Monteiro lobato

A Reforma da Natureza – Segunda Parte

Capítulos 1, 2 e 3

 

1 – O Laboratório do Visconde

A viagem de Dona Benta e seus netos à Europa, quando foram dar arrumação no pobre continente destruído pela guerra, fez do Visconde de Sabugosa um sábio ainda maior do que era. Durante a estada lá o famoso sabuguinho teve ocasião de conhecer diversos cientistas notabilíssimos, com os quais aprendeu grandes coisas. Seus estudos se concentraram na fisiologia, isto é, na ciência que estuda o funcionamento dos órgãos nos seres vivos.

Ele aprendeu, por exemplo, que no corpo do homem e de outros animais existem umas coisas chamadas glândulas, que são da maior importância para a vida. As glândulas é que dirigem tudo; fazem o corpo crescer, engordar, suar; fazem vir água à boca quando o freguês se lembra duma coisa gostosa ou sente o cheiro dos bolinhos de Tia Nastácia. Uma enorme chamada fígado produz um líquido grosso, amarelo-esverdeado, de nome bílis, que ajuda a digestão dos alimentos e dissolve gorduras – faz com elas o que faz o sabão. Outras glândulas chamadas rins, que têm a forma de dois grandes caroços de feijão, filtram os venenos que se formam no corpo e os botam para fora com a urina. Há as glândulas mamárias que produzem o leite. O pulmão é outra glândula muito importante…

– Mas então aquilo lá dentro é só glândulas? – perguntou Emília, a quem o Visconde estava explicando aquelas coisas. Dona Benta respondeu:

– Há dentro do corpo humano numerosas glândulas. São como as usinas das cidades, que produzem todas as coisas necessárias à vida urbana. Sem essas usinas e sem essas glândulas, nem as cidades nem os organismos poderiam viver e desenvolver-se. Quando a gente sua ou chora, donde vêm o suor ou a lágrima?

– Duma usininha qualquer.

– Exatamente. Vêm das glândulas sudoríparas e das glândulas lacrimais, usininhas produtoras do suor e das lágrimas. Até para essa gordurinha que as pessoas têm sobre a pele, são necessárias glândulas – as glândulas sebáceas.

– Produtora de sebo, que feiura! – exclamou Emília. – De modo que nós somos lá por dentro uma verdadeira cidade com fábricas até de sebo

– Como não? E uma cidade complicadíssima. Além dessas usinas de bílis, de lágrimas, de suor, de sebo, há as que produzem o suco gástrico lá no estômago; há as que produzem a saliva na boca…

– Que porcaria! Saliva é cuspo. Para que serve cuspo? Só para cuspir.

– Não, Emília. A saliva tem um emprego muito importante na digestão das comidas. A gente come arroz, feijão, carne, batatas, mil coisas. Mas isso tem que ser transformado em sangue, porque o sangue é o mel que alimenta todas as células que compõem o corpo.

– Que engraçado!…

– E não é só isso. Não basta que o sangue apareça, é preciso que se conserve sempre no ponto, bem vermelhinho e fresco; e é ainda uma glândula, o pulmão, que faz o serviço, consertando o sangue estragado.

– Mas como é que o sangue se estraga?

– Muito simples. O corpo é feito duns tijolinhos microscópicos chamados células. Esses tijolinhos só se alimentam de sangue. Para alimentá-las é que há sangue. Mas do sangue que chega até eles, só tomam os elementos de que precisam, e rejeitam o resto. Esse resto é o que chamo sangue estragado.

– E para onde vai ele?

– Vai para o pulmão, que é a oficina consertadora do sangue. Quando chega lá, o sangue estragado sofre uma limpeza em regra, toma um banho do ar que respiramos, escova–se, penteia-se, fica de novo vermelhinho e no ponto, como era.

Dali segue para o coração. O coração o bombeia, forçando-o a fazer outra viagem pelas artérias até chegar a todos os tijolinhos do corpo. E assim por diante.

– Mas como o sangue estragado não se mistura com o fresco?

– Cada um tem o seu caminho. O sangue fresco segue pelas artérias, que são canaizinhos que se vão desdobrando como galhos de árvores, até ficarem finos como agulhas. Já o sangue estragado segue por outra rede de canaizinhos chamados veias. As artérias são como a canalização de água das cidades, na qual só corre água limpa. As veias são como as canalizações das águas servidas.

