A Reforma da Natureza – Segunda Parte
Capítulos 4, 5 e 6
4 – A NOVENTAEQUATROPEIA
Dias depois a pobre Tia Nastácia quase realmente morreu de medo. Estando a fazer pamonha de milho verde, foi ao mato em busca de folhas de caeté, para enrolá-las. A moita de caetés era numa grota, por onde passava um riacho. Estava a pobre preta cortando as folhas com o facão de Pedrinho quando, de repente, deu um grito. Largou tudo e voltou para casa na velocidade de cem quilômetros por hora.
Entrou sem fôlego, esbaforida:
– Ah, ah, ah…
Dona Benta correu-lhe ao encontro.
– Que é isso, Nastácia? Que aconteceu?
E a negra:
– Ah, ah, ah…
Não conseguia falar.
Narizinho trouxe um copo d’água..
– Beba – ordenou.
A negra bebeu um gole, e continuou nos “ah-ah-ah” de quem perdeu o fôlego, só que mais molhados. Por fim, depois duns cinco minutos, conseguiu desatar a lingua,
– Vamos embora daqui, Sinhá. O sitio está enfeitiçado. Nem queira saber o que eu vi lá na grota…
Mas que foi? Fale…
– Um bicho impossível, Sinhá. Pior que o Minotauro. Era tanta perna…
Com muita dificuldade a boa negra explicou o acontecido. Estava já no fim do corte das folhas de caeté, quando ergueu os olhos e deu com uma coisa compridíssima, parada, olhando para ela.
Era um bicho sem fim, amarelo sujo, grosso como um tronco de árvore e com aquela infinidade de pernas.
– Infinidade de pernas? – repetiu Dona Benta:- Como isso? Todos os animais têm duas, quatro ou seis pernas, como os insetos. Bicho com infinidade de pernas não há.
– Há, sim! – lembrou Emília. – A centopeia tem cem.
– É verdade – disse Dona Benta, – mas a centopeia é um pobre bichinho insignificante, aí de de tamanho de poucos centímetros
– Mas pode ter aparecido alguma grande – disse Emilia.
-Como aparecido, boba? Os animais não vão aparecendo assim sem mais nem menos.
– Pode, sim; alguma, por exemplo, que tenha a glândula pituitária muito desenvolvida…
Dona Benta arregalou os olhos. Aquilo da Emilia falar em pituitária estava lhe parecendo ainda mais estranho do que a “alucinação” de Tia Nastácia.
– Que história é essa, Emília?
– Foi o Visconde que me ensinou o caso das glândulas…
– Hum!
Nastácia continuou a descrever o monstro, e por fim Dona Benta teve de concordar com Emília. Sim, só podia ser uma gigantesca centopeia. Mas… mas, como?
Pedrinho já estava de bodoque em punho.
– Eu vou ver, vovó, e se for verdade…
Pedrinho foi e viu. O monstro ainda estava lá, parado, olhando. O medo de Pedrinho foi tal que voltou ainda mais depressa do que a negra e perdeu o bodoque pelo caminho.
– Ah, vovó, é mesmo! – disse ele depois de tomar fôlego. É uma centopeia monstruosíssima, cascuda, toda cheia de anéis, e com aquelas horríveis cem pernas.
– Noventa e quatro! – corrigiu Emília, sem que ninguém entendesse.
– Eu só tinha medo de vespa, vovó, mas a centopeia me fez correr. Tive medo, sim, confesso, e duvido que haja alguém no mundo que não tenha, que não corra de semelhante horror…
O caso deixou Dona Benta atrapalhadíssima. Evidentemente não era faz de conta, não. Era pura realidade. E embora nada tivesse visto com seus próprios olhos, não podia duvidar do testemunho de tanta gente, o Candorra e a mulher, Pedrinho, Narizinho, Tia Nastácia… E, no susto em que ficou, o remédio foi apelar para Emília.
– Emília, que que acha devemos fazer?
Emília já estava segura de que aqueles monstros eram os animaizinhos operados no laboratório do Visconde, e que portanto não havia perigo. Bastava matá-los e pronto. Quando um animal não se reproduz, também não se perpetua, e portanto não há perigo nenhum. E respondeu com a maior calma, embora um tanto misteriosa:
– A coisa é de “somenos importância”. Os “casos” são poucos. Assustam as gentes e só.
– Como sabe que são poucos? – perguntou Narizinho.
