Monteiro Lobato

Dom Quixote das Crianças

Capítulos 17 e 18

 

17 – Fim da penitência. O príncipe etíope. Espantosa briga

– Está aí uma coisa a que eu desejava assistir, vovó – disse Narizinho. – Dom Quixote dando vira-cambotas devia ser a coisa mais cômica do mundo. Coitado!

– De fato. Quando vocês crescerem e lerem este capítulo de Cervantes, hão de achá-lo engraçadíssimo – e ao mesmo tempo triste. A loucura é a coisa mais triste que há…

– Eu não acho – disse Emília. – Acho-a até bem divertida. E, depois, ainda não consegui distinguir o que é loucura do que não é. Por mais que pense e repense, não consigo diferençar quem é louco de quem não é. Eu, por exemplo, sou ou não sou louca?

– Louca você não é, Emília – respondeu Dona Benta. – Você é louquinha, o que faz muita diferença. Ser louca é umperigo para a sociedade; daí os hospícios onde se encerram os loucos. Mas ser louquinha até tem graça. Todas as crianças do Brasil gostam de você justamente por esse motivo – por ser louquinha.

– Pois eu não quero ser louquinha apenas – disse Emília. – Quero ser louca varrida, como Dom Quixote – como os que dão cambalhotas assim…

E pôs-se a dar vira-cambotas na sala.

Dona Benta riu-se. – É inútil, Emília. Por mais que você faça, não consegue ser louca varrida – ficará sempre uma louquinha muito querida das crianças.

– Pare com Emília, vovó! – gritou a menina, furiosa. – A senhora até parece o Lobato: – Emília, Emília, Emília. Continue a história de Dom Quixote.

E Dona Benta continuou:

– Ao regressar para sua aldeia – disse ela – Sancho teve que passar pela estalagem onde os moços reinadores o haviam manteado. Logo que a defrontou, um arrepio correu-lhe pelo corpo. Que fazer?

Entrar? Arriscar-se a outra esfrega? O medo o fazia cauteloso, mas a fome era grande. Nisto saem lá de dentro dois vultos.

– Senhor cura – disse um -, aquele tipo gorducho acolá não é o tal labrego Sancho Pança que se sumiu em companhia de Dom Quixote?

– Exatamente! É ele sem tirar nem pôr. E aquele cavalo, juro que é o cavalo de Dom Quixote.

Os dois vultos eram o cura da aldeia e o barbeiro. O cura aproximou-se de Sancho e disse:

– Olá, amigo Sancho, que é feito do teu amo?

Sancho contou tudo; narrou todas as aventuras em que Dom Quixote se tinha envolvido e a penitência que impusera a si mesmo. E acrescentou que ele, Sancho, muito breve estaria governador duma ilha ou monarca dum grande império.

O cura e o barbeiro entreolharam-se. O labrego pareceu-lhes tão fora do juízo como o amo.

– Pois queira aceitar meus sinceros parabéns, senhor futuro dono de ilha – disse o cura. – Mas enquanto a ilha não vem, temos de acudir ao teu amo, fazer que acabe já com essa penitência que lhe pode prejudicar a saúde. Antes disso, porém, entremos para reconfortar os estômagos.

– Deus me livre! – exclamou o escudeiro, com a cena da manteação bem avivada na memória. – Entrem V. Sas., que eu comerei cá fora em companhia de Rocinante.

Durante a refeição o cura e o barbeiro combinaram tudo quanto era mister fazer para reconduzir Dom Quixote a casa. Tinham de representar uma comédia, com disfarces e barbas postiças, e para isso montaram em suas possantes mulas e se foram de rumo à serra Morena. Sancho seguiu na frente para avisar Dom Quixote.

Em caminho encontraram um rapaz de nome Cardênio, ao qual contaram tudo e pediram que os acompanhasse, tomando parte na comédia. Cardênio aceitou. Iria disfarçado em príncipe etíope juntamente com o barbeiro. Uma hora depois Sancho voltou no galope.

– Açudam depressa, meus senhores. Meu amo está no mais lamentável estado. De cuecas, magro que nem um arenque, amarelo como cidra. Se V. Sas. não o sacam destas brenhas, ai de mim! Não terei ilha, não serei monarca! Mas quem é este fidalgo? – perguntou ao cura, vendo ali aquele moço desconhecido, já disfarçado em príncipe etíope, com um barbudo escudeiro também etíope ao lado.

