminho e vencido em luta.
Tudo bem planejado e arranjado, partiram certo dia sem que os da casa vissem; ao romper da manhã estavam já tão longe que ninguém os poderia alcançar. Sancho, com as banhas escarranchadas no jumento e os bojudos alforjes lado a lado, dava a ideia dum patriarca bonachão. Em certo momento, tomou da cabaça que trazia a tiracolo e disse, antes de sorver um gole:
– Ah, Senhor Dom Quixote, rogo-lhe que nunca se esqueça da ilha que me prometeu. Juro governá-la com a maior sabedoria.
– Descansa, amigo Sancho. Serei mais generoso contigo do que muitos cavaleiros de fama o foram com seus servidores. Costumavam deixá-los envelhecer sem nunca os galardoar com a merecida recompensa. Quando muito lhes davam alguma província e um reles título de conde ou marquês. Eu, porém, em menos de seis dias espero conquistar todo um reino – ou dois, e este segundo será teu.
– Oh, meu querido amo! – exclamou o escudeiro batendo palmas, aos pulos na sela. – Quer dizer então que ainda serei rei e a minha mulher Teresa, rainha e meus filhos, príncipes?
– Está claro – confirmou Dom Quixote.
Mas Sancho pôs-se a rir. Estava a pensar na sua mulher.
– Coitada! – exclamou. – Ainda que chovam coroas, creio que nenhuma se ajustará na cabeça da pobre Teresa. Não dá para rainha, não, a coitada… Condessa ainda vá lá; mas rainha…
– Não te preocupes com isso, Sancho. Tudo se há de resolver do melhor modo. Neste momento o que posso assegurar-te é quereceberás um reino.
– Os anjos digam amém – murmurou Sancho com os olhos no céu. – Eu cá de mim fico sossegado, porque sei que palavra de cavaleiro não volta atrás. Inda mais a palavra do maior cavaleiro da Mancha, o meu valorosíssimo amo…
06 – Primeiras aventuras em companhia de Sancho
Dona Benta parou nesse ponto porque já era tarde – nove horas, hora de cama. Os meninos foram dormir e sonharam com as aventuras narradas. O melhor sonho foi o da Emília, que ela contou no dia seguinte.
– Ah, vocês nem calculam a sova que eu dei no tal malvado patrão de André! Ele apareceu por aqui, com aquela cara lavada de sem-vergonha.
– Senhorita, poderá fazer o obséquio de dizer-me se é aqui o sítio de Dona Benta? – perguntou muito amável.
Eu, que sabia a malvadeza dele, fiz-me de tola.
– É, sim, seu cara-de-coruja. Que deseja V. Sa.?
– Vim ver se não está escondido por aqui um tal Andrezinho, um menino que eu quero muito, muito, muito bem! De medo dum doido vestido de armadura que anda a correr as estradas, ele fugiu-me lá do meu sítio e…
– Ah, sei – disse eu. – Um tal Dom Quixote, não é? Um cavaleiro malvado que corre mundo a surrar crianças, não é?
O homem desconfiou um bocadinho. Eu continuei:
– Está aqui, sim. Está escondidinho no quintal, de medo do tal cavaleiro de ferro que bate nas crianças. Vamos até lá.
E levei-o ao quintal, onde Quindim estava pastando sossegadamente. O homem nunca tinha visto rinoceronte. Assustou-se.
– Que é aquilo? Aquele monstro?
– Não tenha medo – respondi. – É um rinoceronte de mentira que Pedrinho fez. De papelão. Não chifra.
– Mas como está pastando? – perguntou ele.
– Está pastando de mentira, bobo. Tudo é de mentira. Pedrinho é um danado para fazer coisas assim.
O homem acreditou e foi se aproximando do Quindim. E eu:
– O Andrezinho está escondido atrás desse bicho de papelão.
Ele foi chegando, chegando… De repente, gritei:
– Pega, Quindim! – E Quindim deu um daqueles botes famosos – com o chifrão apontado, feito lança de Dom Quixote. Nossa Senhora! Queria que vocês ouvissem o berro que o homem deu! Saiu numa disparada que mais parecia veado. Na porteira do pasto tropicou numa pedra e fez o mesmo que Rocinante: afocinhou. Rachou o nariz. E Quindim em cima, fuqt fuqt, espetando-o com o chifre. E eu cá a berrar…
– Espere, Emília – disse Narizinho. – Esse sonho está muito bem arranjado para ser verdadeiro. O que você está fazendo é nos tapear com uma das suas lorotas.
Nesse momento entrou Dona Benta, que vinha continuar a história. Sentou-se e disse:
– Muito bem. Onde ficamos ontem?