Emília estava pensativa, com os olhos longe.

-Que bonito se fizéssemos uma viagem pelo corpo humano!- murmurou.

– Pois se fizéssemos essa viagem, eu só queria ver as glândulas – disse o Visconde. – Elas são umas danadas. Não há o que não façam. E existem duas que me interessam muito: a tireoide e a pituitária.

– Que nomes!

– A tireoide mora no pescoço. É pequenina, com a forma dum U e cor de borra de vinho. Vive cheia dum líquido amarelo, chamado tiroxina.

– Para que serve?

– Ela derrama esse líquido no sangue com resultados maravilhosos. Faz que a criatura cresça, imagine! E também faz que tudo fique ativo no corpo. É como um chicote. Quando há falta de tiroxina, o corpo amolece, vem a preguiça, o pulso cai, a temperatura desce, o freguês perde o apetite, a fala fica arrastada, o cérebro emburrece, o cabelo rareia, a pele torna-se amarela, a carne incha – um desastre, Emília! As crianças com pouca tiroxina no corpo param de crescer e ficam bobas – ficam cretinas.

– Ah, então, cretino quer dizer isso?

– Sim. Um cretino é uma pobre criatura em quem a glândula tireoide está desarranjada. Se você conserta a glândula, a criatura muda imediatamente e perde o cretinismo.

– Que coisa engraçada!

– Outra danadinha é a Senhora Dona Pituitária. Muito pequena, assim duma meia polegada de tamanho. Mora dentro da cabeça. O seu caldinho, a pituitrina, tem um efeito prodigioso no organismo, sobretudo nos intestinos ou tripas, e nos rins. Se ela produz o tal líquido mais do que na conta certa, o freguês sente um apetite furioso por açúcar e doces, e engorda até ficar obeso.

– Vamos, Visconde – disse Emilia assanhada – vamos fazer uma viagem pelo corpo humano! Está com jeito de ser mais interessante até do que a Lua.

– Havemos de ir, e então veremos que o caldinho da pituitária também governa o crescimento do corpo. Quando o caldinho é demais, o freguês fica gigante; quando é de menos, fica nanico ou anão.

– Então quando a gente vê o Major Trancoso, que tem um metro e noventa de altura, já sabe que ficou assim por causa de muita pituitrina?

– Está claro. E quando vemos o Zezinho da Estiva, que só tem sete palmos, já sabemos que ficou assim por falta de funcionamento da pituitária.

O Visconde conversou longo tempo sobre aquele assunto, e falou na glándula pâncreas, na glândula pineal e em todas as mais que conhecia. Da glândula pineal disse que era a mais misteriosa. Os sábios ainda não sabem para que ela realmente serve. Tem o tamanho de um caroço de ervilha e está localizada no cérebro. Os antigos filósofos diziam ser ali que morava a alma das criaturas.

– E que dizem os modernos filósofos?

– Os filósofos modernos não se metem a falar das glândulas. Deixam isso por conta dos fisiologistas.

– E que dizem os tais fisiologistas?

– Dizem que a glândula pineal parece ser um olho que os animais vertebrados já tiveram e hoje não têm mais. Esse olho foi desaparecendo e está reduzido àquele caroço de ervilha. Nessa viagem ao Pais do Corpo eu iria decifrar o mistério da glándula pineal.

E tanto o Visconde falou naquilo que lhes veio a ideia de organizarem um laboratório para experiências em animais.

 – Se são as glândulas que tudo regulam nos seres vivos – disse Emilia, – nós podemos estudar as glândulas e enxertar umas nas outras, e fazer mais coisas, para ver de que maneira os animais ficam.

O Visconde, era realmente um sábio, nunca rejeitou ocasião de aprender coisas novas; por esse motivo aprovou a ideia da Emília.

– Mas… e o microscópio? –  disse ele. – Sem microscópio nós não nos arranjamos.

– Temos o binóculo de Dona Benta disse – Emília. Com um pouco do caldinho da glândula faz de conta, podemos transformá-lo num maravilhoso microscópio.

– E o lugar do laboratório?

– Na Cova do Anjo. É o único ponto seguro aqui no sítio.

