Desistória – capítulo 6.
E não sabes que és um miserável e infeliz e pobre e cego e nu.
6. o alvorecer da loucura.
minha vida se compõe de duas histórias: antes de mim e depois de mim.
antes de mim é aquele trágico período de minha infância e adolescência, quando as coisas que eu vivia eram tidas por não vividas. o pai e a mãe e o corcunda não acreditavam em nada do que eu contava. uma ou outra vez eu notei que eles se entreolhavam com maliciosa cumplicidade, deixando-me num confuso estado de perturbação: eu vivia ou não? estava morto ou não? as cartas de minha mãe, todavia, descobertas após sua morte, me deram a certeza de que eles me tomavam por louco.
depois de mim é o resto de meus dias, após a noite da grande revelação, quando descobri que eles é que estão loucos. e que eu, como único ser vivo a ter exata noção dos fatos, tenho que me resignar com esta grandiosa missão de suportar pelos homens o seu insustentável fardo; tão pesado e indesejado, que, aos poucos, após provação e provação, tive que me transformar no deus que tenho sido. e digo que só esta metamorfose sublime, apaixonada e dramática, foi que tornou suportável ao meu coração a dor causada pelo magno pecado de existir. e também sentir que paguei parte de minhas culpas acendendo aos homens um caminho de luzes e verdades eternas, dando-lhes um sentido para a vida vã de banidos dos três paraísos.
começo de um pouco antes do começo. meu pai era senhor de uma vasta região. morava com sua filha num enorme palácio, cheio de criados e parentes. a vida no palácio, era uma festa inacabável, a vida no palácio. músicos e dançarinos e artistas animavam os banquetes e os pratos se sucediam com fartura. eu não existia então. o corcunda me contava estas histórias. e contava que, terminado o banquete, todos se punham a ouvir os peregrinos viageiros com suas fantásticas narrativas inacreditáveis. meu pai passava por excelente anfitrião, vinha gente de todos os lugares visitar suas terras. de tão longe vinha gente, contava o corcunda, que algumas pessoas diziam ter atravessado mais de sete mares, de tão longe vinham; tão longe e tão longe que não se podia acreditar que vivesse gente àquela distância de nossas terras. e todos aqueles estrangeiros dormiam e comiam no palácio de meu pai e depois do banquete falavam de seus estranhos e inusitados costumes. meu pai os despedia com presentes graciosos e lhes desejava tranqüila viagem.
naqueles tempos os donos das terras tinham um poder de reis. recebiam palácios e fazendas como herança e dominavam suas regiões com severidade e violência. eram os senhores da justiça. suas terras eram habitadas por camponeses muito pobres que não tinham outro serviço se não cultivar os campos e pastorear. como as terras não lhes pertencessem, eram obrigados a pagar aos senhores o aluguel do chão. os pagamentos eram feitos em mercadorias e controladores senhoriais fiscalizavam cruelmente as entregas dos impostos. as vidas dos camponeses não tinham valor algum, qualquer pequeno delito era punido com a máxima pena: a morte, executada num local especial, geralmente dentro dos muros dos palácios: primeiro, castrava-se os culpados; as mulheres tinham os seios perfurados com estiletes; depois eram decepados os pés, as mãos e finalmente a cabeça. quando as vítimas perdiam os sentidos, após a decepamento de seus membros, os carrascos esperavam que tornassem à consciência. e as pessoas passeavam em torno, admirando a construção portentosa do palácio, conversando e comendo suas salsichas e seus chouriços, aguardando a continuidade das torturas.
não havia lei escrita naquele tempo, a não ser um tipo de constituição que o senhor recebia dos pais, onde vinham relacionados os seus direitos. de cinco a cinco anos, membros mais velhos da família reunida podiam alterar a lista de direitos, ampliando assim o alcance da arbitrariedade dos senhores. vez por outra, constituições vizinhas entravam em conflito sobre fronteiras e os senhores faziam pequenas guerras entre si: os camponeses eram armados e estabeleciam-se novas demarcações. algumas raras vezes uma região era dividida entre herdeiros. no geral, um senhor acabava por dominar o vizinho, destruía-lhe o palácio ou mudava-se para ele, se assim fosse mais conveniente. fazia um recenseamento de todos os habitantes subjugados e criava o seu novo código de direitos.
e foi assim que se passaram anos e anos. meu pai e sua filha envelheciam e para todos os pretendentes que apareciam para se casar com a jovem, o meu pai, contava o corcunda, meu pai apresentava uma série de exigências impossíveis de cumprir, enumerando a seguir os defeitos que via no pretendente. estes rareavam dia a dia, primeiro por saber das dificuldades que encontrariam, depois porque a virgem avançava em idade. a partir de um certo tempo, não mais se cogitou, então, de casamento. ambos estavam velhos, meu pai com setenta anos e sua filha com cinqüenta e cinco anos. a vida no palácio não perdera a vitalidade, mas tivera diminuído bastante o seu ritmo.
então, chegou um dia um estranho viajante. e o corcunda contou que o vira; ele era alto e magro, de rosto cadavérico, branco, olhar de florestas misteriosas e montanhas escondidas por neblinas. vestia um manto preto e era de se estranhar que suas barras não estivessem empoeiradas como as barras dos mantos dos comuns dos viajantes. ele nada comeu, além de um pedaço de pão e nada bebeu se não uma taça de vinho. e instado a falar de viagens e de sua terra, ele disse que apenas queria dar uma notícia: a de que a peste rondava o reino do meridião e o do setentrião e o do nascente e o do poente. e que a morte se espalhara por todo o mundo, sangrando com a mesma impiedade indiferente os velhos e os novos e os bons e os maus. então ele tomou uma taça, encheu-a de água, fez uma reverência à filha de meu pai, depois a meu pai mesmo, e saiu silencioso, levando a taça. ninguém o viu mais. é claro que não foi bem assim que contou o corcunda; quando eu percebi um pedaço de verdade escondido atrás de suas mentiras e outro pedaço de verdade guardado atrás de seus silêncios, conduzi a história de acordo com a minha verdade, que é a única verdadeira.
meu pai anunciou que na manhã seguinte fecharia as muralhas que envolviam o palácio; que nos celeiros havia trigo e milho e aveia para muitos anos; que aquele que desejasse permanecer ali poderia fazê-lo; e que se fosse quem assim o entendesse.
e na manhã seguinte o palácio amanheceu vazio. tinham ficado apenas ele, sua filha e o corcunda. assim contou o corcunda e assim decidi que fora.
