A Chave do Tamanho
Capítulos 19 e 20
19 – Viagem pelo mundo
Tudo estava pronto para a viagem. No último momento o Visconde achou melhor desistirem do plebiscito e, em vez do passeio pelo mundo, tocarem diretamente para a Casa das Chaves. Alegou que cada minuto de demora eram mais milhões de seres humanos que pereciam em todos os continentes.
— E não se perde grande coisa — respondeu Emília. — O infinito é um colosso, Visconde. Há lá pelos céus milhões e milhões de astros muitíssimas vezes maiores que esta pulguinha da Terra. E nesta pulguinha da Terra a humanidade é uma poeirinha malvada. Para o Universo tanto faz que essa poeirinha exista como não exista.
Aquele pouco caso da Emília pela humanidade não impressionou o Visconde. Ele viu que no fundo não era pouco caso, e sim muito caso. Emília revoltava-se com as guerras e as outras formas de crueldade dos seres humanos. O apequenamento causado pela sua reinação evidentemente não fora de propósito. Quando Emília virou a chave, sua intenção não fora fazer mal a ninguém, e sim bem: acabar com as guerras. Havia de haver uma chave da guerra, e o seu pensamento foi ir experimentando todas as chaves até acertar. Mas assim que virou a primeira, aconteceu o tal apequenamento, e ela nem sequer pôde suspender outra vez a chave, quanto mais experimentar as outras. “Emília é filósofa”, pensou o Visconde, “e quando se põe a filosofar parece que tem coração duro mas não tem. Emília é filosoficamente boa.”
Depois de tudo bem combinado, e de tomadas lá na cômoda todas as providências, partiram. O fiun foi formidável, porque quanto mais novo é o super-pó, mais forte. Emília, coitadinha, perdeu completamente os sentidos, e o Visconde ficou mais tonto que das outras vezes. Continue lendo “Monteiro Lobato”