A Cova do Anjo era aquele enorme oco da Figueira Grande onde Emília tinha escondido o Anjinho de Asa Quebrada no dia em que as crianças inglesas invadiram o sítio. Lá ninguém entrava, porque era escuro e havia muito morcego. Podiam arrumar o laboratório no oco, sem que os da casa percebessem – porque se percebessem haviam de implicar-se, sobretudo Pedrinho, que depois da viagem à Europa andava todo totalitário, mussolinesco.

Num instante arrumaram o laboratório, com o binóculo transformado em excelente microscópio, com vidros vazios, uma lâmina Gillette para fazer de bisturi, várias agulhas e alfinetes, algodão, iodo etc. Emília também arranjou para o Visconde um aventalzinho e um gorro branco, dos que os sábios usam nos laboratórios de verdade.

– Muito bem. O laboratório está pronto. Temos agora obter “pacientes” – disse o Visconde, pondo o avental.

– Que pacientes? – perguntou Emília.

– Os seres vivos em que vamos fazer as experiências – explicou o grande sábio. Esses seres, se são gente, recebem o nome de anima nobile – almas nobres; se são bichos, recebem o nome de anima vile. – almas vis.

E começaram com as formigas. Emilia caçou uma porção de saúvas das mais cabeçudas e trouxe-as num vidro vazio.

– Pronto, Visconde. Aqui temos um bom lote de anima vile, como dizem os sábios

 

2 – Os Estudos.

Ninguém soube o que os dois fizeram durante os dias e dias que lá passaram a examinar o interior das formigas e a descobrir-lhes as glândulas. E depois de descobertas as glândulas, fizeram remeximentos vários, empastelavam umas, misturavam outras, ou enxertavam as glândulas de uma formiga nas de outras, para “dobrar a força”. Pela maior parte as pobres saúvas não resistiram à operação; mas com os aperfeiçoamentos da “técnica” do Visconde, muitas começaram a salvar-se; e depois de “operadas” eram postas num pastinho, fora do oco, com água para beber e ervinhas para se divertirem.

Depois chegou a vez duma minhoca, que foi “reglandulada”, como dizia o Visconde; e por fim operaram uma centopeia, esse esquisito bichinho que tem cem pernas. Desaforo! Um bichinho com tantas e outro sem nenhuma.

Emília aproveitou a ocasião para arrancar seis pernas da centopeia e enxertá-las na minhoca.

Estavam nisso, quando sobreveio uma semana inteira de chuva, durante a qual os dois sabiozinhos não puderam sair de casa. Assim, porém, que o tempo endireitou, correram para lá mas com grande desapontamento viram os cercados vazios. Todos os operados tinham fugido!

Depois que se cansaram de operar formigas, iniciaram experiências nos grilos, e tiveram de fazer outro pastinho para os grilos operados. Um dia Emília entrou no laboratório com uma pulga.

– Hoje, Visconde, a novidade vai ser esta pulga. Vamos fazer nela um enxerto de tireoide de formiga e pituitária de grilo. Há de dar qualquer coisa interessante.

E fizeram a operação.

– Maçada! exclamou Emília. – Tanta trabalheira – para um resultado zero. A maldita enxurrada levou daqui todos os nossos “pacientes”…

– O trabalho da ciência é penoso, minha cara – disse o Visconde. – Cumpre recomeçar. Os verdadeiros sábios nunca desistem das suas empresas.

Mas Emília, já enjoada daquele destripamento e enxertamento de bichinhos, desistiu.

– Para mim, chega. “Passo.” Vou agora ajudar Pedrinho no aeroplano sem motor que ele está construindo. Imagine que gostosura, Visconde: dar voos por esses céus sem nenhum motor a atormentar os ouvidos da gente com aquele horrível barulho!…

– Pois eu vou refazer todas as experiências – disse o abnegado endocrinologista.

Endocrinologista é o nome dos sábios que estudam as glândulas do corpo. O nome é feio, comprido e difícil, mas a coisa é boa.