– Dom Quixote estava outra vez na estrada, em companhia de Sancho, conversando sobre a ilha – lembrou Pedrinho.
– Isso mesmo – disse Dona Benta. – Estavam a conversar sobre a futura ilha de Sancho, quando o herói viu ao longe uns vinte ou trinta moinhos de vento.
– Sancho, meu caro Sancho! – bradou Dom Quixote. – A fortuna começa a favorecer-nos. Não vês lá ao longe aquele exército de gigantes?
– Gigantes? – repetiu o escudeiro voltando-se para todos os lados. – Não vejo nem sombra de gigantes, senhor…
– Aquilo, acolá – disse Dom Quixote, com o magro dedo apontado.
– Oh, senhor! Aquilo nunca foi exército de gigantes. Não passa duns tantos moinhos de vento. Nada mais.
– São gigantes, sim – insistiu o herói; – vou combatê-los. Depois de derrotados, ficaremos com os despojos. Ajoelha-te, Sancho, e reza enquanto dou cabo dos monstros – e, sem esperar resposta, cravou as rosetas nos ossos de Rocinante, partindo aos berros: – A mim! A mim, covardes ladrões! Eu sozinho, com esta lança, vos reduzirei a trapos.
O vento nesse instante aumentou, de modo que as asas dos moinhos começaram a girar com maior rapidez.
– Virai esses braços quanto quiserdes! – berrava Dom Quixote. – Ainda que tivésseis mais braços que o gigante Briareu, do mesmo modo eu vos reduziria a trapos.
Estava já perto. Enristou a lança e atacou o moinho mais próximo, espetando o ferro numa das asas – e o que sucedeu foi algo espantoso. A asa em movimento colheu cavaleiro e cavalo e os arremessou para longe, em pandarecos.
Ao ver o desastre, Sancho, que ficara a rezar, esporeia o burro. Corre em socorro do amo. Encontra-o por terra, estirado, imóvel.
– Eu bem disse, meu amo, que os vultos eram moinhos e não gigantes. O meu amo não me deu crédito – agora está aí escangalhado, a gemer…
– Cala-te, Sancho – respondeu Dom Quixote -, pois as coisas da guerra, mais que quaisquer outras, estão sujeitas às mudanças e aos caprichos da fortuna. Fica tu sabendo, Sancho, que o meu mais cruel inimigo é o terrível encantador Freston. Já me roubou a livraria; agora, para me tirar a honra de vencer estes gigantes, transformou-os em moinhos. Paciência. Haja o que houver, a minha fiel espada tem que vencer no fim – e Freston será castigado.
– Amém! – tornou o escudeiro, e ajudou o moído amo a repimpar-se sobre o pobre Rocinante, que mal podia agüentar-se de pé.
O pior foi a lança do cavaleiro ter-se partido em três pedaços – e um cavaleiro sem lança perde o jeito. Isso provocou no herói da Mancha as seguintes considerações:
– Certa vez um grande paladino espanhol, de nome Diogo Peres, quebrando a espada numa briga, arrancou um tronco de carvalho e com ele destroçou tal quantidade de mouros que recebeu a alcunha de Diogo Machuca, nome com que mais tarde se honraram todos os seus descendentes. Vou fazer o mesmo. Afeiçoarei com as minhas próprias mãos uma nova lança, com a qual assombrarei os mundos.
– Assim o permita Deus! – exclamou Sancho, com os olhos postos na figura alquebrada do cavaleiro, atitude que lhe causava má impressão. – Senhor meu amo, acho bom que se endireite um pouco mais na sela. Quem o vir assim há de jurar que é corcunda…
– Confesso-te, Sancho, que esta queda me achatou bastante; e se não me queixo, nem gemo as dores que sinto, é que um cavaleiro não deve jamais queixar-se, nem gemer, ainda que lhe ponham todas as tripas de fora.
– Oh – exclamou Sancho -, está aí uma coisa que eu jamais faria. Não sei resistir. Ao menor arranhão, berro e gemo que nem cachorrinho novo ao qual cortam a cauda. Mas, diga-me, senhor, não acha que sejam horas de cuidar da pança?
– Come tu, meu Sancho. Come tu, já que tens fome. Eu não careço de alimento.
O escudeiro não acreditou muito naquilo; mas em vez de contrariar o amo, cruzou uma perna sobre o cabeço da sela, abriu um dos alforjes, sacou de dentro parte do que havia e foi enchendo o bucho.
Também não se esqueceu da cabaça de vinho, que ficou muito mais leve.