– Sei porque não ignoro – respondeu Emília, fazendo bico. – Isso não passa de distúrbios glandulares. Artes da tireoide e da pituitária……
Ninguém entendeu.
5 – O MEDO DO MUNDO
As experiências do Visconde foram em número de vinte e tantas, de modo que deviam andar soltos pela Terra uns vinte e tantos monstros incompreensíveis diversos com forma de formiga; um com forma de grilo; outro com forma de centopeia, e outro com forma de minhoca. Essa minhoca monstro fora vista pela primeira vez numa fazenda ali das redondezas. Um homem vinha vindo a cavalo e deu com ela na estrada. O cavalo assustou-se, jogou o homem ao chão e sumiu no galope. O pobre coitado chegou à fazenda a pé, todo amarrotado e trêmulo.
– O minhocão!… Vem vindo!… Na estrada… – foi o mais que pode dizer, mas bastou para que todos os moradores da fazenda corressem para o topo de um morro muito alto.
A notícia correu. Os jornais contaram o novo acontecimento na mesma coluna em que falavam das novas proezas da pulga gigante. Fora vista em Corumbá, depois em Manaus, depois em Belém do Pará.
Os jornais do mundo inteiro não tratavam de outra coisa. Os governos mexeram-se. Colocaram-se canhões antiaéreos em vários pontos para atirar contra a Coisa Preta – mas como, se nunca sabiam onde ela in aparecer? Aviões de caça andavam pelo ar, procurando-a.
O primeiro ponto em que a Coisa Preta havia aparecido fora em Juiz de Fora, de modo que uma comissão de investigadores internacionais foi ter àquela cidade. Queriam ver se descobriam o ponto de partida do monstro. La tomaram todas as informações possíveis; muita gente, além daquele caçador, havia visto a Coisa Preta passar pelo ar, e com essas informações os investigadores foram aos poucos se certificando de que o ponto de partida era nos arredores do Picapau Amarelo. Isso fez que o sítio de Dona Benta se tornasse o principal centro das investigações.
– Deve ser por aqui – dizia o Doutor Zamenhof, chefe da comissão. Por aqui foram avistadas as primeiras formigas monstros, a gigantesca Noventaequatropeia, descoberta pelo Senhor Pedro Encerrabodes de Oliveira, e também o grilão e o minhocão. Temos de organizar um cerco e irmos fechando o círculo.
Na véspera os jornais haviam dado notícia de que a Coisa Preta aparecera nos arredores do Canal do Panamá, e fora pilhada bebendo o sangue dum cavalo das forças americanas lá estacionadas. Assim que ela pulou, os canhões antiaéreos da defesa do Canal abriram fogo, e uma das balas a atingiu.
– Será que ela estalou ao morrer? – perguntou Emilia a Dona Benta.
– Estalou?…
– Sim, as pulgas morrem estaladamente….
Dona Benta riu-se.
– O jornal não diz nada, Emilia; mas, com ou sem estalo, a monstruosa pulga veio por terra e foi transportada para o museu de História Natural de Nova York. Conta ainda o jornal que a afluência de curiosos está sendo tamanha que há cauda na rua. Os sábios mostram-se intrigadíssimos; não sabem como explicar o estranho fenômeno.
– Há um sábio que com certeza sabe: o Visconde – lembrou Emília. E para mim o caso é dos mais simples: não passa de exageros da Senhora Dona Pituitária. Quando ela dá para fazer estripulias num corpo, ninguém pode com sua vida. Uma danadinha…
Dona Benta estranhou aquelas palavras, mas nada disse. Pedrinho vinha entrando com o Doutor Zamenhof, um sábio barbudíssimo, de óculos duplos no nariz.
– Vovó, aqui está o Doutor Zamenhof, chefe dos “procuradores” dos bichos monstruosos. Seus estudos indicam que o foco donde saem essas criaturas é aqui por perto, porque todos são primeiramente vistos aqui e só depois mais longe.
– A pulga não foi disse Dona Benta.- Apareceu pela primeira vez em Juiz de Fora, que é longe daqui.
– Engano seu, minha senhora. Encontramos aqui pelas redondezas um preto velho…
– O Tio Barnabé – adiantou Pedrinho.
– Perfeitamente – confirmou o sábio. – O Senhor preto Barnabé Semicúpio da Silva, morador numa casinha da ponte, declarou-nos ter visto essa pulga em seu pastinho. Mas não acreditou no testemunho dos próprios olhos, achou que talvez fosse “visão de negro velho”, e não falou no caso a ninguém. E viu-a dois dias antes do aparecimento do monstro em Juiz de Fora. De modo que todos os monstros que andam a assustar o mundo foram primeiramente vistos aqui. Logo, as probabilidades são de que o foco seja por aqui.