 

3 – A PULGA GIGANTESCA

Muitas semanas depois estava Dona Benta na varanda quando chegou o correio com os jornais do dia. Ela desdobrou-os e pôs-se a lê-los. De repente fez cara de interesse e disse a Narizinho:

– Uma coisa curiosa vem neste jornal. Leia. A menina leu. Era uma notícia que dizia assim:

“Um caçador de Juiz de Fora anda a contar um caso que se non è vero è “bene trovato”. Diz ele que estava numa caçada de perdiz, num campo dos arredores desta cidade, quando viu aparecer no céu uma Coisa Preta, a qual foi crescendo de vulto e por fim pousou a cem metros do ponto em que ele se achava à espera da perdiz. Uma Coisa Preta e enorme, assim do tamanho duma anta. Intrigado com aquilo, armou a espingarda e aproximou-se. Mas quando levou a espingarda ao ombro para atirar, a Coisa deu um pulo e sumiu no céu. Diz que se trata dum animal esquisitíssimo, como jamais ele viu outro, nem teve notícia por boca de alguém. Dava ideia de uma monstruosa pulga.”

– Que poderá ser isso? indagou Dona Benta, quando a menina concluiu a leitura.

– Bobagem, vovó! disse Narizinho. Essa gente dos jornais vive inventando mentiras.

E a coisa ficou por ali.

Dias depois, entretanto, os jornais repetiram a notícia mais ou menos em iguais termos, mas já com a Coisa em outro lugar. Fora vista em Catanduva, no estado do Paraná. Depois apareceu em Pilão Arcado, na Bahia. E depois em Blumenau, no estado de Santa Catarina; e em Vassouras, estado do Rio. E sempre da mesma maneira: descia do céu como desce uma bala de canhão, numa curva; sentava-se em terra; e, de repente, pulava de novo, desaparecendo no ar.

A repetição do caso fez que os homens de ciência se interessassem pelo assunto. O pavor nas cidades em que o monstro aparecia era enorme. Lendas se formavam, as mais absurdas. Era opinião geral tratar-se duma pulga gigantesca, porque não só a Coisa tinha o jeito duma pulga, como o seu modo de pular era o da pulga.

Pedrinho interessou-se vivamente pelo caso; começou a colecionar as notícias e a compará-las. O absurdo, porém, era

tamanho, que ele chegou à conclusão de tratar-se de uma tremenda patifaria dos jornais do país e de fora, com o fim de criar um assunto que aumentasse a venda avulsa.

– Bobagem – disse ele. – A mim é que não engazopam, estes trouxas.

         Estavam nesse ponto, quando apareceu no sítio o Zé Candorra, um caboclo feio que morava nas vizinhanças.

         – Que há, Candorra? – perguntou Dona Benta ao recebê-lo na varanda.

– O que há, Dona Benta, é que vou me mudar desta zona e vim oferecer meu sítio. A terrinha é boa para mandioca e milho. A senhora faz um negocião. Dou “quage” dado.

– Mas por que, meu caro, quer mudar-se de uma terra onde morou toda a vida?

O caboclo inventou um pretexto qualquer; Dona Benta, porém, que era “psicóloga”, viu que ele estava mentindo, e disse:

– Conte a verdade, Candorra. Estou lendo nos seus olhos que a razão não é nada disso que sua boca está dizendo. Fale a verdade, porque eu compro o seu sítio de qualquer jeito, seja lá qual for a causa da sua mudança.

O caboclo, desmoralizado, resolveu dizer tudo.

– Não vê que duns tempos pra cá eu ando meio assustado? Outro dia entrei no mato para colher umas brejaúvas e, de repente, que é que a senhora imagina que eu vi?

         – ?

– Vi, Dona Benta, uma formiga do tamanho dum tatu! Não “sirria”, não, Dona Benta. Minha mulher também “sirriu” quando eu contei a história, mas pra castigo também topou com outra formiga daquela casta, e agora está que nem pode mais de medo, a coitada. Até já se mudou com as crianças para a casa do compadre Zidoro, lá na Água Fria.

– Não pode ser, Candorra! disse Dona Benta. As formigas são animaizinhos velhíssimos, de milhões de anos, e não consta que até agora aparecesse nenhuma maior que o içá. Nem na África, que é terra dos bichos grandes, há formigas do tamanho de tatus.

– Pois a que eu vi, Dona Benta, era “inté” maior que um tatu – e a que minha mulher viu, diz ela, tinha o porte duma capivara.

Dona Benta riu-se.