O cura respondeu muito sério:

– Trata-se do príncipe herdeiro do grande reino de Micomicón, na Guiné, que vem suplicar ao ilustríssimo e excelentíssimo Senhor Dom Quixote de Ia Mancha que o vingue de certo gigante malvado.

Sancho arregalou os olhos, radiante.

– Fez bem de vir procurar meu amo – disse ele dirigindo-se a Cardênio – porque com uma só espadada Dom Quixote manda esse gigante para o inferno. – E voltando-se para o cura: – Diga-me, senhor cura, o nome deste infeliz príncipe.

– É o Príncipe Micomicônio, do reino de Micomicon.

– Ahn! Percebo. Lá na Guiné é como aqui na Espanha – cada qual toma o apelido da sua aldeia.

O cura, que dera o seu disfarce ao barbeiro, dispensou-se de acompanhar os dois etíopes e ordenou a Sancho que os levasse à presença de Dom Quixote, sem nada lhe dizer do encontro com ele, cura. Do contrário Dom Quixote não seria imperador, nem ele, Sancho, dono de ilha. Sancho prometeu calar-se e os três puseram-se a caminho.

Três quartos de légua adiante avistaram o herói da Mancha.

Estava de pé, despido das armas. Foram ao seu encontro. O barbudo escudeiro etíope apeou-se da mula e ajudou o amo a fazer o mesmo. O príncipe arrojou-se aos pés do grande herói, exclamando:

– Ó tu, honra e glória da cavalaria andante, herói magnânimo, grande filho de Espanha, única esperança minha! Venho recorrer ao teu braço potentíssimo para vingança duma cruel injúria.

– Vingar-te-ei – respondeu Dom Quixote – contanto que essa empresa não seja contrária aos interesses do meu rei e da minha pátria.

– Peço-te, nobre cavaleiro – continuou o falso príncipe -, que me acompanhes e não empreendas nenhuma outra aventura antes de vingar-me do gigante que me usurpou os Estados.

– Juro a Vossa Alteza que assim será – respondeu Dom Quixote. – Tudo farei como quer. Partamos imediatamente. Minuto perdido para a glória é minuto perdido para sempre.

O príncipe quis beijar a mão do herói, mas este o abraçou com afeto e ordenou a Sancho que selasse Rocinante e lhe trouxesse as armas. O barbeiro, sempre ajoelhado, não se atrevia a falar, nem a mexer-se, de medo que lhe caíssem as barbas. Ao ver Dom Quixote montar, ergueu-se; correu a ajudar Cardênio a pôr-se sobre a mula; por fim montou e seguiu na rabada da comitiva.

 

18 – A aventura dos odres de vinho

– Coitado! – exclamou Narizinho nesse ponto. – Cada vez fico mais penalizada da loucura do pobre Dom Quixote. Um homem tão bom, de tão nobre sentimento, a servir de peteca a esses bobos todos. Até o cura! Por que esse padre não ficou lá na aldeia dizendo missas? Que tinha de meter-se com a vida do fidalgo?

– Você está sendo injusta, minha filha. O cura e o barbeiro eram amigos de Dom Quixote, que tudo faziam para vê-lo de novo em casa. Ora, o meio de conseguir isso só podia ser esse – enganarem-no. Do contrário, só levando-o à força, coisa muito pior.

– O que admiro – disse Pedrinho – é Sancho não desconfiar da comédia.

– Ele às vezes desconfiava, mas eram tantas a enganá-lo que o pobre gorducho acabava cocando a cabeça na dúvida.

– E depois, Dona Benta? – perguntou Emília. – Que aconteceu depois?

– Depois? Depois partiram todos. O pobre Sancho teve de seguir a pé, esbaforido, suando e suspirando de saudades do antigo burrinho. Mas consolava-se com a idéia de muito breve estar seu amo imperador de Micomicon e ele na posse da sonhada ilha. Só não estava gostando de serem negros como carvão os seus futuros vassalos; mas uma idéia súbita lhe fez brilhar os olhos: “Tanto melhor! Renderão dinheiro. Mandarei vendê-los em Espanha a cinqüenta moedas cada um – e vai ser um rio de ouro. Que pepineira!”

O cura ficara a espiar de longe, escondido numa moita. De repente, apareceu, fingindo grande surpresa de ver ali Dom Quixote.

– Oh! Se não me engano é o valentíssimo compatriota, o invencível Dom Quixote de Ia Mancha, cujas aventuras assombram o mundo!

