Monteiro Lobato

A Chave do Tamanho

Capítulos 13 e 14

 

13 – Revelações

         O sol estava quente. Emília, afogueada pelo exercício não pôde mais com o calor do algodão. Despiu-se e ficou nuazinha na palma da mão do Visconde, só de botas. Ele ergueu-a à altura do nariz e disse:

         — Pode falar. Conte tudo o que houve.

         Emília contou tudo — a sua viagem à Casa das Chaves, a puxada para baixo da Chave do Tamanho e o “apequenamento”.

         O Visconde horrorizou-se.

         — Será possível? Então foi você, Emília, a causadora do tremendo desastre que vitimou a “humanidade clássica?”

         — Fui eu, sim, mas não foi por querer. Eu queria apenas descobrir a Chave da Guerra, só isso. Mas as chaves não tinham letreiro. Resolvi então ir mexendo em todas até acertar. A primeira que peguei era a Chave do Tamanho — quem primeiro ficou sem tamanho fui eu. E como perdi o tamanho, não pude erguer de novo aquela chave — e pronto.

         O Visconde não voltava a si do assombro.

         — É espantoso o que você fez, Emília! Isso já não é reinação. Isso é catástrofe! Pelo que observei lá no sítio estou imaginando o que se deu no mundo inteiro — e agora eu ia indo à cidade para assuntar, para ver se o apequenamento alcançou todas as criaturas. Continue lendo “Monteiro Lobato”

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Monteiro Lobato

A Chave do Tamanho

Capítulos 11 e 12

 

11 – No ninho do beija-flor

         O passeio de Emília pelos ares foi curto, porque todas as distâncias ficam curtas para a rapidez dos beija-flores. Aquele estava justamente acabando de construir o seu ninho num buraco da estrada, à beira da vila.

         Chegou lá, soltou o algodão e ajeitou-o com o bico em certo ponto do ninho.

         Depois afastou-se. Ia com certeza buscar os outros chumaços. Emília botou a cabecinha de fora e espiou. Um ninho enorme de diâmetro igual a cinco vezes a sua altura. Ovo não havia nenhum. Só paina de todos os lados. Emília estava a pensar no que fazer quando ouviu um barulho. Era o imenso beija-flor que voltava com outro chumaço no bico — o Juquinha. Na terceira viagem trouxe a Candoca. Emllia admirou-se de vê-la calada, mas aquele silêncio vinha dum aviso do Juquinha. “Se você continua a chorar, estes monstros descobrem o nosso mimetismo e adeus, Candoca!”

         Ela compreendera e calara-se.

         O lindo colibri arrumou do melhor jeito os dois algodões e acomodou-se no ninho. Era tarde já, hora das aves se recolherem. Emília ficou quietinha pensando. Não lhe passou pela cabeça falar com os companheiros. Muito distantes dela, além de que o beija flor podia perceber. Tratou de acomodar-se como melhor pôde e dormir. E dormiu a mais agradável noite de sua vida. Que deliciosa quenturinha! Continue lendo “Monteiro Lobato”

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A Chave do Tamanho

Capítulos 9 e 10

 

9 – A estante dos remédios

         A estante dos remédios era das pequenas, como em geral as estantes de remédios, de modo que a segunda prateleira ficava a apenas dois palmos do chão. Mesmo assim, para criaturinhas daquele tamanho a altura de dois palmos era o mesmo que um sobrado. Emília, entretanto, foi subindo.

         Encontrou vários cadáveres secos de moscas, borboletinhas, traças e até o de um vaga-lume dos menores.

         — Já sei por que a aranha desta teia não está aqui — disse ela consigo. — Sugou este vaga-lume e morreu envenenada. Aquela luzinha dos vaga-lumes é fósforo — um veneno terrível.

         A sua hipótese do buraco do nó de pinho acertou. Lá estava um e bem na altura da segunda prateleira. Emília deu jeito, passou-se da teia para o buraco e com um pulinho saltou na prateleira. Caiu bem em cima duma roda de carro, branca como leite. Era um comprimido de Fontol. Continue lendo “Monteiro Lobato”

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