– Vocês estão sendo vítimas de alguma alucinação, meu caro. Como podem ver coisas que não existem, nem nunca existiram? Absurdo.

– Dona Benta – disse o caboclo – eu não quero que a senhora acredite em nada, só quero que compre minhas terras, porque por aqui não fico nem mais um dia só. T’esconjuro!

Pedrinho, Narizinho e Emília estavam presentes, e muito interessados na conversa.

– Isso é das tais coisas que só vendo – interveio Pedrinho. – Leve-me lá onde está o formigão, amigo Candorra. Quero ver para crer.

– Também vou – disse Narizinho. Também sou como São Tomé. E você, Emília?

Emília respondeu que não, que tinha qualquer coisa a fazer no pomar, mas ficou com um ar esquisito, ressabiada.

E assim que Pedrinho e a menina saíram com o Candorra, correu ao laboratório.

– Visconde – disse ela – o Candorra apareceu com a história duma formiga do tamanho de um tatu, e a mulher dele viu outra ainda maior, assim do tamanho duma capivara. Estou com medo que sejam as formigas que nós operamos e fugiram do cercadinho…

– Há de ser – disse o Visconde, sem tirar o olho do microscópio. – Nós fizemos tremendos enxertos de pituitária, e se as formigas não morreram, podem muito bem estar do tamanho de tatus, e até maiores.

– E como é agora? — perguntou Emília, assustada.

– Agora é isso mesmo – respondeu o Visconde. – Elas andarão aí pelo mundo, a assustar os ignorantes, e por fim se extinguirão, porque não podem reproduzir-se. Oh, se se reproduzissem, seria um enorme transtorno para as gentes! Imagine milhões e milhões de formigas do tamanho de tatus, espalhadas por todas as terras! Como iria arranjar-se o Homo sapiens? Se sendo as formigas pequeninas como são elas já tanto o atrapalham, imagine se fossem do tamanho de tatus!

Só nesse momento ergueu os olhos do microscópio.

– Pois eu queria ver isso – continuou ele. – Se é verdade, nós, sem o querer, fizemos a maior descoberta do século, Emília e vamos ganhar o prêmio Nobel! Podemos aplicar o processo nos bois, e obter bois do tamanho de montanhas. Para o abastecimento de carne aos açougues, um boi desse vulto seria a maior das minas.

Emília mostrava-se apreensiva; por fim falou:

– Quer dizer que a tal Coisa Preta, que os jornais contam que aparece ora num ponto ora noutro, é a nossa pulguinha operada?…

– Pode ser – concordou o Visconde. – Mas também essa pulga não se reproduzirá. Morrerá qualquer dia e pronto.

– As últimas notícias – continuou Emília – dizem que ela ataca os bois e carneiros para beber-lhes o sangue…

– Nada mais natural. As pulgas são “hematófagas”, isto é, bebedoras de sangue. As pequeninas picam os animais e sugam uma gotinha. As “nossas”, se são grandes assim, só poderão encontrar sangue suficiente num boi ou num carneiro. Nada mais natural.

– E de que tamanho será o pulo que elas dão? – quis saber Emília.      – Muito fácil fazer a conta – respondeu o Visconde tomando o lápis. – Pelo que você me diz, essa pulga tem o tamanho duma anta.

– Duma anta grande – confirmou Emília.

– Muito bem. Uma pulga de cachorro pesará um miligrama, e uma anta grande pesará uns duzentos quilos. Ora, como duzentos quilos correspondem a duzentos milhões de miligramas, a “nossa” pulga é duzentos milhões de vezes mais pesada que a pulga comum. E como uma pulga comum dá pulos de um palmo, a nossa pulgona poderá dar pulos de duzentos milhões de palmos, ou seja, quarenta e quatro mil quilômetros, ou mais de uma volta inteira em redor da Terra!

Emilia riu-se.

– Que absurdo, Visconde! O pulo não pode estar em relação com o peso. Por muito favor estará em relação com o tamanho.

– Nesse caso – disse o Visconde – temos de fazer outra conta. A pulga comum tem dois milímetros de comprimento. A anta grande terá dois metros, ou sejam dois mil milímetros. Logo, a anta é mil vezes maior do que a pulga comum. E como a “nossa” tem o tamanho duma anta, pulará mil vezes mais do que a pulga comum. Pulará, portanto, mil palmos, ou sejam duzentos e vinte metros.