Surpreso também do encontro, o herói da Mancha saudou o cura e quis ceder-lhe o cavalo. O cura agradeceu e montou no animal do barbeiro, que apeara – e lá seguiu par a par do cavaleiro andante, que se entretinha em conversar com o príncipe.

– Conte-me, príncipe, os seus infortúnios.

O falso etíope espirrou, escarrou, tossiu e disse:

– Senhor, eu me chamo Micomicônio, e meu pai, monarca do império de Micomicon, se chama Trinácrio, o Sábio, por ser habilíssimo nas artes mágicas. Graças a essas artes pôde adivinhar que a Rainha Xamarila, minha adorada mãe, ia morrer antes dele – e também adivinhou que sua própria vida estava chegando ao fim.

Isso apenas o entristeceu; não o abalou; eram coisas naturais. O que o abalou tremendamente foi saber que o seu império seria invadido por um horrendo gigante, rei da vizinha ilha de Pandafila: o Rei Zanaga. E que eu, já então no trono, seria expulso dos meus domínios se não me casasse com a filha do monstro.

Meu pai tinha a certeza de que eu jamais me casaria com semelhante criatura, e portanto me aconselhou que viesse à Espanha em busca do poderoso cavaleiro andante Dom Chicot, Dom Gigot ou Dom Quixote – ele não sabia o nome ao certo. Explicou-me que era um cavaleiro alto, magro, com um sinal negro nas costas.

– Sancho! Sancho! – bradou o herói da Mancha. – Despe-me já, Sancho, para que o príncipe veja minha marca.

– Não é preciso – observou o escudeiro. – Eu juro a existência dessa marca e o príncipe acredita.

– Acredito, sim – disse o príncipe. – Não tenho a menor dúvida de achar-me diante do herói que meu pai indicou como único homem no mundo que poderá destruir o usurpador do nosso império.

Esqueci-me de declarar a V. Sa. que meu pai, o Imperador Trinácrio, deixou um papel ordenando que o reino fosse entregue a esse cavaleiro, logo que haja destruído o usurpador. Fiquei incumbido de realizar essa ordem entregando a V. Sa. a coroa e o cetro imperiais.

– Não te dizia eu, Sancho? – exclamou Dom Quixote, voltando-se para o escudeiro. – Não te dizia que íamos ter reinos, impérios e ilhas a rodo?

– Assim é, senhor – respondeu Sancho, contentíssimo do reino que se aproximava. – Só desejo que V. Sa. abra ao meio esse Rei Zanaga – e quanto antes melhor. Estou a arder pela ilha que ele possui. Viva! Viva! – E Sancho deu pinotes de alegria, bateu palmas, beijou a mão do príncipe.

– Eis, senhores – continuou o príncipe -, a breve história das minhas desgraças. Na viagem para cá, um naufrágio roubou-me o meu brilhante séquito e as riquezas e presentes que trazíamos. Só escapamos, sobre umas tábuas, eu e este escudeiro barbadão.

– Coragem, príncipe! – exclamou Dom Quixote. – As desgraças de Vossa Alteza acabarão muito em breve. Prometo não me separar de Vossa Alteza enquanto não cortar a cabeça ao pérfido Rei Zanaga.

Nesse momento avistaram na curva da estrada um indivíduo montado num burro. Sancho reconheceu imediatamente o seu burrinho, furtado por Gines de Passamonte – era o próprio Passamonte que vinha montado.

– Oh, velhaco! Oh, ladrão! – grita-lhe Sancho. – Larga já do meu burro, patife!

Vendo Sancho em boa companhia, Gines pulou do burrinho e fugiu para o mato. Sancho voou ao encontro do asno, que abraçou e beijou.

– Até que enfim te encontro, ó meu bem-amado burrinho, meu companheiro, meu filho querido!

O jumento deixou-se abraçar e beijar sem dizer nada. Todos exultaram com o acontecimento e Dom Quixote declarou que, apesar de ter Sancho reconquistado o burrinho, continuava com direito aos três que lhe dera. Nunca Sancho se achou tão feliz.

À beira dum límpido riacho, o grupo se deteve para uma breve refeição com coisas trazidas da estalagem. Estavam a manducar as gulodices quando um meninote se aproximou.

– Bons dias, meu senhor – disse ele. – Não está reconhecendo em mim aquele André atado a um carvalho, que levou uma tremenda surra?

Dom Quixote tomou-o pela mão e apresentou-o aos outros, dizendo:

– Eis, senhores, um vivo exemplo da utilidade da cavalaria andante. Dias atrás, cruzando certo campo, ouvi lastimosos gritos, e logo depois dei com este menino a ser surrado por um bruto que não lhe queria pagar os salários. Ordenei-lhe que o soltasse incontinenti e que tudo pagasse até o último vintém, o que me foi prometido sob juramento. Não foi assim, André?