– Pode ser – disse Dona Benta, e eu não me admiro de nada. Tem acontecido tanta coisa neste meu abençoado sitio…
6 – OS DOIS COLEGAS
Dona Benta contou numerosas passagens dos assombros e espantos ocorridos ali: a viagem à Lua, a chegada do anjinho, a visita das crianças inglesas, a surra que o marinheiro Popeye levou etc. Depois contou que morava ali um grande colega do Doutor Zamenhof.
– Já ouvi falar. – disse este. O Visconde de Sabugueira, não é?
– bugosa – emendou Emília.
– Sim, é isso. Pois eu teria imenso prazer em trocar ideias com o ilustre colega. Onde anda ele?
– Não sei – disse Dona Benta. – O Visconde, duns tempos para cá, pouco me aparece, anda sempre por fora, com certeza mergulhado nos seus estudos. Vá ver se encontra o Visconde, Emília.
Emília foi, e minutos depois apareceu acompanhada do sabuguinho. Dona Benta fez as apresentações.
– O Doutor Zamenhof mostrou-se admiradíssimo. Esperava um homem como ele, um sábio de barbas e óculos, e apresentavam-lhe um sabugo de cartola! Julgando que fosse brincadeira, quase zangou.
– Minha senhora – disse ele – parece-me que a mistificação está sendo um tanto excessiva…
Dona Benta não entendeu
– Mistificação, doutor?
– Sim, falam-me dum sábio e apresentam-me um sabugo de cartola! Se eu não mereço respeito, acho que deve ser respeitada a ciência que eu represento.
Dona Benta caiu em si e riu-se.
– Tem toda a razão, doutor. É tão estranho este caso do nosso sabuguinho falante que um homem normal, como o senhor, não pode ter outra impressão. Mas converse com ele e veja por si mesmo se o nosso Visconde é ou não é um sábio
– Converse com ele? – repetiu o Doutor Zamenhof. – Pois então ele fala?
– Se fala! – bedelhou Emília. – E só fala ali na batata científica! Experimente.
O Doutor Zamenhof não percebia nada de nada, e continuou firme na convicção de que todos queriam empulhá-lo. Chegou a corar até a raiz dos cabelos. Mas quase caiu para trás, de espanto, ao ouvir o Visconde abrir a boca e dizer:
– Estou me lembrando da minha conferência com os professores da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos. Também eles muito se espantaram de que uma criatura como eu falasse…
O susto fez o Doutor Zamenhof perder a lingua. O sabuguinho falava mesmo e muito bem! Tia Nastácia veio com um copo d’água, que o sábio engoliu dum trago. Depois…
– Desculpe, minha senhora – disse ele dirigindo-se a Dona Benta. Errei nas minhas desconfianças mas quem não me perdoará este humaníssimo erro? A coisa me parece a tal porto absurda que chego a duvidar de mim mesmo. Estarei por acaso sonhando?
– Belisque para ver disse Emilia.
O Doutor Zamenhof beliscou-se. Sim, não era sonho, não. Estava acordadíssimo. Mas continuou no ar, sem conseguir por em ordem suas ideias.
– Café! – gritou Dona Benta para a cozinha. – Para consertar estas situações mentais, nada como os cafés de Tia Nastácia.
Veio o café com bolinhos. O barbudo sábio tomou-o e foi assentando as ideias. Minutos depois estava de braço dado ao Visconde, passeando pela sala e absorvido numa profundíssima conversa sobre glândulas.
– Ando interessado em descobrir a verdadeira função da glándula pineal – dizia o Visconde.
Credo! – exclamou Tia Nastácia, que tinha vindo tirar a bandeja do café. – Até assusta a gente, essa “linguage”…
A conversa dos dois sábios foi interrompida por uma gritaria lá fora. Correram todos para a varanda. Vinha vindo um agitado bando de homens em busca do Doutor Zamenhof.
– Que ha? – interpelou este de longe.
– Descobrimos a Noventaequatropeia! – berrou o da frente. – Está a um quilómetro daqui!…
O Doutor Zamenhof despediu-se às carreiras e lá se foi, seguido do Visconde e de Pedrinho. Não queria que matassem o monstro. Sua intenção era pegá-lo vivo para pô-lo num jardim zoológico.
