os músicos de bremem – coro dos patrões

A ditadura da burrice 12: OS MÚSICOS DE BREMEM / CORO DOS PATRÕES


OS MÚSICOS DE BREMEM

É sempre assim:
A gente trabalha feito um burro,
É puxando carroça, é dando murro.
Mas dinheiro que é bão, não vê não,
Vai tudo pra mão do patrão.

É sempre assim:
A gente trabalha feito um cachorro,
É roendo osso, é morando no morro.
Mas dinheiro que é bão, não vê não,
Vai tudo pra mão do patrão.

É sempre assim:
A gente trabalha feito um gato,
E fazem da gente gato e sapato.
Mas dinheiro que é bão, não vê não,
Vai tudo pra mão do patrão.

É sempre assim:
A gente quer dar uma de galo,
Anunciar o final do intervalo.
Mas o bico não pode abrir não,
Se não vai parar na prisão.


CORO DOS PATRÕES

Não tem jeito.
Eles não trabalham direito.
Temos que manter o respeito,
Ou perdemos o conceito; 
Não tem jeito.

Com efeito.
Tudo que eu fizer é direito,
Falo isso sem preconceito.
E é melhor não botar defeito.
Com efeito.

Meu preceito,
É prevalecer o direito,
Desde que eu não perca o proveito.
E eu tenho um plano bem feito.
Meu preceito:

Só respeito,
Não tem mais jornal, não tem pleito,
Sem oposição, é perfeito.
Força e medo num só leito.
Só respeito.

Curitiba, outubro de 1976.
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apolo e jacinto, 19

apolo e jacinto, 19.

o quê? o que você disse?
não houve resposta imediata. apenas a respiração que se acelerou, o corpo que amoleceu, o soluço que começou a abrir caminho, violentando a coragem de teófilo. sentiu-se aflito, nervoso, lutando angustiado contra algum inseto invisível de ferrão profundo e mortal.
não sei. não sei, alio. está tudo confuso… não sei o que se passa. eu… eu não quero me arrepender. não quero chorar mais. não entendo o que sinto.
vamos sair daqui. eu também tenho medo. alio moveu-se.
alio! não me abandone. eu preciso de você. meu corpo estremece, meu coração se abala, sinto a ameaça de um desencadear de horrores, mas eu vou resistir. eu quero resistir. eu preciso.
sentou-se na cama de repente e segurou alio pelos ombros, com violência. alio assustou-se, tentou acariciá-lo nas mãos…
eu não vou me arrepender. eu não vou me arrepender! tenho que me acostumar, tenho que entender isto. acontece! acontece!
ao perceber que os olhos de alio se perturbavam, que sua luz agonizava, teófilo sentiu algo rebentar dentro dele.
desculpe, alio. você também sofre. desculpe. 
não sei como vai entender o que direi. mas vou dizer. não estou bem, sinto algum aperto, algum esmagamento. mas eu estou feliz.
alio, eu preciso de você. você me assegurou uma conquista imensa.
alio tentou não sorrir. não conseguiu. o sorriso veio, como um passarinho que pousasse em seus lábios, para entoar a canção da felicidade daquelas três últimas noites.
quero que me entenda direito. não é uma conquista da sua pessoa. não é você que eu conquistei. é minha própria covardia! é minha covardia, que eu domei, aprisionei e destruí. não quero ter mais medo. é uma vitória, isto, você entende?
alio baixou os olhos.
não vou mais ter medo. está confuso agora; depois, acho que passa. acho que sei, por que está tudo tão confuso.
alio levantou o rosto. teófilo o fitou, cheio de desolação. os lábios de alio reexplodiram o balão:
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pássaros de ontem, pássaros de hoje

Canções diversas 12: PÁSSAROS DE ONTEM, PÁSSAROS DE HOJE.
 
Matei meus sonhos
e fantasias,
mas continuo
sempre a sofrer.
Que os sonhos morrem,
mas não os desejos.

Debilitei
meu coração
mas ele, impune,
sempre a bater.
Que os sonhos morrem,
mas não os desejos.

Eu quis encher-me
de proteção,
mas essa febre,
sempre a crescer.
Que os sonhos morrem,
mas não os desejos.

Oco de sonhos
de dores frias,
não mais consigo 
me defender.
Se a sonhos mortos
não os desejo,
desejos vivos
não sei conter.
 
Curitiba, 09.06.82.
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