– Bem, isso já está mais razoável disse Emília, concordando com a segunda matemática do Visconde e pôs-se a refletir.

– Em que está pensando? – perguntou o Visconde.

– Estou pensando que se a guerra não tivesse acabado, os homens eram capazes de utilizar as nossas pulgas para os bombardeios de cidades. Engraçado! Em vez de fábricas de obuseiros, fariam criações de pulgas que levassem uma bomba atada à cauda…

Logo que Narizinho e Pedrinho chegaram ao sítio do Candorra, foram para o mato onde andava a tal formiga gigante. Pedrinho levava o bodoque e um facão. Se encontrasse o monstro, faria como Hércules lá na Grécia: amassava-lhe a cabeça com uma pelotada, depois cortava-lhe o pescoço.

Mas nada acharam; por maior que seja uma formiga, não é fácil encontrá-la no meio da mata, de modo que a excursão esteve a pique de falhar. Pedrinho só encontrou dois periquitos e um tucano, aos quais não fez nada porque perto de Narizinho ele não tinha ânimo de usar o bodoque. A menina não admitia periquiticídios nem tucanicídios.

– Qual, “Seu” Candorra! – disse ele. – Parece que o caso é mesmo como vovó disse: alucinação. Vocês, gente do mato, enxergam muita coisa que não existe. É o medo. Nada para criar monstros como o Senhor Medo.

– Mas eu juro que vi, Pedrinho! Vi com estes olhos que a terra há de comer. E minha mulher também. Então, se não fosse verdade, tinha ela fugido com as crianças para a casa do compadre Zidoro, que é uma bisca?

– Está bem. Se você jura, é outra coisa. Tenho de acreditar. Mas é uma pena que essa formiga só apareça para você e sua mulher…

Nem bem acabou de dizer isso e uma frialdade de sorvete lhe correu pela espinha. Qualquer coisa estava se mexendo na moita próxima.

         – Pssiu!

Pedrinho aproximou-se pé ante pé, com o bodoque apontado. Foi chegando, chegando… De repente – prrr!, uma – coisa enorme saltou da moita e sumiu no ar.

         Pedrinho ficou de coração aos pinotes. Voltou correndo para perto da menina e do caboclo.

– Que susto!… Pude ver bem. Não era a formiga gigante, não, mas um grilo assim do tamanho do Rabicó! Eu podia ter atirado, mas minha mão tremeu na hora. Um grilão verde. Assim que me percebeu, armou pulo e sumiu no céu.

Narizinho estava impressionadíssima.

– Eu também vi – disse ela – e se é assim, a história da formiga monstro pode ser verdadeira, e também a história daquela Coisa Preta que pula! O Candorra e os jornais estão certos. Que poderá ser isso, santo Deus? Mudanças assim nos animais da Natureza são coisas de que os livros não falam. Nunca houve.

– Não sei – disse Pedrinho. – Estou com as ideias atrapalhadas. Não compreendo nada de nada.

Voltaram para casa correndo.

– Vovó – disse Pedrinho ao entrar, – não encontramos a formiga do Candorra, mas a história deve ser certa, porque dei com um grilo do tamanho do Rabicó e não foi alucinação. Narizinho e o caboclo também viram quando o grilão pulou da moita e lá se foi!…

Dona Benta arregalou os olhos. Tia Nastácia, que ia passando, murmurou “Credo!” e fez três pelos-sinais.

– Se as coisas aqui vão ficar como lá na tal Grécia, eu me mudo do mundo – resmungou a preta.

– E para onde vai, boba? – perguntou a menina.

– Volto para a Lua. Lá ao menos só há o dragão de São Jorge, que é manso. Grilo do tamanho de Rabicó, formiga do tamanho de tatu, pulga do tamanho de anta, isto então é vida? Se todos os bichos começam a aumentar de porte e invadem a casa da gente, onde iremos parar? Se aparece aqui uma formiga desse tamanho, eu morro de medo!… – ah, se morro.

Pois eu prego-lhe uma bodocada – disse Pedrinho. – Se fosse vespa, vá lá; mas formiga… Medo não tenho.

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