as mui amigas multinacionais

A ditadura da imoralidade 04: AS MUI AMIGAS MULTINACIONAIS.

Não mais me contenho, dizer-lhes eu venho
Como uso com empenho o dinheiro que tenho:
Comprar, comprar, comprar, comprar,
Comprar, comprar, comprar, comprar…
-exaco, Oli-etti, Esso—ell, Atlan-ic,
Que chique, que chique, estou podre de chique.

Troquei a mobília, vesti a família,
Passeei em Brasília, casei minha filha.
Comprar, comprar, comprar, comprar,
Comprar, comprar, comprar, comprar…
-olkswagen, -ord, -norr, Ishikawa-ima,
Por cima, por cima, estou sempre por cima.

O carro também, (o do ano que vem),
Quando a gente tem, se sente tão bem…
Comprar, comprar, comprar, comprar,
Comprar, comprar, comprar, comprar…
-erox, Ya-aha, -argill, -ocacola,
A sacola, a sacola, é encher a sacola.

A loura platina, importados da China,
Jasmim na latrina, esvaziar a vitrina.
Comprar, comprar, comprar, comprar,
Comprar, comprar, comprar, comprar…
–evrolet, -irelli, -odak, I-T,
Pra você, pra você, só pensando em você.

Tristeza embrulhada, alegria ensacada,
Arte empacotada, vida engarrafada.
Comprar, comprar, comprar, comprar,
Comprar, comprar, comprar, comprar…
A Anderson –ayton, -ood Year, King Size,
E nada de entrada, em prestações mensais.

Curitiba, setembro.1976.
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apolo e jacinto, 12

apolo e jacinto, 12.

Não aguento mais, não posso sacrificar furacão. Alio deve estar perdido por aí, daqui a quanto tempo chegará com a comida? Pobre furacão, está cansado! vamos até a beira do rio. Não devo beber agora, estou suado. Não devo beber agora. Não sei o que farei pra passar o tempo, pra esperar que ele chegue. Não queria pensar em nada. Não adianta fechar os olhos, eu só vejo na minha frente aquele rostinho contraído e molhado de lágrimas por que foi que eu não fiquei lá com ele?, mas como?, que desculpa?, aí, sim, hans ia desconfiar. Estava tudo tão bem preparado e eu não esqueci a bolsa com os estiletes e meu menino se feriu com o meu punhal, com o meu punhal!, maldição!, eu dei quando o conheci, aliás eu já o conhecia mas só o notei naquele dia em que hans o pôs a vigiar meu sono, não é notar, é descobrir que ele existe, também não é bem isto, é como se uma pessoa que a gente conhece nascesse de novo, na mesma pele, com o mesmo olhar, o mesmo corpo, a mesma voz, mas não é aquela antiga pessoa, é alguém saído da espuma do mar, como a bela deusa da mitologia. Eu acordei e ele conversou comigo e eu saía dum pesadelo terrível em que só aquele monstro existia dentro ele continua vivo fora e dentro de mim a me atormentar e os outros estão enforcados parecia que ele era meu filho querido que nunca tive parecia que ele era eu há tanto tempo já e descobri de repente que alguma coisa estava acontecendo quando eu descobri já era tarde porque já tinha acontecido, não sei por que eu aceitei as coisas assim, não me entendo, numa hora qualquer eu descobri que não adiantava porque eu já estava apaixonado eu não sei se devo falar apaixonado mas não existe outro termo porque o que sinto é amor exatamente como o amor que senti quando me casei e nem era tão forte assim e nem era tão bonito e agora parece que eu entendo melhor aquelas profundas admirações que eu sentia por alguns amigos não sei se seria de fato a mesma coisa penso até que já me apaixonei por hans quando o conheci mas eu pensava que ele era meu pai mas com luis não foi assim acho que foi aquele ladrão assassino que tocou punheta e eu vi depois o guarda comendo o outro e tiraram a roupa dele e ele tem um pau enorme mas eu prefiro o meu amiguinho porque eu o amo e sei bem que se ele viesse a mim eu ia chorar de arrependimento e não era nisso que eu queria estar pensando porque tenho a alma presa, amarrada, amordaçada, não sei o que faço…
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retrato três por quatro

A ditadura da burrice 05: RETRATO TRÊS POR QUATRO.

(triolé encadeado)
 
Você é muito bonzinho
sua bondade me espanta.
Bota pedras no caminho,
você é muito bonzinho.
Não deixa o vilão sozinho,
se ele cai, você o levanta.    
Você é muito bonzinho,
sua bondade me espanta.

Bota pedras no caminho
e institui a casa escura.
Mói a todos no moinho,
bota pedras no caminho.
Mata a flor mas deixa o espinho
faz florescer a incultura.
Bota pedras no caminho
e institui a casa escura.

 Mói a todos no moinho, 
faz da pátria o seu bordel.
Novas leis no pergaminho,
mói a todos no moinho.
Fere a ave, queima o ninho 
e liberta a cascavel.
Mói a todos no moinho,
faz da pátria o seu bordel.

Novas leis no pergaminho,
com congresso ou sem congresso.
Silencia o burburinho,
novas leis no pergaminho.
Doa a estopa e veste o linho,
forja na tela o progresso.
Novas leis no pergaminho,
com congresso ou sem congresso.

Silencia o burburinho
nos porões da inquisição.
Dá trator, mas vende ancinho,
silencia o burburinho.
Emprega o tio, o sobrinho
e empresta só ao ladrão.
Silencia o burburinho
nos porões da inquisição.

Dá trator, mas vende ancinho
e planta as garras da morte.
Fala aos do norte em carinho,
dá trator mas vende ancinho.
Dá o latifúndio ao padrinho,
pisa o fraco, eleva o forte.
Dá trator mas vende ancinho
e planta as garras da morte.

Fala aos do norte em carinho
mas emudece a imprensa.
Faz aperto ao colarinho,
fala aos do norte em carinho.
Adia o riso e o vinho,
semeia a convalescença.
Fala aos do norte em carinho
mas emudece a imprensa.

Faz aperto ao colarinho
e degola a liberdade.
Você é muito bonzinho,
faz aperto ao colarinho.
Gera o morcego daninho
Ratifica a orfandade.
Faz aperto ao colarinho
e degola a liberdade.

Curitiba, agosto, 1976.
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