– Sem tirar nem pôr – respondeu o menino. – Mas assim que Sa. se afastou…

– Já sei, recebes te ali mesmo a paga dos salários vencidos, não é?

– Sim, meu senhor, recebi a paga, não em moeda. Recebi-a em lambadas, e tantas que fiquei com as costas em sangue. Se não fosse a sua intervenção, meu senhor, eu teria ficado na primeira sova. Mas por causa da intervenção recebi duas – a segunda muito pior que a primeira. E nada do salário. O malvado vingou-se de V. Sa. no meu lombo.

– Já, já, Sancho! – gritou Dom Quixote colérico. – Enfreia Rocinante que quero ir castigar o celerado de modo que espante as gerações vindouras.

– Ora, deixe-se disso – exclamou o rapazinho. – Prefiro que me dê alguma coisa para eu continuar minha viagem.

– Toma lá – disse Sancho – esta bucha de pão e esta lasca de queijo. Nós, escudeiros dos cavaleiros andantes, nunca temos nada de dar, de modo que é sorte tua teres pilhado isto.

Vendo que não vinha mais nada, o menino deitou a correr, gritando:

– Mil raios partam os cavaleiros andantes que só servem para dobrar as sovas dos malvados!…

Dom Quixote magoou-se grandemente com aquilo.

Concluída a refeição, montaram e despejaram léguas. Chegaram por fim à estalagem do manteamento. O estalajadeiro, sua mulher e a Maritornes saíram ao encontro do Cavaleiro da Triste Figura, o qual os reconheceu e pediu que lhe dessem melhor cama que da última vez. E ao ver-se na cama Dom Quixote, exausto da penitência e da caminheira, dormiu imediatamente.

Os outros então combinaram que fazer. Mestre Nicolau tirou a barba postiça, pedindo que, quando Dom Quixote acordasse e desse pela falta do escudeiro barbudo, todos o informassem de que fora mandado a Micomicon para anunciar o feliz encontro do herói da Mancha.

O estalajadeiro estava a arrumar a mesa para a ceia quando Sancho desceu a escada aos trambolhões, berrando qual possesso:

– Acudam! Acudam! Meu amo está a acutilar o gigante!

– Que loucura é essa, Sancho? – brada o cura. – O gigante está a mil léguas daqui.

Soa lá de cima a voz de Dom Quixote:

– Ladrão! Assassino! Desta vez não escaparás. Nada valem contra mim tua força e tua cimitarra!

– Estão ouvindo? – diz Sancho. – Eu vi o gigante! Vi jorrar sangue da sua cabeça enorme! Vi escorrer sangue vermelho como vinho.

– Upa! – exclamou o estalajadeiro com uma idéia súbita. –

Querem ver que esse raio de homem está a me abrir lá em cima os odres de vinho, pensando serem gigantes? – e subiu as escadas a galope, seguido de todos.

Dom Quixote, em fraldas de camisa, barrete de dormir na cabeça, manta enrolada no braço esquerdo, feria com a espada os pobres odres de couro, alagando o quarto com ondas de vinho vermelho.

A fúria do estalajadeiro foi tamanha que se não o agarram era capaz de destruir Dom Quixote. Enquanto isso, Sancho farejava pelos recantos em procura da cabeça do gigante.

– Maldita estalagem! – ia dizendo. – Está enfeitiçada. Eu vi a cabeça do gigante rolar por terra e agora só encontro odres furados…

Dom Quixote, que fizera aquilo em sonho, acordou e arregalou os olhos.

– Príncipe – disse ele, voltando-se para Cardênio -, foi-se o tirano. Meu fortíssimo braço o fez morder o pó. Sancho sorriu, reanimado.

– Estão vendo? Meu amo já arrasou com o patife e eu serei rei da ilha dos negrinhos.

Os circunstantes não resistiram por mais tempo. A gargalhada foi geral, exceto da parte do estalajadeiro, que não achou graça nenhuma em ver tanto vinho perdido. Também sua esposa e a Maritornes mostravam cara feia.

Mas o cura prometeu acomodar tudo. Pagaria o vinho entornado.

E Cardênio daria a Sancho a ilha do gigante morto. Tudo ótimo. Dom Quixote embainhou a espada e voltou para a cama. Minutos depois adormecia.

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